A opinião política liberal na blogosfera parece muito sofisticada e independente, mas há preconceitos que nunca nos largam. Alguns políticos, por mais cosi di destra (liberal) que digam, são sempre olhados de soslaio e desconsiderados como socialistas encapotados; outros, perfeitamente tarimbados num passado de estatismo e social-democracia (ainda para mais incompetente), proferem uns arremedos de liberalismo aparente, descordenados e esporádicos, e provocam logo a fantasia do povo ansioso.
Do que se conhece, Ferreira Leite parece estar mais próxima de desiludir os incautos que Passos Coelho. Mas não pensem os ilustres independentes que tão afectuosamente aderiram à causa deste último terem sido menos imprevidentes. Convém lembrar de que partido falamos. E que, por exemplo, Passos convidou Fernando Ruas para seu mandatário nacional.
Se há pessoa de quem eu julgo conhecer bem o pensamento político, essa pessoa é Fernando Ruas, de cujo executivo e maioria eleitoral sou oposição na Assembleia Municipal de Viseu. Ruas está tão próximo da tradição, da narrativa e do léxico liberais quanto - digamos - Ferreira Leite de Santana Lopes. Com ele, Viseu tranformou-se num Concelho (e numa região) em que a Câmara Municipal é o centro único e inamovível de toda a vida económica, social e cultural, em que não há agente empresarial, empreendedor assistencialista ou promotor artístico que não dependa dos humores dos poderes públicos locais (desde logo, porque o PSD faz questão de fazer eleger os seus militantes para a direcção de toda e qualquer associação distrital, concelhia ou de bairro - muito surpreenderia a intelligentsia lisboeta a importância política que uma eleição para os bombeiros voluntários assume em cidades como Viseu) - e tudo, como é óbvio, devidamente amparado pelo proverbial e considerável séquito de dependentes, de empregos, de avençados, de funcionários, sem qualquer respeito pelo primor meritocrático que Passos Coelho tanto aprecia apregoar.
Percebo a influência, o peso eleitoral, a capacidade e disponibilidade para a angariação de votação que Ruas representa. E que, quando os fins são gloriosos, existem alguns meios menos coerentes com que se pode transigir. A maior virtude desta escolha, no entanto, é a de nos lembrar a velha e dura realidade: Passos Coelho até pode ser eleito primeiro-ministro e cumprir algumas da suas mais simbólicas promessas (a privatização da CGD ou da RTP), mas nunca conseguirá fazer com que o PSD cumpra uma reforma do Estado e uma reconfiguração das suas competências que, mais tarde ou mais cedo, exigirão que se confrontem, calem ou enxotem os elementos indispensáveis ao próprio funcionamento do partido enquanto máquina eleitoral (ou seja, aqueles que lhe dão a razão de ser).
Para além de uma desumanidade inominável, pedir ao criador que mate a criatura parece-me de um optimismo levemente nefelibata. Os aderentes ideológicos ao "passismo" que tenham a isso atenção. Como cantava a menina Sophie Ellis-Bextor quando ainda era uma diva indie, "a pessimist is never disappointed".