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O Estado e nós

por E, em 03.01.07
Se os pescadores da Nazaré tivessem usado colete salva-vidas, muito provavelmente estariam todos vivos. Mesmo com os atrasos no auxílio. A responsabilidade de de boa parte daquilo que nos acontece, começa em nós próprios. Pescadores ou não, temos que começar por ser exigentes connosco, para que a exigência que devemos ter com o Estado seja eficaz e credível. Para que tenhamos autoridade para exigir ao Estado que cumpra, também ele, o seu papel - desde logo, e à cabeça, a segurança e o salvamento de pessoas em perigo.

Veja-se o caso típico das mortes na estrada. O Estado cumpre razoavelmente o seu papel, construindo auto-estradas e IPs, muitas delas sumptuárias, em todos os cantos do país. Mas nós, muitos de nós, persistimos em comportarmo-nos como selvagens, violando consciente e sistematicamente as regras. O mesmo se diga das churrascadas, do foguetório domingueiro, dos piqueniques, das beatas para o chão que acabam em incêndio. Ou da forma despropositada como usamos as urgências dos hospitais. Ou de como não separamos o lixo. São, naturalmente, comportamentos com consequências e grau de gravidade distintos, mas que assentam todos no mesma lógica: "eu já pago os meus impostos, eles já me levam quase tudo, agora que tratem do resto; que salvem, que limpem, que reciclem, que me sirvam e que acartem com as consequências dos meus actos."

É tão importante criticar severamente os responsáveis directos pelo atraso no auxílio, como salientar a irresponsabilidade dos pescadores que num dia de tempestade não se deram ao trabalho de pôr os coletes. Ao ficarmo-nos por um sonoro e histérico: "Vergonha! A culpa é do governo!", estamos a contribuir para que tudo fique na mesma. Uns mortos, outros impunes, cada um com o seu alibi.

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De HO a 03.01.2007 às 23:44

"eu já pago os meus impostos, eles já me levam quase tudo, agora que tratem do resto; que salvem, que limpem, que reciclem, que me sirvam e que acartem com as consequências dos meus actos. "

Pois, mas isto é mesmo assim - e as pessoas não têm culpa de serem humas; o problema está mesmo nos impotos. Quando o estado se ocupa de quase tudo, a troco de uma elevada carga fiscal, desobriga os cidadãos de qualquer comportamento cívico. Os cidadãos ficam infantilizados. Foi sempre assim ao longo da história e em todo o lado e os apelos moralizantes são, com poucas excepções, inutéis. O heroísmo não é propriamente uma qualificação abundante.

Isto faz-me lembrar uma anedota norte-americana:
«A liberal candidate running for office after a long day of door-to-door campaigning:
"If I'm ever hit by a car, I sure as hell hope that the next guy to come along will be a conservative." I asked him why. "Simple. A liberal will blame the unsafe conditions of the highways, blame budget cuts and keep driving. A conservative will get out of his car and help." » Não é por acaso que os estados com impostos mais altos têm uma maioria de eleitores "liberais" - vá-se lá saber qual é a causalidade.
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De Rui Burguês a 04.01.2007 às 00:04

Não há impostos que aguentem a falta generalizada de civismo e responsabilidade.

Para além disso, não é possível estar à espera que baixem os impostos para ser civilizado.

Tem que se começar por algum lado, sendo certo que no estado em que está o país dificilmente será por uma baixa generalizada de impostos.
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De Sérgio a 04.01.2007 às 11:20

Quando tudo fica dito de forma tão clara e evidente, só resta acrescentar que todo este caso é mais um episódio criado na esfera mediática e imbecil do panormana televisivo português.
É o país que temos mas não o país que queremos!
Esse é o país civilizado que o Eduardo, eu e outros querem.
Um abraço
Sérgio
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De RAF a 04.01.2007 às 11:44

Com este post já concordo um pouco mais. O que não significa que os cidadãos não possam - e devam - exigir do Estado alguns comportamentos mais expeditos. O problema do teu texto está no tom desculpabilizante que se coloca na falta de zelo dos agentes estatais, como se, no fundo, estes trabalhassem "razoavelmente", e o povão é que fosse ingovernável.
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De José Silva a 04.01.2007 às 13:57

Era de madrugada e os pobres dos pescadores estavam a dormir !!! Não se dorme de coletes salva vidas !!!

Lisboeta ignorante !!! Está habituado ao mundo urbano e fácil !

Enfim...
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De ENP a 04.01.2007 às 14:49

José silva, você é um ignorante de todo o tamanho. No mar, em dias de tempestade, está-se sempre de colete posto. Sobretudo quando se dorme.
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De MiguelA a 04.01.2007 às 18:15

Podemos todos usar colete, podemos todos usar cinto... o que nós queremos é que o Estado garanta o mínimo dos mínimos em termos de prestação de serviços de socorro, quer seja no mar, em terra, onde quer que seja.

A culpa não é de uns nem de outros, é de todos. A responsabilidade é proporcional às funções de cada um.

Os Pescadores deviam ter os coletes.
E o Estado devia estar onde é verdadeiramente preciso.

Infelizmente, nem sempre acontece.

E nesta área, meus caros, infelizmente é esta a regra...
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De manuel joao ramos a 05.01.2007 às 02:18

Fico contente por saber que a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados (www.aca-m.org) não está só no seu diagnóstico da cultura da irresponsabilidade em Portugal.
Ainda assim, uma nota: a administração central não cumpre razoavelmente o seu papel, no que respeita à repressão dos comportamentos anti-sociais ao volante, à sanção judicial do crime rodoviário, ao apoio à pessoa traumatizada.
E a Administração local tem contribuído para a destruição da sociabilidade urbana, e para o que Vital Moreira chamou, num inspirado artigo no Público de 28/11/06, o império do automóvel.
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De Filipe Abrantes a 05.01.2007 às 13:06

Apoiado. Mas esta gente adora criticar o governo por tudo e por nada. Todos os dias vale uma crítica. Depois ainda dizem lutar por uma sociedade responsável. Mas responsabilizam sempre o estado. Mal.
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De Eikhon a 05.01.2007 às 19:53

Sim sim, os coletes é que salvavam os homens da hipotermia.

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