Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




O 31 da Armada dá voz aos seus leitores

por Sofia Bragança Buchholz, em 15.05.08

"ERA ASSIM

A terceira classe tinha sido extraordinariamente calma, com uma professora que em plena aula comia bolos carregados de açúcar em pó e que ocasionalmente fazia o favor de me acompanhar no comboio para a Figueira da Foz. Na quarta classe, tudo mudaria.
Sala de aulas da quarta classe, na escola do Bairro Norton de Matos. A cara da professora - uma velha carcomida pelo ódio de crianças - não augura nada de bom. Tem uma palmatória de madeira (quem não sabe o que uma palmatória é, pode parar aqui) com três centímetros de espessura. Experimentei-a certa vez e tive a mão azulada durante uma semana. Comecei a ser um bom aluno nesse preciso momento.
Ao Ricardo, nada serve de correctivo. Com doze anos é o mais promissor delinquente de todas as salas. No outro extremo comportamental, a dócil Carla. Esperta como um alho, inteligentíssima de olhos atentos e melancólicos. Mais tarde, dar-me-ia o meu primeiro beijo, mas isso agora só me inflama a nostalgia.
Um dia, que novidade, o Ricardo porta-se mal. Lembro-me que terá chamado "velha" à professora que de imediato se levanta da secretária, palmatória cerrada na mão direita, e dirige-se enfunada na sua direcção. O Ricardo levanta-se num ímpeto e começa a correr à volta da sala, rindo compulsivamente. De súbito a velha - era mesmo velha - pára, estática, finca os pés no chão de madeira gasta, e arremessa a palmatória pelo ar.
Presenciei aquele momento em slowmotion e high def. A pesada ripa de pinho voou em trajectória perfeita pela atmosfera da sala, descrevendo um arco descendente e emitindo um sopro ameaçador causado pela sua rotação pelo ar.
Antes que o pesado bloco de madeira pudesse acertar no alvo, a Carla levantou-se para apanhar um lápis que caíra segundos antes para a frente da sua secretária. A palmatória embateu secamente na cabeça da Carla, que logo de seguida caiu redonda no chão.
A Carla voltaria algum tempo depois. A ligadura na cabeça valeu-lhe ridicularização durante largos dias. A velha continuou a dar aulas normalmente, massacrando mais uns quantos até se aposentar. O Ricardo foi suspenso até ao fim daquele ano lectivo e não regressou mais à escola; os pais eram feirantes."

 

Um texto da responsabilidade e autoria do nosso leitor Ricardo Garcia

Autoria e outros dados (tags, etc)