Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




"O santo padroeiro das causas perdidas"

por Francisco Mendes da Silva, em 17.05.08

(Já que estamos numa de defender Roger Scruton, aqui fica uma das minhas "Figuras de Estilo" publicadas na Atlântico) 

 

Numa quinta algures no Wiltshire, Inglaterra, vivia um porco chamado Singer. O baptismo – uma homenagem a Peter Singer, o famoso utilitarista australiano de Princeton, teórico do infanticídio e dos “direitos” dos animais – coube a Roger Scruton, dono da quinta e do porco, que um dia dele fez umas deliciosas salsichas.

 

Scruton é provavelmente o mais polémico e intolerado dos pensadores ingleses vivos. É certamente o mais desconsiderado pela academia estabelecida, o mais vituperado pela imprensa progressista, o mais desvirtuado pelos intelectualmente desonestos. É chamado de xenófobo, racista, fascista e todos os restantes epítetos do catálogo. A tudo isto reage sem mover a sobrancelha. Não mostra ultraje nem revolta, apenas uma incredulidade serena que lhe sublinha a excentricidade num mundo em que cada vez mais os intelectuais públicos são figuras esbaforidas e de dedo em riste. A chave do seu pensamento é o conservadorismo de Edmund Burke e a nostalgia da ordem aristocrática pré-moderna (ou, pelo menos, pré-II Guerra), das velhas liberdades medievais e da desconfiança do poder centralizado. Tudo isso se revela a cada linha. Nas diatribes contra a arte moderna, na defesa da caça à raposa, do Estado-Nação e da ruralidade. Ou no mais belo dos seus livros, England: An Elegy, um adeus sentido às regras, instituições e costumes de uma Inglaterra que já não existe.

 

Segundo o próprio Scruton, o momento definitivo do seu nascimento político foi, como muitos da sua geração, o Maio de 68, ao qual assistiu da janela do quarto que arrendara no Quartier Latin. Enquanto os amigos – tudo burgueses entediados, magnificamente estabelecidos e de famílias possidentes - viravam automóveis e levantavam barricadas, o jovem Roger descobria-se exactamente do lado oposto. A epifania confirma a suspeita de que o conservadorismo é uma reacção estética. Foi-o também na geração Reagan e na do Onze de Setembro. Contra os comportamentos grotescos e a retórica desmiolada do progressismo acrítico; contra as ideias, os mitos e as frases feitas do politicamente correcto.

 

Apesar da disposição engagée, foi breve e pouco frutífera a sua ligação à política partidária. Depois de lhe ter sido recusada a participação nas listas de candidatos do Partido Conservador às eleições de 1978 (por, alegadamente, ser “too bookish”), ainda fundou o Conservative Philosophy Group, mas foi-se progressivamente afastando, desiludido com o partido que se aburguesava no deslumbramento pela economia de mercado e pela ética yuppie. Já nos últimos dias do governo Labour que sucumbiria ao pés de Margaret Thatcher, escrevera The Meaning of Conservatism, a sua mais completa declaração de intenções, que, segundo o próprio, não teria tido o acolhimento esperado. Em Gentle Regrets, obra recente, retrospectiva e confessional, lembra a ocasião em que Harold Macmillan se dirigiu ao Conservative Philosophy Group e, no auge do discurso, repetiu: “É importante lembrar que... lembrar que... Esqueci-me do que ia dizer.” Scruton comenta o embaraço: “’Esqueci-me do que ia dizer’ é a verdadeira contribuição do Tory Party para a compreensão do governo nos nossos dias”.  

 

Roger Scruton é considerado o exemplo acabado do reaccionário. O simplismo é confortável, mas Scruton não é um reaccionário comprometido com mudanças políticas forçadas e abruptas (o revolucionário do avesso), antes o paladino dos passados irrecuperáveis, o gentil porta-bandeira da Reacção pacífica e utópica ou, como lhe chamou o Guardian, “o santo padroeiro das causas perdidas”. Como o próprio escreveu, o conservadorismo que defende não é meramente uma crença política – ou, sequer, a disposição que Oakeshott estudou. É uma visão duradoura da sociedade humana, difícil de perceber, pior de explicar e terrível de praticar. Especialmente neste tempo de utilitarismos e materialismos, de religiosidade frágil e uma economia global que corrói as solidariedades pessoais e as lealdades locais. Mas Scruton não desespera e lá vai continuando, com uma cadência de publicação e um ecletismo impressionantes, a tarefa de transcrever para o mundo moderno, sem a pureza e a estridência dos slogans, a filosofia que Burke nos ensinou. Na quinta do Wiltshire, na da Virginia ou na mais conservadora das moradas, o apartamento londrino junto a Saville Row. 

 

Os seus textos, de uma elegância terna e melancólica, e ainda que estranhos à cultura urbana omnipresente, são de leitura obrigatória. É impossível concordar com tudo. Mas só os espíritos menores apreciam apenas aquilo com que concordam.

Autoria e outros dados (tags, etc)


comentários

Sem imagem de perfil

De vf a 17.05.2008 às 01:15

Excelente, isto: " (...) o conservadorismo é uma reacção estética."

E lapidar, isto: "(...) só os espíritos menores apreciam apenas aquilo com que concordam."

Agradeço estas linhas ao autor.
Imagem de perfil

De João Vacas a 19.05.2008 às 10:03

Nem mais. Parabéns.

Comentar post