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A Mulher Cobra

por Sofia Bragança Buchholz, em 20.05.08

© Foto: ?/ Na foto: Rachel Weisz

 

Adoro uma romaria. Não sei se por ter nascido no dia de S. João e, na véspera, já eu quase cá fora, ter pressentido a turba popular feliz de martelinho em punho agredindo-se entusiasticamente, se por durante muito tempo ter vivido em frente a um largo, onde, todos os anos, no início do mês de Junho, a adrenalina do barulho das motas do Poço da Morte e o timbre melado da voz do Roberto Carlos davam som aos meus dias.
Aos quatro anos, pelava-me por uma voltinha no carrossel mais inocente; aos seis, por uma mais atrevida no Comboio Fantasma; aos oito (já a viver noutro lugar, mas ainda assim assídua nesta festa), pelo perigo dos carrinhos de choque; aos dez, fascinava-me a aberração de uma Mulher Cobra. Esta é, aliás, umas das imagens que melhor guardo na memória e um dos mitos que mais intensamente me perseguem desde a infância. É que ainda a estou a ver em cima daquela mesa, propositadamente de espessura finíssima para nos dissuadir de pensar o seu corpo escondido nela, de cabeça estática, mas bem-falante, coroando um fantástico corpo luzidio, enrolado, de Python reticulatus. Um homem – que a minha imaginação recorda de bigode farfalhudo e sotaque acentuado do norte
fazia-lhe perguntas a que ela calmamente respondia, deixava o público escolhido a dedo (provavelmente, contratado pelo próprio espectáculo) fazê-las também, e eu ali, de olhos esbugalhados, separada daquela coisa apenas por uma baixa grade de ferro, incapaz de abrir a boca de tão aberta de espanto que estava, sabendo-me enganada, mas não percebendo como o faziam.
Já na idade adulta procurei em vão insistentemente pelas feiras populares por onde passei tal atracção e ainda agora lamento na adolescência (onde a maturidade já me permitia perspicácia suficiente para perceber o fenómeno, mas a idade me conferia interesse por tudo menos por tal temática) ter deixado escapar – imaginem, que raiva! – uma mulher polvo.
Até hoje me interrogo como faziam eles aquilo, e amaldiçoo a ASAE, ou lá que entidade é que proíbe estas coisas, por as ter feito desaparecer, e não me dar oportunidade de finalmente desvendar tamanho engodo.

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