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Dia 28

por Gonçalo Capitão, em 28.05.08

Hoje é dia 28 de Maio.

 

Dita a evidência, relembro que falamos do dia em que, em 1926, em Braga, o General Gomes da Costa liderava um movimento militar que poria fim ai Governo do Partido Democrático, assim estabelecendo o início do que viria a ser, na realidade, fim da I República.

 

Leia-se com o “olho esquerdo” ou com o “olho direito”, creio que os compêndios de história reconhecem, mais ou menos unanimemente, que falamos de um período (aquele que vinha de 5 de Outubro de 1910) que permitira altos índices de inflação e, logicamente, de desvalorização da moeda, intolerância religiosa, convulsões sócio-laborais, instabilidade política (o ano 1920 conheceu 8 governos…) e até de assassinatos políticos (veja-se o dia 19 de Outubro de 1921, por exemplo, sem citar o assassinato de Sidónio Pais).

 

Quem lesse a “Seara Nova”, em 1924, podia ver apelos à ditadura, como menciona José Hermano Saraiva (in”História Concisa de Portugal”, Publicações Europa-América).

 

O resto, sabemo-lo bem; a 27 de Abril de 1928 era convidado, com o fito de sanear as finanças públicas, o Professor de Coimbra, António de Oliveira Salazar que, a 5 de Julho de 1932, ascendia a Presidente do Conselho. Com o virar do calendário, uma nova Constituição assinalava o nascimento do Estado Novo.

 

Volvidos 82 anos sobre o golpe militar e tudo o que dele decorreu, o que herdámos e em que nos tornámos?

 

Da I República se conservámos o bulício intelectual e opinativo, também mantivemos alguns anátemas. Começo pelo nosso crónico problema com as contas públicas: é insuportável que andemos, há anos, obcecados com o défice, o “despesismo” e a clara falência do nosso Estado Social. E o problema é que, como povo estúpido que somos, ainda não aprendemos a alimentar-nos de conceitos como “despesa pública”, a pôr no depósito do carro “receitas extraordinárias” ou a pagar a escola ou o hospital com “carga fiscal”… Continuamos, barbaramente a precisar de dinheiro cada vez mais rarefeito no nosso mealheiro para comer, vestir e viver.

 

Acresce que, retirada a carga religiosa, não nos tornámos tão tolerantes quanto isso… Culpe-se o “capitalismo selvagem” que nos converte em peões de um jogo em que ganham muito poucos que ganham cada vez mais (só a Letónia tem maior disparidade entre ricos e pobres, na União Europeia!) ou Luís Filipe Vieira (que mantém sombrios os alegados seis milhões de seguidores do “Dínamo” da Luz – perdoe-se a evocação soviética…), o facto é que da estrada aos tiroteios nocturnos seguimos divididos, sem que a classe política veja o “estrago” da Nação, em vez de perder tempo com inócuos debates sobre um putativo estado de uma crescentemente quimérica nação.

 

E dos tempos do “Senhor Professor”?! Ultrapassada a vergonha imposta pelo 25 de Abril, as editoras inundam o mercado, a terra natal quer evocar o seu filho mais célebre com a recuperação para museu da sua casa e, de além-túmulo, o próprio estadista ganha o concurso da RTP “Os Grandes Portugueses”, em 2007.

 

Tenho dito que me pareceu estúpido – e veio a provar-se a minha razão – que se falasse em ressurgimento do “salazarismo”.

 

Todavia, só mesmo a nossa autista classe política pôde achar que não havia recado algum naquela votação… No meu modesto parecer, creio que muitos dos votantes disseram que, em tempo de crise (ou não é desta sorte o nosso?!), Estado sólido e em paz, comida na mesa e ordem pública são bens de primeira necessidade. E nem vale a pena lembrar a penúria e ignorância em que muitos viveram esses tempos. É um tempo em que se olha para o umbigo e se deseja – hoje sem o respaldo da economia de subsistência que disfarçava a miséria de muitas famílias – uma esperança de solução, ainda que por isso se ceda algum poder de intervir em face de modelos mais autoritários de liderança.

 

Sem o lastro cívico dos britânicos (que se mobilizam enquanto sociedade) olhamos em busca de um “Paizinho” que nos oriente, ainda que ralhe. E assim vamos, curtos de Educação e nulos de Cultura. Vibramos com a selecção de futebol e chorámos por Timor, mas “depois do adeus”, procuramos um D. Sebastião ou um qualquer salvador, pois descremos de uma política que generalizamos nos tons cinza, ao ponto de acharmos que todo o político que mexe é corrupto ou aceita “cunhas”.

 

O facto é que nem todos conseguem explicar o novo emprego ou a recente fortuna e que muito poucos têm ideias que mobilizem os portugueses para um desígnio patriótico.

 

Data sombria, esta em que as nuvens pairam sobre um país ainda com escassa renovação de elites... E já começa a “uivar” o vento de mudança –  o General Garcia Leandro, Presidente do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo, falou mesmo em risco de implosão social….

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