A desmesura da lata de alguns governantes é de tal forma ostensiva que até uma pobre alma cínica, sempre pronta para a pândega analítica, se incomoda e irrita.
Hoje, no Parlamento, o sr. Ministro das Finanças tratou, mais uma vez, de verberar o "planeamento fiscal agressivo" - um "eufemismo" para as "práticas de má-fé" dos contribuintes "que exploram as lacunas la lei".
Isto num país cuja administração fiscal é célebre por perder nos tribunais cerca de metade dos litígios em que se envolve com os contribuintes, muitas vezes por lhes ter liquidado impostos de forma conscientemente ilegal (a ver se pega; e muitas vezes pega - nem todos os contribuintes têm a noção dos seus direitos e o desafogo económico para enfrentarem o estado perante um Juíz).
Aliás, que má-fé poderá existir em aproveitar os espaços que o legislador - por escolha ou azelhice - deixou em aberto? É tamanha a sanha legislativa e controleira deste governo que o mesmo até se sente ofendido de cada vez que um indivíduo tenta livremente mexer um braço.
Consta que Marques Mendes cometeu a incúria de obrigar o PSD a um debate sobre a genética ideológica do partido. A coisa mete até Pacheco Pereira, que, como é recorrente, promoverá a sua habitual série de formulações salomónicas e vazias sobre o partido que é tudo e não é nada.
Ora, eu não aconselhava os meus amigos a apostar em tal investida teórica. Lembrem-se do que aconteceu a Dorian Gray. Quis tanto manter-se eternamente belo e púbere como naquela tarde de Junho em que Basil lhe pintou o retrato que o desejo acabou por se realizar. Dorian continuou esbelto e enxuto, enquanto a sua imagem do retrato - escondida no sótão - ia acumulando as mazelas visíveis de uma vida de hedonismo e trangressão moral.
Receio que ao PSD possa acontecer o mesmo que ao pequeno apolo wildeno quando, já arrependido, resolveu destruir o quadro e terminou morto e velho. Enfim, nada disto é muito provável. O PSD confrontar-se-á certamente com os seus pecados. Mas, ao contrário do espírito derradeiro de Dorian Gray, seguirá com alívio o aviso de Lord Henry Wotton: a aparência é a nossa maior virtude. E lá ficará, convenientemente, tudo na mesma.
Bom esforço, camaradas.
Escuto um deputado do PSD decretar que a diferença entre o seu partido e o PS é que, enquanto este olha para a sociedade a partir do estado, o PSD olha para o estado a partir da sociedade. Muito eloquente, sim senhor. Pena que a sensação que temos desde sempre seja a de que ambos olham para o estado a partir do Partido e para o Partido a partir do estado.
Parece que a Rádio Renascença assumiu hoje a sua posição a favor do "não" no próximo referendo;
Parece que a notícia surpreendeu toda a gente;
Parece que o sindicato dos jornalistas não gostou " é um absurdo que um órgão de informação tome uma posição colectiva sobre uma matéria deste teor" acrescentando que a Renascença "põe em causa o direito de opinião dos jornalistas que trabalham na rádio e defende que "cada jornalista, independentemente do local onde trabalha, deve ser livre de exprimir a sua opinião em todas as matérias";
Parece que há gente a trabalhar na Renascença que não sabia, quando para lá entrou, que aquela é a Emissora Católica Nacional;
Anda uma pessoa a (tentar) ler Proust para poder escrever alguma coisa pomposa e interessante, a recuperar o Maquiavel que estava nos prateleiras desde os tempos das aulas com o Professor Marcelo na faculdade para verter neste estabelecimento algo de realmente inovador do ponto de vista do pensamento político e, a estas horas, tinha eu já o texto para sair (daqueles com parágrafos numerados e tudo), abro e blog e percebo que, como em tudo o resto na vida, o que importa é o Template?
Os estetas, ai os estetas...
Podiam ter avisado. Assim sempre tinha lido a Vogue deste mês. Diz que a secção sobre sapatos é de sonho...
João Gonçalves in Portugal dos pequeninos
Lutz in Quase em Português

Há qualquer coisa de inesperadamente aliciante nos editoriais doSemanário. A factualidade e o estilo são sacrificados regularmente no altar da trama e do enredo mas vale a pena. A sua fulgurante criatividade torna-os imperdíveis para os amantes do bom thriller político. Há cor, há movimento, há conspiração, há jogadas de bastidores, há traição, há ambição. Tudo o que é preciso, enfim. Resta-nos esperar pelo livro.
Nessa altura já havia televisão a cores...

À atenção do Blogue do Não.

Já deu para o tsunami, já deu para os furacões, já deu para os incêndios e as cheias. Agora, o aquecimento global dá também para uma nova idade do gelo. Tudo bem, mas agora expliquem-me tudo outra vez como se eu fosse muito estúpido.
"Nunca imaginaria que o PCP me utilizasse como produto de consumo"
Luísa Mesquita in Visão


É verdade. Devia ter-se ficado pelo IV. Aquele equilibrado e bem musicado tributo à democracia e à justa luta do mundo livre. Mas não.
Ele insiste.
Vem aí outra vez. E é actor. E é guionista. E é produtor. E é realizador. E é uma maçada.
Se a coisa continua, a inumerável e inenarrável Police Academy corre o risco de parecer uma série decente.
Leio no Corta-Fitas que o Partido Socialista de Vila Franca de Xira decidiu processar o congénere social democrata por causa destes cartazes. Se o PSD perder a acção acho bem que se vingue e nunca mais autorize trocadilhos com a altura de Marques Mendes ou com o facto da laranja andar sem sumo.
Impedido de participar pessoalmente nas comemorações dos seus 80 anos, Fidel Castro escreveu uma mensagem de agradecimento que termina com a frase:
Tenemos el deber de salvar nuestra especie.
Não há ninguém que lhe diga, devagarinho, que a espécie já está extinta?

Para Jorge Coelho, os militares são amanuenses fora de forma que, por acaso, apresentam armas. E uma carta firme escrita pelo CEMGFA cessante não passa de um mero papel.
Enquanto Mendes Cabeçadas põe o Governo em sentido, Coelho fala à vontade.
É o que se chama olhar à esquerda, marcar passo e descansar.
Não sei o que mais possa ter o PS a estudar sobre a segurança e flexibilidade no trabalho. Já por várias vezes no passado me pareceram bastante seguros e inflexíveis sobre a matéria. Aliás, o actual ministro Vieira da silva foi sempre um dos mais irredutíveis.
Ainda assim, gostava de ler os especialistas.
Porque 10 semanas? e Porque não 8? e Já agora porque não as 12 semanas que defende o PCP?
O referendo alias faz me recordar as cenas absolutamente infelizes, no caso do barco do aborto, de alguns deputados da estrema esquerda do PC e BE a apelar a desobediência civil em puro desrespeito pelos leis emanadas pela AR e referendadas pelos Portugueses.
E já agora alguém me explica o porque que seremos um pais mais avançado e moderno com uma lei do aborto mais permissiva? o PIB aumenta? haverá melhorias significativas na saúde dos Portugueses? Ou seremos um povo mais produtivo e mais eficiente? Onde esta a modernidade? Percebo muitos argumentos, mas confesso que o da modernidade me escapa.
Mas, voltarei a este tema oportunamente!

Al-Qaeda: visita do Papa à Turquia "é uma campanha contra o islão"
Sim, sim. Aliás, parafraseando um conhecido alerta público, será interessante acompanhar o nascimento, evolução (e, se se mantiver a tendência do passado, a morte por inanição) destes ataques ao Islão que, pelos seus meios profissionais, se percebe terem financiamentos próprios cuja origem é desconhecida. É um fenómeno novo que mostra a importância crescente da religião e do qual não vem nenhum mal, se existir um pouco mais de transparência. No fundo, trata-se de política pura e dura e não de qualquer actividade confessional e lúdica pelo que saber quem paga é relevante. Relevante e instrutivo.
Quem gosta da Literatura do Absurdo não pode perder o último editorial do Avante.
Aqui fica um excerto:
O desaparecimento da União Soviética que, há quinze anos atrás, culminou a derrota da primeira grande tentativa na história da humanidade de construção de uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração, constituiu uma tragédia civilizacional com profundas e trágicas repercussões - repercussões na situação dos trabalhadores e dos povos à escala planetária, na paz mundial, no movimento comunista internacional.
As causas dessa derrota, não obstante estar por fazer a análise aprofundada que a sua gravidade impõe, podem reduzir-se a dois grandes conjuntos de factores essenciais: no plano externo, a permanente e violenta ofensiva do capitalismo internacional num vale-tudo que durou setenta anos; e, no plano interno, a adopção de práticas de frontal afastamento e afrontamento do ideal comunista.
Já as consequências da derrota, essas são visíveis a olho nu – pelo menos para quem não seja (ou não seja pago para ser) cego: em comparação com o tempo em que existia a URSS e a comunidade socialista do Leste da Europa, o mundo é, hoje, menos livre, menos democrático, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico.
Uns pândegos.
Luís Filipe Menezes em entrevista ao Semanário Sol
Em rigoroso exclusivo a um dos jornais credíveis do país, Luís Filipe Menezes desmente que tenha sido iniciado sexualmente por uma "profissional". Garante que "nunca foi às meninas" e orgulhosamente revela já ter sido "assediado por um homem". Nesta entrevista única Menezes mostra que tem a virilidade na ponta da língua e que a política até pode ter versões mais light. Que Deus o conserve muitos e bons anos em cargos públicos.
Daniel Oliveira (pelo sim) e Rui Castro (pelo não) debatem amanhã o aborto na Rádio Europa. Daniel Oliveira! Aposto como a direita que defende o sim deve estar em pulgas para ouvir o que o seu porta-voz na causa tem para dizer.
O que é uma banda punk? Em sentido estrito (e não preciso lembrar que no punk tudo deve ser radical), uma banda punk é aquela que edita um só álbum de canções simples com letras desafiantes, espalha o terror na respectiva digressão, insulta o poder político (de preferência de sucessão hereditária), chega ao cimo dos tops de vendas, é proibida de tocar ao vivo e de aparecer na televisão e vê pelo menos um dos seus membros morrer de suicídio ou de overdose. Por isso, ao contrário do que diz o Rogério Casanova, os Sex Pistols são a melhor banda punk da história. Os Clash e os Ramones editaram demasiados álbuns e foram, em medidas diferentes, abençoados pelo establishment.
A proximidade entre eleitos e eleitores sempre me pareceu um argumento fraquinho para a necessidade de círculos uninominais. Primeiro, porque me parece de todo desaconselhável para a saúde mental de ambos a sobre-exposição de uns à presença dos outros. Depois, porque duvido sempre desse discurso marxista que acentua as iniquidades do sistema. Ao culpar a super-estrutura que é o nosso actual sistema político eleitoral, os primeiros aliviam-se da prestação de contas e os segundos desresponsabilizam-se do acompanhamento e consequências das sua escolhas. A verdade é que não há nada que os círculos uninominais permitem que não seja também permitido pelas listas plurinominais.
No entanto, do Reino dos círculos uninominais chegam-nos, por vezes, óptimos exemplos de prestação de contas por parte dos políticos eleitos:
O fellatio do Francisco Mendes da Silva à Oriana ficou mal feito e deu problemas...técnicos. Estamos a corrigir os problemas com a ajuda da assistência do Sapo. O 31 da Armada tem apenas cinco dias. Estamos ainda a apanhar o jeito e os defeitos. Se tiver problemas de visualização ou de utilização das caixas laterais e superiores por favor informe a gerência através desta caixa de comentários ou do email posto lá em cima. E por favor refira qual o browser que utiliza.
a bem da Nação

Luciano: Se esta é a Diana, imagina a professora de ginástica...
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Pois é, Rodrigo, afinal sabias mais sobre a Diana do que nos querias dizer. E depois de te pores aos beijos com uma professora de ginástica, o que é que querias que ela fizesse?

Luisão está apto para o jogo com o sporting
08:00 - Fonte segura do ministério garante que o Governo vai avançar com o modelo "flexisegurança"
09:00 - Reacções dos sindicatos: não apoiam a flexisegurança
10:00 - Fórum TSF sobre a "flexisegurança"
11:00 - Reacções do patronato: a proposta não é viável
12:00 - Fonte segura do ministério (outra, presume-se) garante que o Governo NÃO vai avançar com o modelo "flexisegurança"
18:00 - Ministro garante que o governo vai mexer na reforma da legislação laboral mas que não se chama "flexisegurança". Para "pensar" sobre o assunto será formada uma comissão.
20:00 - Notícia de telejornal: Governo mexe com a legislação laboral mas não avança com flexisegurança porque o modelo não é aplicável as especificidades portuguesas. Por todas as razões, este governo é bestial.
Melhor que uma manchete do Expresso, uma abertura de telejornal ou audiências do tamanho da Floribella. Mais comovente que uma polémica com Daniel Oliveira, uma amabilidade da Helena Matos ou dez financiamentos obscuros.
Apenas quatro dias depois do seu nascimento, tenho o prazer de vos anunciar que o 31 da Armada foi incluído na mailing list do Grupo de Amigos de Olivença.
Penso que estamos todos de parabéns.

Em Intellectuals, de Paul Johnson, um livro que nos conta a vida dos grandes homens para além dos livros (a coisa reúne Rousseau, Shelley, Marx, Ibsen, Tolstoy, Brecht, Sartre, Norman Mailer e está às carradas na Fnac do Chiado), num ror de diatribes capaz de espantar qualquer criatura pacata, podemos ler, no capítulo dedicado a Rousseau, esta afirmação visivelmente impossível de conter, depois de uns floreados e umas quantas platitudes sobre a auto-comiseração do pobre Jean-Jacques:
«It is true that he always had trouble with his penis».
Há problemas assim, pessoalmente trágicos e historicamente irónicos. Rousseau, o homem que alardeava aos sete cantos o seu rígido e submisso «amor à Humanidade», não a podia sequer levar para a cama. Depois da recuperação da «cidadania» da República, este é outro conceito que o girondino foi buscar a Platão.
Paulo Portas comenta a sua mudança de visual.
Via Blogadissimo (Deus lhe pague por esta pérola)
Esta senhora gastou 4 milhões de euros dos contribuintes numa equipa de futebol.
Esta senhora é acusada de ter gasto 4 milhões de euros dos contribuintes numa equipa de futebol que mesmo assim não jogava nada.

Na Vanity Fair de Dezembro, Christopher Hitchens faz o elogio de Oriana Fallaci (indisponível online) e a elegia da Arte da Entrevista, da qual a italiana intranquila foi o maior exemplo e que hoje - com a excepção esporádica de alguns jornalistas-celebridade (por exemplo, Jeremy Paxman) - é apenas uma saudosa memória. O artigo começa com uma comparação entre a entrevista feroz de Fallaci ao Xá do Irão nos anos 70 e a conversa amena de Dan Rather a Saddam Hussein em 2003.
Quase no fim do texto, o camarada Hitch revela que «all her life she had denounced clericalism and fundamentalism in every form, yet now her loathing and disgust for Islam had drivem her into the embrace of the Church. She had, she told me, been given one of the first private audiences with the new Pope, whom she referred to as "Ratzinger". "He is adorable! He agrees with me - but completely!"»
Felizmente que os integristas islâmicos não lêem a Vanity Fair, esse repositório da alienação, do despudor e da decadência do Ocidente.

Segundo o Presidente do Sudão, não há nenhum genocídio em curso no país. Não morreram nada 400.000 pessoas. Nas palavras do próprio, "nem sequer morreram 9.000". Ora, o que são 9.000 pessoas (8.000 e tal, vá lá) comparadas com o trágico flagelo das cheias em Portugal? E quem disser o contrário faz parte de uma gigantesca conspiração internacional comandada por Israel e com "fontes obscuras de financiamento". Que o diga a Diana.
José Esteves, antigo segurança e um dos nomes ligado ao Caso Camarate, foi hoje detido pela Polícia Judiciária (PJ) e encontra-se a depor no Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa (TIC), soube a Lusa de fonte policial. Numa entrevista à revista Focus, a publicar quarta-feira, José Esteves assume ser o autor de um engenho que fez explodir a aeronave Cessna onde seguiam o então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, a sua mulher Snu Abcassis, o chefe de gabinete António Patrício Gouveia, e o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa, assim como os dois pilotos do aparelho. in Diário Digital
Um dia, mais cedo ou mais tarde, amanhã ou para o ano, nesta ou na próxima geração, acabará por ser feita uma justiça histórica sobre o que realmente se passou em Camarate. No dia seguinte a esse, será tempo de acertar as contas com quem, durante 26 anos, negou o direito à justiça dos tribunais.