Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

 

Apetece-me falar do TGV, para variar. Até porque, mal ou bem, tenho uma ou duas ideias sobre o assunto.

 

A linha férrea Lisboa-Porto é uma infraestrutura vital para o País. Ora, a linha existente está saturada (ainda não vi este facto ser contestado) o que impede o aumento do número de comboios, e/ou a circulação de composições a velocidades significativamente superiores às actualmente praticadas, mesmo concluindo as obras de beneficiação. A construção de uma nova linha, em bitola europeia, com capacidade para Alta Velocidade, é por isso indispensável. Não apenas desejável, nem estratégica: é vital. Deve, por isso, ser a prioridade n° 1 para Portugal neste dossier.

 

A ligação de Portugal às redes ferroviárias trans-europeias destina-se não tanto ao transporte de passageiros - a distância entre as grandes cidades portuguesas e as grandes cidades europeias (incluindo as espanholas) torna o avião mais competitivo - mas ao transporte de mercadorias. Todos sabemos que a via rodoviária está estrangulada nos Pirenéus, e qualquer greve de camionistas em Espanha ou em França pode paralisar as nossas exportações. Diversificar meios e reduzir custos de transporte é portanto um objectivo estratégico. Questão: onde estão os grandes pólos exportadores portugueses em volume? Nas regiões Norte e Centro, não é verdade? Logo, a prioridade  n° 2 para Portugal deve ser a ligação às redes ferroviárias trans-europeias através da ligação Porto-Vigo, e, subsidiariamente, Aveiro-Salamanca.

 

A ligação Lisboa-Porto-Vigo tem também um interesse geo-político na medida em que reforça a integração territorial de toda a fachada atlântica da península ibérica, aproximando-a da Europa trans-pirenaica sem atravessar o centro geográfico (e político) da Espanha. Não deveria ser preciso fazer um desenho para explicar de que forma o interesse nacional português (ainda se pode falar nisto?) está em jogo nesta matéria.  Já a linha Lisboa-Madrid aparece completamente desprovida de interesse económico ou de propósito estratégico para Portugal. Convenhamos que completar uma rede ibérica centrada em Madrid interessa mais a Espanha do que ao Estado português. Do meu ponto de vista, a construção da linha Lisboa-Madrid deveria portanto ser subordinada a 1) tratar-se de uma moeda de troca indispensável para levar o lado espanhol construir as ligações que mais nos interessam, e a 2) haver disponibilidade financeira para o fazer.

 

Quanto ao debate político actual sobre o assunto, deixo apenas as seguintes notas: convivo bem com a posição de Manuela Ferreira Leite neste assunto, na medida em que concordo que o momento não permite avançar com grandes obras. Assim, não ficarei especialmente incomodado quando o Governo que ela formar em Outubro suspender o TGV: a questão há-de voltar a colocar-se, desejavelmente em tempos e em termos mais favoráveis. Considero, todavia, bastante pertinente o contributo de Pedro Passos Coelho para o debate: reconhecendo a importância de integrarmos, cedo ou tarde, as redes ferroviárias trans-europeias, chama a atenção para a necessidade da incorporação da indústria nacional e da transferência de tecnologia, de forma a reduzir o impacto deste projecto na balança externa. Esse, naturalmente, será o caminho a seguir para este e todos os grandes projectos desta natureza.


publicado por Vasco Campilho às 09:29
link | merkel perdeu as eleições em frança
10 comentários:
De Rui Castro a 21 de Janeiro de 2009 às 09:32
"Ora, a linha existente está saturada (ainda não vi este facto ser contestado)"
Vais desculpar-me, Vasco, mas antes de contestar o facto que referes, tens que o demonstrar.


De JP a 21 de Janeiro de 2009 às 10:00
Faz alguma ideia do custo do transporte de mercadorias em Alta Velocidade? Há alternativas bem mais baratas e mais viáveis (transporte marítimo ou comboio regular ou de velocidade elevada, p.e.) que o TGV para esta matéria.

Quanto à saturação da linha do Norte (que não sei se é factual) poderia ser contornada com a sua duplicação para comoboio normal e pendular - poupando-se no custo da infraestrutura. A diminuição do tempo do TGV face ao pendular num percurso Lisboa-Porto não justifica, de forma nenhuma, o custo da sua linha.

Quanto ao transporte de passageiros Lisboa-Madrid, costuma considerar-se como limite competitivo entre o comboio de A.V. e o Avião os 600 km de distância, ou seja, para distâncias menores é mais competitivo o comboio e para maiores, o avião. A que distância está Madrid? Pois.

Se fizer contas ao custo (em tempo) de uma ligação Lisboa-Madrid de comboio e avião verá que a vantagem é do primeiro (não tem tempos de espera, de check-in, de controlo de fronteiras, atrasos, etc...).

Por estas razões, não se percebe, do ponto de vista técnico o seu artigo. Em minha opinião a única linha que interessaria a Portugal seria a Lisboa-Madrid e mais nenhuma.

Cumprimentos
JP


De Jorge Vieira a 21 de Janeiro de 2009 às 10:20
"Assim, não ficarei especialmente incomodado quando o Governo que ela formar em Outubro suspender o TGV".

Quando éla formar governo em Outubro !!?
Caro bloguista em que planeta você vive ?
No planeta reebook ?


De Gabriel Silva a 21 de Janeiro de 2009 às 10:47
Um esclarecimento: os sistemas de tgv não fazem transporte de mercadorias.


De tenho medo de dizer quem sou a 21 de Janeiro de 2009 às 14:39
Por aqui se prova o nível de conhecimento do assunto em causa.....


De Observateur a 21 de Janeiro de 2009 às 11:14
As "aquisições" do 31 parecem as do Benfica...


De Daniel Rodrigues a 21 de Janeiro de 2009 às 13:55
Se, e concordo, o essencial são vias ferroviárias para transporte de mercadorias, não é necessário qualquer TGV, e a linha Aveiro-Salamanca não é subsidiária de Porto Vigo: é a essencial.

Há muitas soluções práticas para este problema que não envolvem a delapidação do dinheiro dos contribuintes na escala que o Projecto do TGV implica. Para começar, desde logo, a construção exclusiva de um canal Aveiro - Salamanca em bitola Europeia, com uma central de transferência de cargas da bitola Europeia para bitola Ibérica enquanto não for realizada uma nova linha Porto-Lisboa.

Já agora, a linha Porto - Lisboa deixaria de estar saturada com melhor gestão e pequenas alterações. Logo a começar no troço Lisboa - Alfarelos que poderia beneficiar com uma alternativa pela linha do Oeste.

cumprimentos,
Daniel Rodrigues


De Henrique Burnay a 21 de Janeiro de 2009 às 16:00
Vasco parece jogo de palavras mas não é. Para mercadorias usa-se velocidade alta e não alta velocidade. O que implica algumas diferenças. Já agora, se não se ligar Sines a uma rede de velocidade alta que permita descarregar ali, fazer assembling lá, quando for caso disso, e seguir viagem depressa por ferrovia ou por avião (aerporto de Beja) para quer raio serve Sines e todo o potencial do maior porto natural de águas profundas da Europa? Em vez de pesnar em grandioso o país podia pensar em grande. Ou em futuro.


De LinoparaasBerlengaseSocratestambem a 21 de Janeiro de 2009 às 16:13
Algumas coisas óbviaa. A linha do Norte está congestionadíssima, só não sabe isso quem não anda de comboio (basta uma composição atrasar-se 3 minutos para engalinhar aquela porra toda). A linha do Norte acaba em Ovar, para cima é pior que uma estrada do estado novo (ninguém consegue ler, sem o risco de descolamento de retina e de finalmente entender as crónicas dos opinadores jornalistas). A construção de uma linha de AV não contribui em nada para resolver o problema, pelo contrário, desviará investimentos. A circulação de mercadorias faz-se em sistemas baratos, nunca por TGV. O TGV só faz sentido em países grandes ou em pequenos encravados entre grandes. Uma bosta periférica precisa é de excelentes aeroportos, pequenos e confortáveis. Não ao TGV, não ao Aeroporto Intercontinental 'Jamais', sim a comboios a 200 Km/h, sim ao investimento ferroviário, sim as três aeroportos de igual dimensão em Lisboa, Faro e Porto.


De J outro a 21 de Janeiro de 2009 às 17:20
"A linha férrea Lisboa-Porto é uma infraestrutura vital para o País. Ora, a linha existente está saturada (ainda não vi este facto ser contestado) o que impede o aumento do número de comboios, e/ou a circulação de composições a velocidades significativamente superiores às actualmente praticadas, mesmo concluindo as obras de beneficiação. A construção de uma nova linha, em bitola europeia, com capacidade para Alta Velocidade, é por isso indispensável."

E com esta frase se salta a necesidade de explicar porque razão está congestionada e se se pode ou não melhorar a ferrovia existente. mesmo com mais vias em zonas chave. entrada norte de lisboa e do porto.

Confesso que parei de ler aqui.


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