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Ainda o TGV

por Vasco Campilho, em 23.01.09

O meu post sobre o TGV suscitou comentários interessantes, tanto aqui como no twitter. E até n'O Insurgente. Vou tentar responder aos pontos principais que foram levantados.

 

Congestionamento da linha do Norte: até ao momento em que escrevi, não tinha conhecimento de qualquer objecção à ideia de que a linha estava irremediavelmente congestionada, que consta dos estudos em que se baseou o projecto. Várias pessoas me responderam no sentido de dizer que não é bem assim. Pelo que percebi não há estudos que permitam sustentar a sua posição. Mas que isso não seja impedimento: se a CIP financiou um estudo para Alcochete, alguém há-de financiar um estudo para o descongestionamento da linha do Norte. Pessoalmente, teria o maior interesse em ver esse estudo feito. Agora, não é assim porque ando de comboio e sei... é um argumento fraquito.

 

 

Mercadorias: na minha opinião, a ligação às redes transeuropeias justifica-se essencialmente para o tráfego de mercadorias. O Henrique Burnay chama-me a atenção para o facto de as mercadorias circularem em velocidade alta e não em alta velocidade. Certo. Mas justamente, a ligação Porto-Vigo é VA, não AV. Uma eventual ligação Aveiro-Salamanca seria VA, não AV. Já a ligação Lisboa-Madrid será supostamente AV (o que não impede a circulação de composições mais lentas).

 

Mercadorias II: o Daniel Rodrigues defende que a verdadeira prioridade é Aveiro-Salamanca, sem necessidade de qualquer TGV. Admito que, ultrapassada a questão do congestionamento da linha Lisboa-Porto, assim seja. Mas essa questão parece-me longe de estar ultrapassada.

 

Mercadorias III: o Henrique Burnay relembra o desígnio de ligar Sines à rede de velocidade alta. Fará sentido se a rede vier a passar por ali perto (Lisboa-Madrid via Badajoz). Mas não penso que faça sentido a rede passar por ali perto, e Sines por si só não me parece justificar os custos dessa ligação. De certa forma, seria acoplar um segundo elefante branco ao primeiro.

 

Conclusão: apesar de o TGV ser terreno politicamente minado (e disso se ter notado na exaltação de algumas reacções) há espaço para um debate racional, onde cabem especialistas e cidadãos interessados. E isso também se notou. Balanço positivo, portanto.

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comentários

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De Daniel Rodrigues a 23.01.2009 às 14:27

Caro Vasco, uma análise mais cuidada a este problema: no meu blog, e algumas das minhas propostas

http://cacique.blogspot.com/

Esta discussão está muito inquinada pela terminologia. Na minha visão, Portugal não precisa de um TGV (train de grand vitesse) nem LGV's (lignes de grand vitesse). Precisa apenas de progressivamente e paralelamente às linhas existentes construir uma rede em bitola internacional para tráfego de mercadorias. Isso é o essencial.

Uma ligação Sines-Badajoz-Hendaye não seria um elefante branco, ao contrário do que escreveu: seria uma linha absolutamente rentável por dois motivos:
1. o tráfego seria intenso para despachar as mercadorias descarregadas em sines.
2. não precisariamos de uma linha AV.
Uma ligação Lisboa-Badajoz seria rentável se permitisse circulação mista, o que significa que não poderia ser AV. Mas seriam as mercadorias e não os passageiros a torná-la rentável. O tráfego de passageiros é uma variável menor nesta equação.

Precisamos de um plano ferroviario nacional, mas não das grandiosidades prometidas pelo TGV. Daí a minha insistência na linha Aveiro-Vilar de Formoso, também vocacionadas para mercadorias.
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De Daniel Rodrigues a 23.01.2009 às 14:57

Também interessante será ler este documento:
http://www.cp.pt/StaticFiles/Imagens/PDF/Institucional/orientacoes_estrategicas/capitulo1_a_orientacoes_estrategicas_sector_ferroviario.pdf

E verificar que a utilização da rede, sobretudo entre Ovar e Porto está a funcionar acima dos limites de segurança, e em vez de haver a preocupação de resolver estas deficiências e melhorar a rede existente, há a preferência pelos projectos megalómanos.

Gostava que um partido político dissesse isso: Não vamos investir no TGV, mas sim na resolução dos problemas existentes na rede actual e num upgrade progressivo para a bitola europeia. Como explicitei, Não vai existir transporte de passageiros para a Europa que justifiquem os gastos na Alta Velocidade. Mas linhas de transporte de mercadorias, sim, é essencial, justificado, e premente. A meu ver, resolviam-se estrangulamentos, e com pequenas alterações conseguir-se-iam ganhos tremendos.

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