Domingo, 1 de Março de 2009

O congresso do PS, em termos do debate de ideias políticas, foi uma autêntica nulidade. Passei três dias em Espinho, e pouco “sumo” retiro dos discursos. Os ataques à comunicação social e às campanhas negras, as críticas devastadoras ao Bloco de Esquerda e a reafirmação que o governo PS fez um grande trabalho nos últimos 4 anos (como se os resultados não estivessem à vista de todos). O resto foi um concurso de “A Portuguese Idol”, num desfile de hossanas ao querido líder. Na breve memória descritiva que haverá para escrever sobre este congresso, constará também o anúncio de Vital Moreira como cabeça de lista às europeias. Resta o espectáculo criado para as televisões. E esse foi bem planeado.
E aqui vem talvez o único elogio que consigo fazer a este congresso. O PS deu um salto em frente na comunicação política em Portugal. Bem sei que há no PSD quem acredite que se pode fazer política à maneira antiga. E não se têm coibido de o defender. Mas não tenhamos ilusões: nos dias de hoje, a arena política é o cenário mediático. E os políticos que não souberem conviver com esta realidade, mais vale ficarem em casa. Na era digital, não vale a pena continuar a utilizar uma máquina de escrever.
Não que as ideias tenham perdido a validade de outrora, mas a apresentação delas executam-se através do domínio das ferramentas do marketing político. E o profissionalismo que o PS denunciou neste congresso foi irrepreensível. Os cenários, os vídeos, a disposição da sala, o controlo sobre o trabalho dos jornalistas, especialmente das televisões, tudo foi pensado e executado mediante um plano de acordo com as melhores normas comunicativas. Se o conteúdo foi fraco, a forma foi excelente. Imagine-se o que teria sido se o PS tivesse de facto ostentado em Espinho novas ideias, novas políticas e um projecto para o país. Mas isso já se sabe que eles não têm.
Obviamente, os meios da máquina socialista não têm comparação com o que o PSD dispõe na actualidade. Mas em comunicação há certas regras básicas. E essas não custam dinheiro. Basta imaginação e conhecimento. Coisa que tem faltado aos estrategas do PSD. Na recente semana tivemos dois exemplos claros: entrevista da líder à meia-noite e a líder a ser a própria a encabeçar o ataque à ausência de Sócrates na cimeira. Depois de uma pequena demonstração do que aí vem neste ano eleitoral, o PSD que se cuide. Ou se adapta aos bits ou ficará preso nos átomos. E isso terá consequências trágicas.
Sócrates tentou justificar a sua ausência da cimeira da UE salientando a alta importância da sua presença no congresso. Para isso afirmou: "É aqui que se discutem as ideias." Se houve coisa que não se desse por isso foi ter existido algum assomo de discussão de ideias no congresso. Nem no discurso do próprio Sócrates, que acrescentou: "É a democracia a funcionar." e mais adiante: "O que fazemos neste congresso é do mais nobre e necessário ... é viver a democracia em pleno." Por estas palavras se vê quem tem uma ideia empobrecida da democracia. "Nobre"?! "Necessário"!? "democracia em pleno"?? Já sabíamos que Sócrates não tinha a mínima ideia do que fosse discussão de ideias e debate democrático pelas suas intervenções nos debates quinzenais na Assembleia da República. Aí sim, deveria funcionar a democracia em pleno. E se nesses tristes debates não é o que se passa, grande parte da responsabilidade tem de ser atribuída ao PM pela sua relutância em responder às questões que lhe são colocadas, preferindo desvalorizar os contendores e iludir as respostas. Infelizmente, neste congresso não foi mais bem sucedido na exposição e explicação das suas ideias do que considera bom para o país.
De Frederico Carvalho a 2 de Março de 2009 às 00:24
Nuno, excelente post.
Estou de acordo com as tuas observações
De Joaquim a 2 de Março de 2009 às 11:43
"Imagine-se o que teria sido se o PS tivesse de facto ostentado em Espinho novas ideias, novas políticas e um projecto para o país."
Mas devia ter?
O PS está no Governo há 4 anos. Se viesse agora com "novas ideias", "novas políticas" e um novo "projecto para o país" estaria a dizer uma de três coisas:
a) as ideias, políticas e projecto que teve/desenvolveu nesta Legislatura foram erradas;
b) o projecto que se pretendia concretizar está concretizado e é o momento de traçar novos objectivos para Portugal;
c) o seu projecto é conjuntural e não é válido para a situação actual.
A primeira não pode dizer, apesar de (ou precisamente porque) todos saberem que é verdade na maior parte das áreas de governação.
A segunda implicaria que o Portugal de hoje é o que há 4 anos o PS se propôs construír. Que todos os objectivos teriam sido atingidos. Isso seria ridículo.
A terceira demonstraria falta de visão a longo prazo.
É natural que a comunicação social exija novidades em todos os congressos, comunicações ou até mesmo debates parlamentares. Mas é precisamente essa exigência que tem puxado a política e os políticos para o grau zero (a especialidade do Primeiro-Ministro), em que só interessa o espectáculo e a novidade, não a concretização.
A concretização dá trabalho, demora tempo e não pode ser reduzida a clichés. Não dá um bom espectáculo e, porque não se pode fazer muitas coisas ao mesmo tempo, não pode ser frequente.
O PS actual é o produto dessa cultura do espectáculo e da forma contra a responsabilidade e o conteúdo.
Neste congresso não foram apresentadas novas ideias e novas políticas? Pois não. Nem tinham que ser. O PS não foi oposição durante os últimos 4 anos.
O que o PS tinha que fazer era um balanço minimamente realista do que fez neste período e do que falta (e se pretende) fazer nos próximos 4. Mas o realismo não é precisamente o forte deste PS.
Não peçam novidades ao PS, peçam-lhe contas. As novas ideias só distrairiam do desastre que tem sido esta (des)governação.
Joaquim,
O slogan do PS é "A força da mudança". O que é extraordinário um partido invocar a mudança, quando governa o nosso país praticamente há 14 anos, com um interregno de 3. E já que prometem a mudança, então sim, deveriam apresentar um novo projecto político. Se é mais do mesmo, então não deveriam utilizar um slogan tão enganador...
De Joaquim a 2 de Março de 2009 às 13:04
Nuno,
"A força da mudança" pode ser lido de duas formas diferentes:
(1) temos a força para (e vamos) mudar Portugal
(2) tivemos a força e conseguimos mudar Portugal
Num partido que está no Governo com maioria absoluta e pede nova maioria absoluta, o slogan tem que ser lido das duas formas, por muito que o PS saia mal da segunda.
Assim, aplica-se o que escrevi.
De Joana Meira a 2 de Março de 2009 às 15:49
Lembram-se dos táxis em França:
Jái votez Miterrand je suis un con!
Cá dava para ter:
Eu votei Sócrates, sou mesmo anjinho!
De zétuga a 2 de Março de 2009 às 17:33
por um país melhor vota PS vota Socrates vota por um portugal melhor
Na minha opinião pessoal