Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
Não sei se o Presidente da República estará por estas horas a pensar na entrevista de ontem do primeiro-ministro. Provavelmente não. Provavelmente não terá tido tempo ou pachorra para assistir a mais um monólogo, patrocinado pela complacência, impreparação e medo (vamos pensar que inconsciente) de dois jornalistas. Convinha, ainda assim, que o Dr. Cavaco Silva tenha já tido oportunidade de perceber o que foi a entrevista do primeiro-ministro de Portugal, ontem no canal do regime: um mega-recado dirigido ao próprio. O homem que repudia os «recados», esteve durante mais de quinze minutos da entrevista a dizer basicamente isto: “Aníbal, não te metas nos assuntos do país porque de cada vez que falares nos assuntos do país, retirar-te-ei do pedestal e colocar-te-ei nas baças regiões da politiquice da oposição”.
Já se sabia que a retórica de José Sócrates era sleazy e pejada de arrogância. Ontem, juntou-se uma outra característica: o cinismo. José Sócrates arrogou-se o direito de falar em nome do próprio Presidente da República, avisando-o a ele e aos portugueses que o mais leve desabafo, o mais cândido reparo, a mais sincera e inocente das críticas do presidente seria sinónimo do «instrumentalização» - coisa que ele sabe que jamais o Presidente exercitaria...
Ficou, aliás, patente que José Sócrates pretende levar até às últimas consequências a sua pueril e patética doutrina: quem ousar criticar as respostas do governo à crise; quem denunciar práticas duvidosas da administração fiscal ou central; quem puser em dúvida as certezas que habitam a alma do primeiro-ministro e dos seus ministros, está invariavelmente ao serviço do «pessimismo», do «bota-abaixismo» e, no limite, da «calúnia». Ao pé dele, ninguém – jornalistas, comentadores, «analistas políticos», Zé Povinho – pode confrontá-lo com o país real ou com o real estado do país. Na sua santa e comovente crença, José Sócrates acha-se o melhor. Perante o picaresco queixume do povo, José Sócrates jura-nos que está a fazer tudo o que está ao alcance do melhor dos mortais. Este cerimonial dogmático, saturado de bondade e magnanimidade, exige, na prática, um silêncio de igreja a todos (incluindo jornalistas). Qualquer barulho será próprio dos que o querem derrubar de forma gratuita e ressabiada. O homem é, está visto, um santo.
Os objectivos desta estratégia roçam o prosaico: desqualificar o «maldizente», empurrar o «pessimista» para o grupo dos «miserabilistas» e dos «velhos do Restelo», negar até à exaustão uma evidência: antropologicamente, a postura do optimista de serviço nunca foi causa de desenvolvimento social e económico. Por uma razão clara e, também ela, prosaica: o optimista tende a desvalorizar as evidências e a mascarar a verdade. Coisa que este primeiro-ministro tem feito até à exaustão e de forma artificiosa. No dia da queda, a coisa não vai ser nada bonita.
E soluções, tens? É arriscado classificares o José Sócrtates de arrongante, pois a forma como escreves denota, devido aos adjectivos que usas, grande arrogância.
É através de posts e comentários destrutivos que se melhora Portugal? Bem, se fôr, parece que alguns senhores-dos-blogs estão a acertar constantemente na mouche. Mas não é.
E soluções? Estão aqui apresentadas? E passagens concretas do PM? Também não.
Pois maldizer é fixe. Dizer que o PM não gosta d amaledicência também o é. Ser sério é fixe, mas não é tão fácil.
Eu também sou um pouco arrogante. Sou eu, o Sócrates, o Zé Povinho
De alice goes a 22 de Abril de 2009 às 22:29
... e o Sr terá alguma panaceia para esse pobre covil a que chamam país...será possível encontrar, ainda, decência em algum pedacinho desse depauperado, faminto e paupérrimo rincão?
Haverá por aí um tal homem como o D. Nuno? Precisa-se com urgência , se faz favor!
Não tenho soluções. Sou arrogante. Por isso é que não sou, não quereria e não teria capacidades para ser primeiro-ministro. Desde quando é que se instituiu essa regra de que por cada crítica tem que se apresentar uma solução? Também já aderiu à doutrina socrática? Não sou eu, nem o Pedro Pereira, nem o Zé Povinho quem tem que, ou melhor, de arranjar soluções. Assiste-me o direito de exigir que o meu primeiro-ministro faça um bom trabalho. Não sei se reparou, mas é ele, e não o Carlos, o Pedro ou o Zé, que detém o poder. E assiste-me o direito, e o dever, de o criticar sem ter que necessariamente apontar uma «alternativa» ou uma «solução». Pedir o contrário chama-se inverter o ónus da prova, ou neste caso, da decisão e da acção. Coisa, aliás, que está muita na moda.
De
Isa a 23 de Abril de 2009 às 02:49
meu, eu tou doente com o que leio sb a entrevista, doente...
Parabéns, belo post.
Bjs
De Hugo Pacheco a 22 de Abril de 2009 às 22:42
Uma excelente análise à estratégia utilizada pelo nosso PM.
Dividir para reinar.
De MC a 22 de Abril de 2009 às 23:09
Procuram-se companheiros para instaurar a IV República.
Este incompetente governo insiste na implementação da escolaridade obrigatória até ao 12º ano (http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1375946&idCanal=172). Eu, a este respeito, repito o que já tinha escrito em 18 Setembro 2008 (http://mudaportugal.blogspot.com/2008/09/escolaridade-obrigatria.html):
A escolaridade obrigatória até ao 12º ano, é uma questão falada desde há uns anos a esta parte. Falada da esquerda á direita, é uma questão que gera consenso. Todos os partidos vêem com bons olhos a introdução desta medida. Medida que já estava na lei de bases aprovada pelo PSD em 2004 (e vetada por Jorge Sampaio) e num projecto de alteração à lei de bases de 2005 apresentada pelo PSD (e rejeitada pela Ministra).
Após de alguma insistência do PSD, a Ministra já dizia que “sim”, mas nada fazia. Depois da intervenção do PR, a Ministra mudou novamente de opinião, dizendo agora que “talvez” seja possível fazê-lo. Mais uma vez, as acções não aparecem, nem sequer um sinal de que possam vir a acontecer. De notar que esta era uma das “bandeiras” do PS no seu programa de governo.
Mas, é necessário reflectir um pouco sobre esta questão. Qual é afinal o objectivo de colocar a escolaridade obrigatória até ao 12º ano? Sem dúvida, será o de elevar os níveis de educação, conhecimento ou capacidade dos nossos jovens. Sendo assim, o simples alargamento da escolaridade obrigatória será suficiente?
Se a prática for equivalente à utilizada até agora, definitivamente NÃO!! A passagem “administrativa” de alunos até à escolaridade mínima obrigatória, para que os Governos possam ter números que agradem aos olhos da população, continuará a minar a nossa educação, seja ela obrigatória até ao 9º ou até ao 12º.
É necessário por isso voltar a colocar os patamares de exigência. É necessário voltar a dar condições aos professores. É necessário remodelar e actualizar escolas. É necessário passar á sociedade uma nova cultura de mérito. É necessário também combater o insucesso escolar com várias medidas. É necessário mudar o sistema de ensino facilitista, não só no secundário mas desde o 1º ciclo…
De mané a 23 de Abril de 2009 às 07:28
o bacoco do Carlos carapinha parece que está a escrever a crónica dos bons malandros, não entende que o mandato de um primeiro ministro são 4 anos e no fim será julgado pelo povo em eleições livres e democráticas mas o meu amigo não entende isso
O inteligente do mané quer toda a gente c-a-l-a-d-i-n-h-a. Nem um comentário, nem uma análise, nem um desabafo. Durante 4 anos, é ver e calar. Viva o mané!
De A.Carvalho a 23 de Abril de 2009 às 21:10
" Ao pé dele, ninguém – jornalistas, comentadores, «analistas políticos», Zé Povinho – pode confrontá-lo com o país real ou com o real estado do país." Com que direito, ao abrigo de que norma, é que o articulista usa o nome do Zé Povinho ? Tem procuração, dada por quem ? Seria bom expressar a opinião individualmente e não em nome de outrém.
Na minha opinião pessoal