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pelo sim, pelo não - posts sobre o aborto [4 de 4]

por Alexandre Borges, em 09.02.07
Se pudesse votar depois de amanhã (vide primeiro post desta série), fá-lo-ia no “sim” por uma razão simples: a liberal. Que faz o Estado entre uma mãe e a sua gravidez? Entre uma mãe, um pai e os seus filhos? Que faria eu, votando “não”, entre todas essas mães e todas essas famílias? Que tenho a ver com a matéria? Que direito posso ter de decidir sobre assuntos tão de amor e de ódio, privados e interditos como talvez nenhuma outra coisa? Se não digo a ninguém em quem votar, que profissão escolher, como gastar o seu dinheiro, se deve casar-se ou entrar com os papéis para o divórcio, deverei ser chamado a decidir o que farão em relação aos seus filhos? O Estado, de mim ao Presidente da República, tem, do meu ponto de vista, de se afastar daqui, desta zona íntima. Há fitas a circundá-lo avisando: “entrada proibida a pessoas estranhas ao serviço”.
Não quer isto dizer que não entenda o “não”. Entendo o “não” católico, porque um verdadeiro católico, crente na boa vontade e omnisciência divina não se pode querer colocar entre Ele e as Suas criaturas e entendo o “não”, já explicitado por diversas pessoas de modo corajoso e contra-corrente, que considera, o aborto crime – porque é, repita-se, da extinção duma vida humana que se trata, de facto – e que, como tal, deve ser penalizado. Não concordo, mas entendo inteiramente porque é um argumento convicto e coerente que não fecha os olhos às suas próprias consequências.
Por isso, porque, de novo, se me afigura claro que existe verdade de ambos os lados, votaria “sim”, por ser, das duas hipóteses de resposta, aquela que assegura que ambas as verdades serão respeitadas (e sim, a expressão é, rigorosamente, “ambas as verdades”).
É claro que acontecerão abortos inconscientes, desnecessários, desproporcionais. Mas importa-me que se permita aos outros, aos conscientes e ponderados, que possam acontecer; que se reconheça que um casal ou mesmo uma mãe sozinha possam decidir, com maior acuidade e justiça que a multidão, acerca da bondade de trazer uma criança ao mundo, que pode não ser desejada; que pode ter sido abandonada, de antemão, por um dos progenitores; que pode ter furado o apertado sistema de segurança dos métodos anticonceptivos e vir tornar ainda mais miserável a vida dum grande agregado familiar com já poucos recursos. Por exemplo.
Quando defendemos a vida como valor absoluto e intocável, esquecemo-nos de que o simples estar vivo pode ser uma condenação. Trocaria, todos os dias, esse direito à vida puro e simples pelo da dignidade. Uma criança tem o direito de ser sonhada e não, apenas, um imprevisto com que se vai ter de lidar.

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comentários

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De GPN a 09.02.2007 às 18:34

É realmente muito liberal decidir por alguem se ele e digno ou não e pior se vai ser feliz ou não. Vote sim mas não dê argumentos que nada têm liberais para o fazer
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De ateupelonão a 09.02.2007 às 22:45

Sem dúvida GPN

Se num momento miserabilista não queremos viver é connosco. Somos livres e a vida é dificil. Mas é a vida de cada um que deve responder. Mesmo a do feto. Deixemos que seja a vida que está para vir, depois de nascer e crescer que decida. Não a dos outros, por ele...
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De tchei a 09.02.2007 às 21:27

Uma criança não desejada a dada altura da sua vida tem que ser necessariamente infeliz e portadora de problemas para a sociedade!?
Não estou a ver porquê.
O pessoal farta-se de vociferar que os pais biológicos não tem grande importância ( e às vezes só atrapalham) para o bem estar dos putos e na volta instala-se a tragédia se os promotores do prazer sexual não tiverem tempo de pôr mão num preservativo ou forem ingénuos (o que é raríssimo).
Há um certo tipo de liberalismo que me faz mesmo confusão.
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De Ateupelonão a 09.02.2007 às 23:23

Embora interessante o seu discurso, padece de alguns vícios quanto a mim. Desde logo a maioria do seu pensamento assenta na tutela dos direitos da personalidade, do culto do eu como ser livre e pensante. Mas não estamos sós. à assuntos que transcendem o poder dispositivo de cada um e pertencem à esfera da sociedade que nos rodeia. Na sua óptica não haverá limites para a liberdade para o poder de decisão de cada um . Mas há. Assim no círculo fechado de cada casal, o marido não deve agredir a mulher e vice-versa. Mas a violência doméstica existe e está por aí. Na sua óptica, Alexandre, sou levado a concluir que a sociedade não deve intervir nessa relação, defendendo então o velho provérbio: " entre marido e mulher não metas a colher " . Ora penso que concordará comigo que a sociedade evoluiu e estes conceitos e ditados pertencem ao passado.
Não são só os católicos que defendem o não. Eu não o sou e defendo o não, porque não é uma questão de ética, moral ou religião, mas de ciência. Uma ciência humanizada à medida do homem. E tal como o aborto não é um problema de saúde, mas de deficiente educação escolar, falta de planeamento familiar ou desleixo e representa apenas um passo atrás no desenvolvimento da civilização ou um patamar de evolução que parte dos cidadãos ainda não conseguiu alcançar

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