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porque tremeu o «sim» com os cartazes do «não»

por Jacinto Bettencourt, em 09.02.07

O «não», desde cedo, insistiu em mostrar imagens de fetos com dez semanas.

O «sim» desde logo acusou o «não» de explorar sentimentalismos toscos, e de não ter pejo ou vergonha na selecção das armas.

O «não», naturalmente, prosseguiu com a exibição de imagens dado não há que ter vergonha de mostrar algo que existe: um feto de dez semanas.

O «sim», naturalmente, prosseguiu na condenação das imagens, sobretudo porque não tinha imagens de mulheres presas por terem praticado um aborto.

No entanto, e para além desta perspectiva algo limitada e relativa à habilidade das respectivas campanhas, a perturbação do «sim» com as imagens de fetos com dez semanas, deve-se ao facto de, através das mesmas, todos podermos compreender, embora nem sempre explicar, aquilo que está em causa no referendo.

Parte dos argumentos desta campanha centraram-se em dois conceitos chave: o feto, nome atribuído a um determinado estádio do desenvolvimento intra-uterino do ser humano, e a liberdade (da mulher, claro está) na prossecução, ou não, de uma gravidez.

Neste âmbito, muito para além dos argumentos possíveis esgrimidos ao longo destes últimos meses, o que as imagens do feto permitem a todos os eleitores ver, é o seguinte: o feto é bem mais que um feto, e a liberdade da mulher, movida a humores e possivelmente condicionada por episódios semânticos, não basta, em si, para o definir.

É um facto: o feto tem um rosto, tem face, uma cara que nos permite reconhecê-lo naquilo que todos temos em comum, mas também na sua singularidade. Nesse momento, o feto surge-nos como um semelhante. Transforma-se, subitamente, em alguém, e não no quid, no algo, que o «sim» ostensivamente ignorou. Não há, desde modo, nada de mais concreto para a discussão neste referendo que a imagem de um feto de dez semanas: nada há de mais verdadeiro, real e profundo, do que a constatação de que estamos perante uma pessoa, uma verdadeira pessoa, em desenvolvimento, é certo, dependente, com certeza, mas pessoa, que, no sentido clássico, representa já um certo papel perante nós.  É, pois, no momento particular em que encamos o rosto daquilo a que queremos negar tutela, que compreendemos muito mais, e muito para além dos conceitos abstractos em debate. Nomeadamente que ele ou ela, o feto, é já sujeito numa relação - com a mãe -, da qual nasce uma responsabilidade para esta.

É curioso: numa campanha em que o «sim» apregoou que a dignidade do feto se liga e desliga em função da existência, ou não, do afecto materno, e do valor que a mulher grávida, entende, em cada momento, atribuir ao filho, foi, portanto, a divulgação de um rosto que mais irritou o «sim».

Existem inúmeros argumentos técnicos para justificar o «sim» Mas afinal, como definiu Buber, uma pessoa é o entre que está face a face. Uma pessoa não é algo de técnico, matemático, abstracto, biológico. Não é um conceito que depende do ligar e desligar de afectos de terceiros. A vida não explicamos, não condicionamos: compreendemos. Posto isto, domingo não referendamos somente o destino das vidas que as mães carregam consigo, mas a própria ousadia de virarmos a cara ao rosto que compreendemos, em nome de argumentos que apenas explicamos.

Via: Blogue do Não

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comentários

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De Tiago Geraldo a 09.02.2007 às 20:33

Então porquê defender a lei de 84, Jacinto?
Essas ternas imagens de fetos em gestação também podem mostrar fetos deficientes ou fetos que foram gerados a partir de uma violação.
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De Jacinto Bettencourt a 09.02.2007 às 20:51

Caro Tiago,

Um grande abraço! Estou muito cansado de me explicar, e aposto que tu também. Há um abismo entre os nossos pontos de vista numa campanha com esta: não tenho uma dívida que conseguiríamos encontrar-nos a meio caminho, se não existissem apenas duas respostas de escolha alternativa:-)
Digo-te só isso: não sou dogmático no que se refere a censura penal, ou ao alargamento elenco de causas de exclusão de culpa ou ilicitude. Mas não arredo pé quando me dizem que a vida "é quando a mulher quiser ou estiver bem disposta", ou que este referendo tem a ver com "aborto clandestino". Mas o que é isto? "Legalizem o aborto ou eu aborto clandestinamente"?
E sim, faz-me impressão que se abortem fetos deficientes tratando-se de pessoas viáveis. Ou no caso de violação. Mas também sei que isto não é preto no branco e não misturo, nessas situações, a impressão que sinto, a necessidade de ponderação dos diversos aspectos em causa ou os valores que todos devemos respeitar. Nessas situações que referes, a lesão da mulher, e a própria lesão social, são demasiado graves para passarmos ao lado. Fosse esse o problema...
Gostava de te desejar boa sorte, mas não o posso fazer. Deixo-te um abraço,

Jacinto
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De Tiago Geraldo a 09.02.2007 às 21:06

Eu percebo, mas também não te posso desejar boa sorte.

Um abraço
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De Luis Euripo a 09.02.2007 às 21:17

O que mais se aproxima de um ser humano é o cadáver de um ser humano. Porque não fazer uns cartazes?
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De jacinto bettencourt a 09.02.2007 às 21:29

Caro Luís,

Olhe que boa ideia. Sabia que a profanação de cadáveres é punida com pena de prisão até 3 anos? Curioso não é? Para umas coisas, somos um amontoado de células. Para outras, somos uma coisa sagrada. Consideram-nos um amontoado de células quando estamos vivos, e um bem jurídico tutelado quando estamos mortos.
Olhe: sic gloria transit gloria mundi.
Cumprimentos,

JB
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De Luis Euripo a 10.02.2007 às 00:56

Ora aí está algo que deveria ser explicado ao Bagão Félix, que de repente pareceu ter descoberto a pólvora quando descobriu no Código Civil o reconhecimento de determinados direitos sucessórios ao feto. Esse argumento, usado para declarar que o feto é uma pessoa, tornando o aborto num crime de homicídio, quando aplicado ao cadáver, a quem a lei também reconhece determinados direitos, tornaria igualmente o objecto esquisito numa pessoa.
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De Óscar Vaz a 11.02.2007 às 14:21

Só é pena que o "não" use cartazes com fotos de fetos com tamanho bastante superior ao tamanho de um beto de 10 semanas, alguns dos cartazes que eu vi, as fotos eram maiores do que quando eu era quando vim ao mundo. E aí sim, é desleal ir por aí..

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