Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O dever é um direito

por Francisco Mendes da Silva, em 12.02.07

Acredito que, para uma alma palavrosa e de vaidade exorbitante, a vida quase monástica dos juízes seja o pior dos infernos. Mas, por um lado, ninguém vai para a magistratura obrigado. E, depois, não me parece muito prudente a ideia de arranjar espaço para o ego com o pretexto - utilizado ainda há pouco no "Prós & Contras" pelo Desembargador Rui Rangel, no que é secundado por Boaventura Sousa Santos - de que a Justiça se deve abrir ao exterior, que deve ser "traduzida" e "explicada" às pessoas.

 

Ora, "a Justiça" já é explicada às pessoas. Nas sentenças, nos acórdãos, nos despachos, de uma forma que será certamente ininteligível para a maioria das pessoas mas que é tendencialmente a forma correcta de exteriorizar a produção das decisões, que tratam de matérias extremamente especializadas e se querem tecnicamente rigorosas.

 

Ideias da estirpe dos gabinetes de comunicação e assessorias de imprensa - que vêm fazendo escola na magistratura, desde o CEJ até aos tribunais superiores - são cedências ao simplismo, à lógica da turba, ao desleixo teórico, à vaidade individual.

 

Não é aos juízes que cabe a simplificação da sua mensagem (irremediavelmente complexa). É, quanto muito, à imprensa que cabe especializar-se (como em boa medida já faz) de modo a traduzir o que é à partida incomprensível. É isso o jornalismo. 

 

O bom senso não pode ficar refém do senso comum. O dever de rerserva é também o direito à reserva, o direito a não ser interpelado directamente pela espuma dos dias.

 

Ao renunciarem a essa posição de privilégio, os magistrados estão a condicionar o seu raciocínio. Por muito paradoxal que seja, o dever de reserva dos juizes é a primeira condição da sua liberdade de expressão.  

Autoria e outros dados (tags, etc)


comentários

Imagem de perfil

De Luis Euripo a 13.02.2007 às 01:12

Dou a minha modesta concordância a este post. A justiça deve ser recatada mas transparente. O juiz deve ser reservado mas frontal. A sua tribuna deverá ser o despacho ou a sentença, não as colunas dos jornais. O problema está na incapacidade de mediação do jornalismo. A tendência generalizada da comunicação social aponta para a exploração dos aspectos folclóricos ou sensacionalistas dos processos judiciais, a ligeireza de análise, para não falar do alinhamento em campanhas obscuras ao serviço de interesses encapotados. Tomemos como exemplo todos os casos recentes mais mediáticos.
Imagem de perfil

De Luis Euripo a 13.02.2007 às 01:15

Dou a minha modesta concordância a este post. A justiça deve ser recatada mas transparente. O juiz deve ser reservado mas frontal. A sua tribuna deverá ser o despacho ou a sentença, não as colunas dos jornais. O problema está na incapacidade de mediação do jornalismo. A tendência generalizada da comunicação social aponta para a exploração dos aspectos folclóricos ou sensacionalistas dos processos judiciais, a ligeireza de análise, para não falar do alinhamento em campanhas obscuras ao serviço de interesses encapotados. Tomemos como exemplo todos os casos recentes mais mediáticos.
Imagem de perfil

De Luis Euripo a 13.02.2007 às 01:38

sorry pela repetição :-(
Sem imagem de perfil

De Ana a 18.02.2007 às 11:20

Sem dúvida este é o melhor comentário que li à afirmação de Rui Rangel...
Pena é que os profissionais da Justiça, nos seus mais diversos campos de actuação, se esqueçam que o que fundamenta a sua profissão é uma Ciência e não mera retórica!
Pena é que o Direito se confunda, mesmo entre quem o pratica, cada vez mais com Política e cada vez menos com o rigor científico que a Justiça exige.
Serão já estes sinais da perversa massificação?

Comentar post