Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
A minha Mãe é alemã. Nasceu em 1937, numa pequena cidade da Turíngia, chamada Gera.
Perdeu o pai em 1941, levado por uma pneumonia não curada por falta de assistência hospitalar.
Perdeu o irmão no início de 1944, a combater o Exército Vermelho na frente Leste.
Ficou por isso a viver sozinha com a minha avó.
Tinha a minha Mãe 8 anos quando a Alemanha perdeu a guerra e a Turíngia foi ocupada por americanos e, depois, por russos.
Em 1956, uma vizinha da minha avó, visita habitual de sua casa, ouviu-a a escutar a Rádio Berlim Livre, a emissora que o Ocidente disponibilizava para os alemães que viviam na zona comunista.
Apesar de se fazer passar por sua ‘amiga’, essa vizinha denunciou a minha avó à Stasi, a polícia política da Alemanha comunista, e a minha avó passou a ser seguida e a ter a sua correspondência interceptada.
Como ia regularmente a Berlim ocidental, onde estava a aprender francês na Alliance Française, a Stasi via-a mas apenas a entrar no edifício da Legação francesa, situada noutro andar. Resolveram, então, prender a minha avó e, no interrogatório, propuseram-lhe a reclusão ou a devolução à liberdade se passasse a dar informações sobre tudo o que visse do lado ocidental, designadamente as matrículas dos carros estacionados junto à Legação francesa. Ou seja, passaria a ser espia do regime comunista.
A minha avó, da qual infelizmente já não guardo memórias, era, diz-me a minha Mãe, uma pessoa lúcida e de grande sageza, pelo que ficou preocupada com a situação que lhe fora criada e com a provável evolução que a mesma teria…
Por isso, mal chegou a casa, colocou numa mala os seus objectos mais pessoais, escondeu alguns valores dentro de um pequeno vaso com uma flor, e saiu na manhã do dia seguinte com a minha Mãe, novamente em direcção a Berlim.
Nessa altura ainda não tinha sido construído o Muro e, por isso, era possível passar do lado oriental para o ocidental, naturalmente através de um apertado controlo fronteiriço, que também se efectuava na rede do metro subterrâneo, o meio de transporte escolhido para a fuga.
Sabendo que o seu nome estava marcado e consciente do perigo que corria caso fosse descoberto o seu intento, a minha avó arquitectou um plano sem nada dizer à minha Mãe, a fim de aumentar as possibilidades de êxito da evasão.
Assim, quando o metro se encontrava parado na zona de fronteira para efeitos de controlo de passaportes, à aproximação do polícia fronteiriço, começou a repreender a minha Mãe por uma imaginária falta desta, exaltando-se tanto que o guarda pouca atenção prestou aos documentos, antes preferindo apaziguar a súbita fúria da minha avó.
E foi através deste expediente que ambas conseguiram fugir para o Ocidente livre.
Porque razão conto esta história?
Pelo simples facto de que, entre 1956 e 1989, ou seja, durante 33 anos, a minha Mãe nunca mais pode voltar à sua terra natal, pois, embora nenhum crime tivesse cometido, sabia que seria presa por ter fugido da ditadura comunista.
Quando, nos anos 70, eu viajava com os meus pais para a Alemanha, só o meu Pai atravessou algumas vezes a fronteira para Leste, já que nem eu, e muito menos a minha Mãe, podíamos correr o risco de alguém chamado ‘Crull’ ser identificado pela Volkspolizei e, consequentemente, acabar numa prisão do regime comunista da República Democrática Alemã.
Hoje, dia 9 de Novembro, exactamente 20 anos depois da queda do Muro de Berlim e do princípio do colapso dos regimes comunistas, parece quase inverosímil o que acabo de relatar, mas foi assim. Exactamente assim.
Esta história correu bem.
Mas o mesmo não sucedeu com muitas outras, principalmente depois da construção do Muro de Berlim, 5 anos depois. As imagens que escolhi para este Post são as de um jovem alemão de 18 anos, Peter Fechter, abatido pela Polícia do Povo quando, em 1962, tentou fugir para Berlim ocidental, ficando a esvair-se em sangue, durante 45 minutos, sem que os assassinos que o alvejaram sequer o socorressem. Esperaram sadicamente pela sua morte, junto ao arame farpado do Muro.
Para além das divergências ideológicas, são também histórias como estas que nunca me fizeram nutrir qualquer simpatia pelo comunismo, seja este científico ou de rosto humano, tenha ele inspiração marxista, leninista, estalinista, trotskista, maoista, castrista ou qualquer outra.
De K2ou3 a 9 de Novembro de 2009 às 00:13
Apesar de "Abrasileirado", Bom.
Talvez se volte novamente ao assunto.
Haja saudosismo.
Entre Bem e mal, quem o pode distinguir?
De artur de oliveira a 9 de Novembro de 2009 às 00:34
Um post bem emocionante e verdadeiro... O cancro do comunismo ainda persiste e há que evitar que os males do sovietismo se repitam... Porque infelizmente ainda temos a Venezuela, Cuba, Coreia do Norte e até a China como nuvens negras no céu e os grupos terroristas islâmicos e o Irão são os seus aliados naturais... Fora os socialismos ditos ocidentalizados que são antros de corrupção e amigos não assumidos dos rogue states...
De K2ou3 a 9 de Novembro de 2009 às 00:54
Meu caro Artur,
Nesta coisa que vivemos hoje, há quem chame "CRISE",
quem tem tido mais desenvolvimento, melhor PIB, mais poder de negociação, mais,...,mais,...?.
Até os EUA começaram, e bem, a voltar-se para o "SOCIAL", nada de confundir com Socialismo.
Não te esqueça, que o Mundo, por força da tal "Globalização", passou a ser "uma Grande Tribo".
E a Antropologia já sabe, quase, tudo.
Na minha modesta opinião, o Mundo precisa de ser, espera-se que bem, repensado.
De Maria da Fonte a 9 de Novembro de 2009 às 03:24
K2 ou 3
Lamento ser desmancha prazeres.
Mas a Antrolologia, atravessa um momento convulsivo, por via dos muitos achados dos últimos anos, que atiram literalmente para o caixote do lixo, toda a História convencional da Humanidade.
Aliás desde que a Geologia, se resolveu impôr, e fazer respeitar os seus estudos, que a agitação começou. E já nada poderá repôr a paz podre do Establishment.
Quanto ao Social dos States, pois lamento, mas vem chapadinho, nas decisões que o tal selecto Club Jacobino Internacional, tomou na Reunião de 2008.
Na deste ano, por acaso achei muito curioso, ser discutida a gripe dos porcos.
O dito vírus, até está patenteado. com documentos e tudo.
Enfim, é o preço da fama!
Lá se vai o secretismo!
Bom, mas segundo parece o Cher Obama consegiu uma legislaçãozita que lhe permite suspender a net, por tempo indeterminado, a bem da nação, sempre que isso o justifique.
Pelo que, lá se vai o Global!
E teremos que fazer panfletos, em Impressoras clandestinas, e destribuí-los pela calada da noite, nas cidades subterrâneas, ás escondidas de Neros, Torquemadas, Robespierres, Napoleões, Mussolinis, Hitlers, Estalines, Lenines e outros da mesma raça.
Que vida!
Maria da Fonte
Não, o Barack "Bush" Obama decidiu tomar as rédias da nação americana nas suas mãos, com tal viemência quem ainda ninguém se lembrou de questionar por que razão é que o patriot act ainda está em vigor, afinal nãos e fechou guantanamo e se enviam mais tropas para afeganistão e, mesmo iraque, como se esquece a doutrina monrou, em favorecimento do chaves e morales do petróleo...
De Artur de Oliveira a 10 de Novembro de 2009 às 02:10
Completamente de acordo, meu caro...
De Artur de Oliveira a 10 de Novembro de 2009 às 02:13
Mas caro Rui Crull Tabosa apesar de estar de acordo consigo acrescento que a via bélica ás vezes é um mal necessário... Infelizmente...
De
Ega a 9 de Novembro de 2009 às 00:42
Caro Crull:
Faça o favor de escrever a história com mais pormenores, adicione-lhe os testemunhos idóneos que encontrar, ilustração q.b., e chape - chapemos - o resultado na testa dessa malta que se acha salvadora da Humanidade em geral e dos pobres em especial (e que ainda soma votos neste nosso querido Portugal tacanho), para vergonha das bestas e salvação do povo.
Qualquer pessoa honesta sabe que a história só pode ser verdadeira. Enquanto isso, os louçãs desta vida toma o seu pequeno-almoço praguejando porque falta qualquer coisa...
De Pedro Terra Lopes a 9 de Novembro de 2009 às 01:36
Morte ao comunismo. Viva a liberdade.
De Maria da Fonte a 9 de Novembro de 2009 às 02:50
Crull
Tinha eu acabado de recuperar o bom humor depois de lêr o magnífico relato do almoço de 10 000 euros do honrado Vara, descrito por Ega, e agora , que li a sua História, fiquei triste outra vez.
Que maldição é esta que nos persegue, desde o início dos Tempos, e não nos deixa viver?
Que gente é esta, que se alimenta da destruição dos outros?
Ciclicamente, mudam de nome, mas o ódio que transportam é igual.
Caro Crull, subscrevo as palavras de Ega.
Faça favor de completar a História. que a Verdade, tem que ser respeitada.
Nem que para isso, seja necessário atirá-la à cara dos detractores.
Maria da Fonte
De Marquesa de Carabás a 9 de Novembro de 2009 às 08:55
São estes testemunhos, mais do que explicações teóricas, que esta "esquerdinha, fresca ,caviar" precisa ouvir.
Que os saibam pelo menos, ouvir.
Hoje, podem dar-se ao luxo de dizer as alarvidades que dizem. Nesta altura não.Nesta altura saía-se de Berlim dentro dos motores dos carros e morria-se a metros do muro.
Mas há testemunhos, actuais, dos dias de hoje. Um deles que me parece importante, não está linkado aqui pelo 31.
É importante que se entre neste blogue, pelo simples facto de que a protagonista vive em Cuba. Furou o regime de Fidel e só não a calam, precisamente porque este blogue existe e ganhou um prémio de jornalismo, para o melhor jornalista on line, em Madrid, há dois anos.
Ela não o foi receber, não a deixaram sair de Cuba.
Os testemunhos são os de quem vive o dia a dia de um regime totalitário e, na primeira pessoa. Os links dela são os dos dissidentes cubanos que lutam diariamente.
Cada entrada no blogue da Yoani ,significa que o blogue da Yoani é demasiado importante e os ecos seriam demasiados,se a silenciassem.
Aqui fica, desde Cuba a Yoani Sanchez e outros como ela:
http://www.desdecuba.com/generaciony/ (http://www.desdecuba.com/generaciony/)
Cumprimentos,
Marquesa de Carabás
De tenho medo de dizer quem sou a 9 de Novembro de 2009 às 09:10
Neste momento mulhares de africanos tentam a sua sorte tentando chegar à europa e são escorraçados.
De tenho medo de dizer quem sou a 9 de Novembro de 2009 às 09:15
não há muro .. mas há partidos que fazem de muros
De Robin of Locksley a 9 de Novembro de 2009 às 09:35
Quer mesmo falar sobre o que o comunismo e os comunistas fizeram em África?
De tenho medo de dizer quem sou a 9 de Novembro de 2009 às 09:42
não, não sou comunista nem tenho nenhum apreço por ditaduras
incomoda-me é continuarem pessoas em fuga dos seus países e que são escorraçadas. E esquecem-se que na sua hsitória já tiveram de fugir.
"Nos meus cadernos da escola
Na minha carteira nas árvores
Sobre a areia e sobre a neve
Escrevo o teu nome
Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas em branco
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome
Na selva e no deserto
Nos ninhos e nas giestas
Na memória da minha infância
Escrevo o teu nome
Em cada raio da aurora
Sobre o mar e sobre os barcos
Na montanha enlouquecida
Escrevo o teu nome
Na saúde recuperada
No perigo desaparecido
Na esperança sem lembranças
Escrevo o teu nome
E pelo poder de uma palavra
a minha vida recomeça
Eu renasci para conhecer-te
Para dizer o teu nome
Liberdade" (Paul Eluard - Liberdade)
De Marquesa de Carabás a 9 de Novembro de 2009 às 13:04
Muito bom dia Senhor Réspublica,
Dei-xe-me-que-se-lhe -diga que os senhor hoje conseguiu superar-se! Um poema do Paul Eluard, logo pela manhã. Até se me embaciam as "vistas". Muito lindo senhor Réspublica.
Nem se me afigura como irá acabar hoje o dia, a começar assim nestes preparos.
Faça o favor de aceitar este singelo presentinho:
http://www.youtube.com/watch?v=G4TBlPc18SM (http://www.youtube.com/watch?v=G4TBlPc18SM)
Com os cumprimentos,
da Marquesa da Carabás
Bom, está com sorte queria acabar o dia com um relato sobre o Dia D, em que um francês, que sabe ir morrer escreveu um belo relato, em que aceita o seu destino, em virtude de significar a libertação do seu país, mas como não encontro essse relato ficamos assim:
http://www.youtube.com/watch?v=74rURLdpiIE
Caro Rui, ao menos a sua família ainda teve "sorte".
Já a minha, Polaca, depois dos sacrifícios na I e II GM, ainda teve que levar com esses FDP até 1989...
Um abraço
De carlosmarques a 9 de Novembro de 2009 às 17:00
Aqui o génio ainda me poderá um dia explicar em que ano e em que lugar é que ouve um regime trotskista?
Não houve nem eu disse que houve.
O que houve, sim, foi a revolução soviética, na qual trotsky teve um papel preponderante, designadamente no fuzilamento de milhares adversários políticos!
"A autosuficiência de Trótski, mesmo após a vitória dos Vermelhos na Guerra Civil, acabou por determinar que seu prestígio público sofresse abalos importantes: o primeiro, quando da repressão brutal das revoltas de Kronstadt e de Tambov, em que teve papel importante na adoção de uma política de repressão e de rejeição de qualquer compromisso com os rebeldes" (v. http://pt.wikipedia.org/wiki/Trotsky).
Creio que a 'nobreza' de Trotsky como respeitador dos Direitos Humanos enquanto foi um alto dirigente do Estado soviético (comissário do povo).
Espero tê-lo esclarecido.
Na minha opinião pessoal