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Ainda sobre a opacidade

por Laura Abreu Cravo, em 28.02.07
Há algum tempo escrevi aqui, a propósito do (para mim) surpreendente “The Queen” que a opacidade é uma característica injustamente desvalorizada nos nossos tempos.
Gostar, por princípio, da opacidade não significa que se despreze a transparência. Significa apenas que se dispensa a informação quando excessiva, supérflua, desnecessária. As pessoas tendem a achar que não são suficientemente gostadas, entendidas, apreciadas, a menos que o reconhecimento de tais sentimentos venha a reboque de manifestações festivaleiras e despudoradas. Mais, tendem a achar que o seu desagrado não se fará notar — e, consequentemente, não será devidamente processado pela contraparte e subsequentemente solucionado, sanado, apaziguado— sem um considerável jogo de fogos de artifício.
Não sou uma fanática da moderação, acho que a ponderação é essencial, mas que deve ser consequente e, no mais das vezes, levar-nos necessariamente a um ou outro lado das barricadas. Nas causas importantes, dificilmente aceito os apaziguadores que apreciam manter-se em cima do muro observando litígios. Contudo, no que diga respeito às manifestações várias de humanidade (afectos, vontades, desejos) e mesmo das posições ideológicas de cada um, defendo o exercício do pudor e da delicadeza das coisas.
Raras vezes a verbalização acrescenta grande coisa ao que um bom observador possa retirar da realidade. E a berraria não fará mais por um cego do que um bom filme explicativo fará por um surdo.

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