Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

A primeira República viveu sob o signo da ditadura do Partido Democrático, formação política jacobina e radical liderada por um aprendiz de Robespierre, de seu nome Afonso Costa, que certa vez disse (embora não seja do agrado situacionista recordá-lo...) que "devem ser todos pela luta de classes, no sentido marxista da palavra".

À distância de quase um século, é simples de fazer o balanço daqueles 16 anos: intranquilidade pública, instabilidade política, subserviência externa, agitação social, perseguição religiosa, atraso económico e descalabro das finanças públicas.

Nesse curto período da nossa História, várias foram as tentativas para libertar os Portugueses do clima de permanente guerra civil em que o País vivia mergulhado.

Uma delas foi a Revolução de 5 de Dezembro de 1917, liderada pelo major Sidónio Pais.

 

No momento do triunfo, Sidónio proclamaria: “Venceu a República contra a demagogia. A Revolução teve em vista restaurar a Justiça e o Império da lei, e, sendo feita contra a desordem do Poder, ela deseja a tranquilidade e o trabalho, e, tendo autoridade moral para conseguir estes elementos de paz social, tem a força para os tornar efectivos…”

Assim nascia a República Nova.

Foi breve o consulado sidonista. Durou pouco mais de um ano.

Durante esse período, Sidónio combateu o domínio que o Partido Democrático vinha exercendo sobre o País, procurou “acabar com os ódios que dividem a família portuguesa” e soube estabelecer com a Nação uma relação de sinceridade e confiança, dir-se-á mesmo de sentida cumplicidade, a qual lhe valeu uma verdadeira idolatria popular, de difícil paralelo até aos nossos dias.

Em escassos meses, o seu Ministério, assim se designava então o governo, tomou medidas de apoio ao desenvolvimento económico, em particular à agricultura, mas principalmente outras de largo alcance social, de que se destacam a luta contra a carestia de preços, o reforço do abastecimento de víveres à população, a distribuição de alimentos pelos mais carenciados - a célebre “sopa dos pobres” - e o combate às epidemias do tifo e pneumónica, que, em 1918, grassaram no País.

Foi durante o seu governo, a 9 de Abril do último ano da Grande Guerra, que os nossos soldados do Corpo Expedicionário Português, a combater nas trincheiras de França, sofreram terríveis baixas com a ofensiva alemã de Ludendorff na frente do Marne, em La Lys. O General Gomes da Costa, então comandante da 2.ª Divisão do CEP, diria sobre os heróis tombados que “Morreram cumprindo o seu dever. É o mais notável feito de guerra dos últimos 50 anos e de que a Divisão se pode e deve orgulhar.”

Pouco depois, Sidónio Pais é eleito Presidente da República e confessa: “Fui eleito pelo Povo e para o Povo devo viver. É de resto entre o Povo que me sinto bem. Por ele me sacrificarei e darei o meu sangue e a vida.” Deu ambos a 14 de Dezembro de 1918 quando, pelas 23.30 horas (cumprem-se 91 anos no exacto momento da publicação deste tributo), caiu no Rocio (como então se dizia), varado pelas balas de um cobarde sicário.

Já moribundo, ainda balbuciou: “Morro… bem… Salvem a Pátria!...”. Derradeiras palavras ainda por cumprir.

Logo depois, a República voltaria a mergulhar na luta fratricida, de que a noite sangrenta de 19 de Outubro seria mais tarde um eloquente e trágico momento.

Sidónio Pais é uma figura maior da História de Portugal.

Fernando Pessoa chamou-lhe Presidente-Rei.

Talvez porque o autor d'A Mensagem soubesse decifrar, como nenhum outro Português, o Ser profundo do Homem que, pouco antes de morrer, descobriu aos outros a sua missão: “Eu não vivo no Portugal de hoje, vivo no Portugal de ontem para o Portugal de amanhã.”

Houvera entre nós hoje governantes assim.


publicado por Rui Crull Tabosa às 23:30
link | nunca erro e raramente me engano
12 comentários:
De Miguel Madeira a 15 de Dezembro de 2009 às 01:27
"um cobarde sicário"


"cobarde" porquê?


De Rui Crull Tabosa a 15 de Dezembro de 2009 às 01:44
Que outro nome dar a um assassino que mata um Presidente à traição?


De Maria da Fonte a 15 de Dezembro de 2009 às 03:34

Caro Crull

Sídónio Pais, tem pelo menos uma faceta decente.
Não escamoteou o seu papel.
" Eu não vivo no Portugal de hoje, vivo Portugal de Ontem para o Portugal de amanhã".
Não só não o escondeu, como até o atirou à cara dos Portugueses dessa época.

Pois bem caro Crull, hoje estamos a viver hoje, o tal Portugal de amanhã que Sidónio Pais, ajudou a criar.

E é esta desgraça que vemos...
Agora imagine que ele vivia mais anos!
Com a queda que Sidónio tinha, para deportar opositores e insurgentes, ainda teria feito um acordo com os Bolcheviques, ou com os Mencheviques, consoante quem estivesse no poder, na URSS, para deportar os Portugueses para a Sibéria.

Bem nem todos! Só os que conseguissem escapar à fome, e ás balas da Guarda Pretoriana.

Os outros, por motivos óbvios já não seria necessário!

Francamente Caro Crull, o homem era um Tirano!
Mais um, da Velha Escola!

Assim uma espécie de versão Bolchevique do  Menchevique Arrmani, dos Novos Tempos.

Não acredito que o Crull, não esteja a apanhar o Fio da Meada!
Pense lá melhor.
Que Sidónio não foi morto à traição, foi executado

Maria da Fonte 





De Maria da Fonte a 15 de Dezembro de 2009 às 03:38
Deve lêr-se ...Pois bem Caro Crull, estamos a viver hoje, o tal Portugal de amanhã....

Maria da Fonte 


De ems a 15 de Dezembro de 2009 às 13:57
À traição? O homem matou-o de frente como se faz aos toiros.
Independentemente da posição foi bem menos covarde que os que mataram o outro ditactadorzeco, o Cesar.


De Ega a 15 de Dezembro de 2009 às 23:18
Não me parece que o Costa tenha citado Sidónio: «Olé Sidónio» - dando a este o tempo de investir ou de se defender, de qualquer modo. Antes surgiu entre a multidão e disparou à queima-roupa. à falsa fé.
Para ser traiçoeiro não precisava matá-lo pelas costas. Bastava aproveitar a desatenção de quem estava atento à ovação popular que sempre o acompanhava.


De Maria da Fonte a 16 de Dezembro de 2009 às 01:07
Caro Ega

Digamos que José Júlio da Costa, ao invés de alvejar Sidónio Pais, deveria tê-lo desafiado para um Duelo.
Dadas as circunstâncias,  seria o mais correcto. Afinal tratava-se de uma questão de Honra.

Será que Sidónio Pais teria aceite?
Um Duelo segundo as regras da Cavalaria?

Não creio!
Não me recordo de ouvir dizer que o Alfredo ou o Buiça, tivessem dado a El- Rei D. Carlos, qualquer hipótese de defesa.

José Júlio da Costa, apenas usou os mesmos métodos da Maçonaria.

Ás vezes, Caro Ega, por muito que custe, é necessário que se fale a única linguagem que os traidores conhecem.
A sua própria linguagem!

Maria da Fonte  



De Maria da Fonte a 16 de Dezembro de 2009 às 04:14
 Caro Ega

E quem terá instigado a turbamulta?

Parece que Irmandade  não é lá muito unida.  

Ainda há pouco tempo lavaram a roupa suja, nas páginas dos jornais...
E até houve queixas no DIAP, por conta de divergências na gestão do avultado Património Imobiliário... com os supostos queixosos a lamentarem-se posteriormente que alguém lhes teria  falsificado as  respectivas assinaturas!!!

Maria da Fonte


De Ega a 16 de Dezembro de 2009 às 10:48
Cara Maria da Fonte:

Nessa época acredite que a Irmandade estava bem unida.
Ou talvez começasse a não estar: os carbonários-mor Machado Santos e Luz de Almeida deram sinal verde a Sidónio.
Talvez o resto fosse uma vingança da Maçonaria, temendo mais divisões.
Um reparo paenas. Sidónio não era de Cavalaria mas de Oficial de Engenharia, alíás prof. catedrático.
E nunca faria duelo com o seu assassino: dava-lhe duas chicotas e entregava-o por uma orelha ao «civico» mais próximo. Era assim.
Hoje a Maçonaria está realmente dividida acontece aos melhores piores. A serpente também pode morrer injectando-se com o seu próprio veneno.


De népias a 16 de Dezembro de 2009 às 15:10
correção: oficial de artilharia


De Ega a 15 de Dezembro de 2009 às 01:51
Temos o dia de amanhã para voltar ao tema. A discussão promete. Entre portugueses e jacobinos.

Os monárquicos serão os primeiros a respeitar as convicções patrióticas de Sidónio.

Os jacobinos, os primeiros a não perceber que se a república idealizada por Sidónio fosse avante, talvez hoje não se discutisse a questão de regime.

Resultado: a República de Sidónio (entretrecho na I República) é melhor percebida por monárquicos do que por jacobinos, ditos republicanos.

Conclusão: o jacobinismo (ainda agora preponderante) é quem melhor desrespeita a portugalidade.


De Velho da floresta a 15 de Dezembro de 2009 às 21:52
Tenho um pequeno livro (93 pág.) com o titulo "Sete annos depois... A Republica Nova" e sub titulado "Carta ao sr . Sidonio Paes , inclito e invicto restaurador da ordem", sem autor e publicado em Lisboa em Janeiro de 1918, pela Lamas, Motta & C.ª Editores. Se bem que laudatório é particularmente interessante a forma como quem o escreve apresenta o estado de absoluta calamidade do país nessa época não poupando as palavras "Os principios da liberdade foram progressivamente postos de parte. Chegou-se, finalmente á censura prévia dos escriptos, como nos tempos inquisitoriaes...chegou a ser prohibido perguntar por contrctos a que se prendem altos interesses e responsabilidades nacionaes... O esbanjamento dos dinheiros publicos era manifesto na creação de novos lugares e serviços, mas o esbanjamento oculto era ainda maior... Era bem o paiz posto a saque, e não se pensava senão em arranjar dinheiro, mais dinheiro, cada vez mais dinheiro. Os influentes cevavam-se, em tudo levavam comissão, ou como melhor se lhe queira chamar". Deste pequeno exemplo da prosa se vê o desalento e descrédito que existia para com os governantes, até à revolução de Sidónio, pelo teor da obra quem a escreve é sem duvida republicano de formação.


Na minha opinião pessoal

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