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Eu sou conservador e voto Cavaco.

por Francisco Mendes da Silva, em 05.01.11

Quando os media andavam desnorteados sobre a forma como vender este nado-morto político que são as eleições presidenciais, inventaram um enquadramento absurdo: Cavaco promulgou o casamento entre pessoas do mesmo sexo e por isso pôs-se a jeito para perder o voto dos conservadores. A esquerda ainda salivou, como se aqueles que acha que são "os conservadores" fossem a correr para os braços do primeiro cônsul pátrio do Vaticano só porque o Presidente não exerceu um direito de veto cujos efeitos concretos seriam absolutamente nulos. "Conhece o teu inimigo", ensina Sun Tzu - que parece não constar dos hábitos de leitura dos vermelhos da paróquia.

 

Eu sou conservador e voto Cavaco Silva. Sou conservador porque prezo a ordem. Não uma ordem imposta ou centralizada. A ordem que me interessa é a ordem espontânea, que permite o desenvolvimento civilizado da sociedade com base nas relações livres entre os indivíduos e nas instituições por estes criadas. Uma vez que aprecio esta forma orgânica de progresso, assente na "conversação" entre as pessoas e no desenvolvimento desimpedido das suas "intimações" (cuidado: autor do post sob forte influência de Oakeshott), defendo a política e o governo da comunidade como exercícios limitados, e o Estado como uma construção de intenções modestas. Levado às últimas consequências, um conservador é um ser apolítico - ou  mesmo anti-político. A política é sempre um mal: um mal menor, mas ainda assim um mal (mesmo para os que nela participam). E as opções políticas são, por maioria de razão, opções entre vários males. Votar é sempre escolher o mal menor. Só quando percebemos isto podemos dizer que adquirimos uma mundividência adulta e civilizada. Dirão alguns que é cinismo. Mas desde quando é que um adulto civilizado não é cínico? A sério: há algo de bastante embaraçoso - e de esquerda - naquelas pessoas que estão sempre à espera de um político que seja o exacto prolongamento da integralidade das suas ideias - um megafone humano privado. Qualquer direitista terá como certos dois pressupostos políticos: em primeiro lugar - seja ele um cristão personalista ou um individualista liberal -, que não existem duas pessoas com a mesma psicologia, e essa é a premissa fundamental da aversão conservadora ao centralismo estatal; em segundo lugar, que o mundo é o que é, os dados com que temos de lidar são os que existem, e é com eles que temos de fazer o melhor possível. A abstenção é uma solução infantil.

 

Nestas eleições, tendo em conta os candidatos que a elas se apresentam, Cavaco é o mal menor. É-o a tanta distância dos demais que até parece uma dádiva providencial. Não me traz grande alegria que assim seja. A minha iniciação política fez-se contra o cavaquismo, fenómeno que deu à política portuguesa muito do que detesto: o aumento do peso do Estado, a colonização do dito por um exército de incompetentes partidariamente encartados, a criação de uma "elite" política e económica, nacional e local, a partir de oportunistas da pior espécie, etc., etc. Por muito que custe a muita gente, o cavaquismo foi uma espécie de socratismo avant la lettre (salvaguardando as devidas diferenças entre Cavaco e Sócrates - diferenças de carácter, de currículo académico e profissional, de história de vida). Mesmo sabendo que Cavaco não se confunde necessariamente com o cavaquismo, não tenciono esquecer ou perdoar. Mas o que o homem tem vindo a dizer nos últimos anos há-de valer alguma coisa. E, como diz o Alberto Gonçalves, "apesar dos defeitos, é dos raros políticos nacionais que não enlouqueceram ou nasceram maluquinhos".

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comentários

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De tric a 05.01.2011 às 02:54

Eu sou Anti-(Abortista=Socretinos=Jacobinos=Maçons=Cancios=Passistas) e voto Cavaco!!!
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De tric a 05.01.2011 às 04:03

e tambem porque ´e o melhor candidato para fazer a transiçao do Euro para a nova moeda Nacional e nao Iberica, como os Judeus-Maçons-Passistas desejam... apesar de Cavaco Silva acreditar muito no Euro, mas...
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De Elias Constantino a 05.01.2011 às 04:34


O Cavaco de Direita?

Ha cada idiota!

Se fosse conservador, como diz o postante, o homem n~~ao teria promulgado as leis do abarto e do casamento gay e outros ataques a sagrada instituiçao familiar.

O que ´´e que voces bebem ``a tardinha?
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De Javali a 05.01.2011 às 10:17

Você não é conservador. Você é uma pedra lascada do Neolítico. Creio que a definição de conservador que o autor do texto deixou no texto acima ilustra bem o que DEVE ser um conservador: alguém que acompanha a evolução e o progresso da sociedade, não alguém que recusa mudanças mesmo quando são "um mal menor" ou são sensatas. Enquanto a direita portuguesa mantiver esse registo de tabuletas de Moisés não espere que ganhe muita simpatia entre os cidadãos mais activos, hoje.
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De saloio a 05.01.2011 às 11:15


Cavaco é revolucionário e militante do grupo SLN/BPN,uma especie das Farc na Colombia...
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De orlopesdesa a 05.01.2011 às 08:12

Esta história de votar Cavaco porque é um mal menor, é tão infantil quanto a abstenção. Só se vota naquilo que realmente se acredita, caso contrário esvaziamos a democracia. O amigo acha que os políticos fazem distinções entre aqueles que votaram neles porque realmente acreditavam daqueles que votaram neles por ser um mal menor?
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De luis a 05.01.2011 às 09:43

Caro Francisco
A abstenção é um direito. E quando a abstenção é fundada na repugnância de se votar em alguém que apôs livremente a sua assinatura para promulgação de um diploma que representa um ataque ao direito à vida de seres humanos inocentes e indefesos, alegadamente contra a sua própria consciência, essa abstenção fica muito bem justificada.
Se quiseres, eu não preciso que um político pense exactamente como eu.
Só que dá-me vómitos votar em quem não valoriza a sua assinatura, não tem noção da dimensão histórica da sua função e da importância que alguns eleitores dão a que os políticos actuem de acordo com as suas (alegadas) convicções.
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De anonimo a 05.01.2011 às 11:22

o aborto,"mata inocentes",a politica de direita,mata gente já consciente  à fome.  Não sejas velho do restelo... 
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De terrivel a 05.01.2011 às 10:05

"Qualquer direitista terá como certos dois pressupostos políticos:(..) o mundo é o que é, os dados com que temos de lidar são os que existem, e é com eles que temos de fazer o melhor possível."
Portanto, não existem direitas revolucionárias. As coisas que um gajo aprende...
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De Javali a 05.01.2011 às 10:23

Aprecio bastante a definição de conservador que o autor deixou acima. Pena é que tenha um toque muito inglês, muito pouco operativo entre nós, um requinte e um progressismo que não encaixa na auto-imagem das nossas pessoas que se acham de Direita. A auto-imagem dos nossos "conservadores" é a de um sacristão.
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De Javali a 05.01.2011 às 10:26

E, de facto, votar Cavaco só porque é um mal menor é um tipo de pragmatismo que não defendo. Eu reservo o direito de me abster perante a impossibilidade de votar em alguém com quem concorde. E não posso perdoar a CS ter promulgado o Acordo Ortográfico. Jamais.
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De nortada a 05.01.2011 às 11:09

Ó Francisco, és um mau conservador. Nós devemos conservar o que é bom e cultural . Disso há muito na loja dos trezentos...
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De Daniel João Santos a 05.01.2011 às 21:33

Interessante: "Sou conservador porque prezo a ordem."


Quem garante a ordem? O Estado?


Se é o Estado, não será que a intervenção deste na criação da ordem uma clara interferência na liberdade de não querer essa ordem? 
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De Inês Fonseca a 05.01.2011 às 22:10

Os efeitos do veto à lei do "casamento" entre homossexuais não seriam nulos, como afirma. Nos termos da Constituição a lei podia passar, mas Cavaco marcava uma posição. Entendamo-nos: não foi por os "efeitos serem nulos" que ele a promulgou: foi porque não teve coragem de a vetar. Quis agradar aos dois lados, e portanto promulgou dizendo que não concordava com ela, coisa extraordinária. Quis garantir a reeleição. Isto na minha terra chama-se "falta de carácter". Admito até venha a ser mais rigoroso no segundo mandato, mas não pode apagar os disparates com que foi conivente, ficando demonstrado que foi inútil no primeiro mandato. Votei nele há cinco anos, não votarei agora. Não sou de abstenções, porque levo a sério o dever de ir às urnas, por isso vou simplesmente votar em branco, ou anular o voto, se me lembrar de alguma coisa divertida para dizer ou desenhar. Acho a teoria do "mal menor" o equivalente a desistir porque, como alguém bem comentou ali em cima, ao candidato eleito é irrelevante que tenha sido eleito por gente convicta como por adeptos da teoria do mal menor.
Perdidas que estão as causas mais importantes na estrutura da sociedade, tanto me faz agora que seja cavaco, ou alegre, ou defensor (os nomes são igualmente divertidos). Mais imposto, menos imposto, tudo é conjuntural: sobe agora, desce antes das eleições. Sempre foi assim. Não é disso que sobrevive um povo.
Cumps,
Inês Fonseca
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De N.K. a 11.01.2011 às 11:31

Ai um conservador no limite é antipolítico. Deve ser um conservador revolucionário, qualquer coisa antitética assim do género. acho piada.

sê honesto: votas cavaco porque ele tem os mesmos trejeitos de boca; o mesmo ar de "a minha cabeça fez tilt" a cada pergunta menos cómoda; a mesma postura mansinha, pseudo-supra-partidária que tem o d. duarte. Um chico-esperto com ar de avô e fato, portanto.

"Só quando percebemos isto [votar é um mal menor] podemos dizer que adquirimos uma mundividência adulta e civilizada. Dirão alguns que é cinismo." Ah ah e não e não. Tu votas cavaco porque ele é irrelevante e o bom da irrelevância é que não mexe contigo (ou consigo, para sermos mais conservadores) nem com nada deste país . Um presidente que não tem opinião sobre nada, excepto para umas bacoradas sobre finanças, como se ele - logo ele - não tivesse um bocadinho que seja a ver com o que foram os últimos 30 anos de Portugal.

Cavaco é um mito, outro vindo sabe-se lá de que 5º Império, outro que gostamos de pensar que é super-honesto e ultra-competente e mega-coiso porque tem bom ar, mas que no fundo partilha os mesmos vícios do Sócrates, embora com um discurso que lembra a RTP de 1960.

Vota nele. Sabemos que ele ganha. E fica feliz por premiar o senhor com a certeza - dou-ta eu - de que um poste de electricidade faria mais do que ele (afinal de contas quem ganha num combate entre a inutilidade e uma coisa com luz?). Mas por favor não cites o Alberto Gonçalves. Embora não concorde com muito do que o Alberto diz, ao menos o homem di-lo com estilo.
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De amsf a 18.01.2011 às 12:22


Já encontrei o candidato que há-de levar o meu cartão vermelho às elites portuguesas, esse candidato é o José Manuel Coelho.
Palhaço a maluco é o povo que vota sempre da mesma maneira esperando obter resultados diferentes!

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