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O enfado do CDS

por Tiago Geraldo, em 06.06.11

Conheço muita gente que nunca tinha votado CDS e que hoje o fez pela primeira vez.

 

As caras de enfado e desgosto que hoje se viram pelo Largo do Caldas e nos vários dirigentes do partido que se pronunciaram sobre os resultados destas eleições são, para esses eleitores, o pior cartão de visita eleitoral do CDS.

 

O CDS teve hoje o seu segundo melhor resultado em 37 anos. Manteve os almejados dois dígitos. Conseguiu a suma proeza de aumentar a percentagem de votos e o número de deputados quando o PSD sobe mais de 10% em relação a 2009. Tem tantos deputados como PCP/PEV e BE juntos. Vai para o Governo. Mas, pelos vistos, não há razões de festejo.

 

O CDS parece sofrer de um síndrome que, à falta de melhor, designarei por “síndrome sportinguista”: não lhe basta o sucesso próprio; para a satisfação ser completa, é também preciso que o PSD fracasse (lembre-se, por comparação, a incontida alegria do CDS nas eleições de 2009).

 

Ora, para além dos 6/7% que tem praticamente garantidos em todas as eleições, os outros 5/6% que desta vez – e em 2009 – votaram CDS são compostos por eleitores de direita pragmáticos que votam no CDS sem a ilusão de que este partido venha alguma vez a ocupar a posição liderante do PSD. Querem apenas que o CDS integre um Governo (naturalmente) liderado pelo PSD e que possa influenciar o seu programa de acção.

 

Os muitos iludidos do CDS que, imersos numa arrogante e caricata mania das grandezas, acham que essa inversão de posições com o PSD é possível e que algum dia fatalmente acontecerá, mais não fazem do que alienar esses tais eleitores que votaram CDS pela primeira vez, que acreditam legitimamente que este foi um bom resultado e que não compreendem a desilusão reinante. Começaram a fazê-lo esta noite.

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comentários

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De LeloDasTShirtsDoPartido a 06.06.2011 às 01:41

O multipartidarismo prega-nos muitas partidas. Basta ver o exemplo do PS: 28% que ainda são pior empregues.
Acho mais importante abraçar-se o espírito de coligação, do consenso e do sentido de Estado.
Podemos sempre agarrar sozinhos no leme e cair nas mesmas asneiras que um ex-secretário de um certo partido que eu cá conheço...
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De Fernando Albino a 06.06.2011 às 01:45

Como sportinguista e militante do CDS posso-te garantir, Tiago, que não havia nenhum desejo de fracasso do PSD. Nenhum. Pelo contrário, era essencial para o CDS, para o país, que o PSD ganhasse e o PS perdesse. O que havia, e há, no CDS é a consciência de que vêm aí momentos muito difíceis e que este não é o momento para euforia nem celebrações. O CDS teve um resultado excelente - o resultado de Lisboa foi absolutamente incrível! O que tu chamas de enfado e desgosto é apenas o reflexo da consciência dos tempos difíceis que aí vêm e das dificuldades que muitos Portugueses enfrentam já hoje. Bom seria que o PSD - e os seus apoiantes, como tu- tivessem igual consciência e realismo e o mesmo decoro e decência perante essas difculdades.
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De Spencer a 06.06.2011 às 01:53

Essa desculpa é um bocado forçada...E eu sou sportinguista, militante do PSD e tenho uma simpatia pelo CDS como tenho pelo Belenenses.
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De Tiago Geraldo a 06.06.2011 às 01:59

Fernando, sinto-me eu próprio um pouco "enfadado" por ter de repetir isto, mas as generalizações que os férreos militantes do CDS - como tu - insistem em fazer ("o PSD - e os seus apoiantes, como tu") relevam, para além de alguma (dispensável) arrogância, desacerto no alvo. 


Eu votei CDS nestas eleições e enquanto eleitor do CDS nestas eleições tenho o pleníssimo direito de criticar a reacção do partido esta noite. 


Saberás tão bem como eu que não foi apenas o "reflexo de consciência" e as dificuldades que se aproximam que motivaram os semblantes carregados desta noite, mas sei que - provavelmente por "lealdade orgânica" (belo conceito) - o negarás sempre. 


O que me desgosta é ver muita gente no CDS que, empenhando, e bem, o seu espírito livre em cativar eleitores, tem muita dificuldade em conceder idêntica liberdade na hora de lidar com eleitores mais exigentes e um bocadinho menos alinhados e acríticos.


Dito isto, que venha daí um bom Governo, que é o que todos precisamos.
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De Fernando Albino a 06.06.2011 às 03:42

Ok,Tiago. Whatever. Se me conhecesses sabias que lealdalde orgânica é religião que não pratico. Aquilo que eu sei é que houve muitos motivos para o CDS estar muito satisfeito com o resultado e inúmeras razões para deixar extravazar algum (natural!) contentamento. 7 deputados em Lisboa! Mais 3 deputados no parlamento! Crescimento de mais de 1% a nível nacional quando o PSD subiu tanto! Aquilo que sei, também, é que ainda ontem, quando já calculava que iríamos ter 11%-12%, fartei-me de alertar para não se entrar em euforias nem triunfalismos. Não que os resultados o não merecessem (mercem) mas porque o país está de rastos e ainda vai ficar pior. Daqui de longe (São Paulo) foi isso que transpareceu. Para alguém que está há muito tempo fora do país (11 anos) foi essa a imagem que passou. Mas, claro, ninguém te proíbe de pensares diferente ainda que ache o teu comentário, de que o CDS alienou os seus eleitores pela reação contida que teve, manifestamente exagerado.
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De Tiago Geraldo a 06.06.2011 às 13:45

Francisco, é precisamente por achar que havia tantas e tantas razões para celebrar e que esta foi verdadeiramente uma grande vitória para o CDS que as caras de enterro e desilução que vi ontem não me agradaram. 


Fiz este comentário porque me senti eu próprio decepcionado com a reacção - quanto a mim, injustificada - do CDS a estes resultados. De resto, já vi pessoas "do CDS" a assumir frontalmente essa desilução (por exemplo, http://ruadireita.blogs.sapo.pt/483071.html) que, repito, não compreendo.


Em todo o caso, o tempo agora é de unir esforços e deixar de lado questões eleitorais de menor importância.


Um abraço então para S. Paulo.
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De GMG a 06.06.2011 às 02:25

nao tem a haver com o facto de o psd ganhar..mas sim o cds gostaria de almejar os 15%, depois da campanha que fez e depois de elevar tanto a fasquia, estes 11% sao sem duvida um bom resultado, tal como garantir tantos deputados como comunas e comunas pseudo intelectuais, contudo mais uma vez o digo soube a pouco..o cds sabia que este era o momento da mudança e nestas eleiçoes que foram as mais importantes dos ultimos tempos, o povo preferiu o voto util, em vez  do voto de confiança
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De Pedro Bizarro a 06.06.2011 às 03:33

Concordo contigo quando dizes que o eleitorado flutuante do CDS não tem em vista a "inversão de posições" com o PSD. Mais, acho que nem os indefectíveis têm isso em mente. E duvido que a liderança do CDS ache realista um cenário no qual este, no curto-prazo , atinge mais de metade dos votos do PSD em legislativas. Tiro é daí conclusões diferentes das tuas.

Acho que no CDS também se saberá (2009 parece demonstrá-lo) que ninguém vota hoje no CDS para ter um Governo PS+CDS. Ainda que, ao contrário do que referes, o actual eleitorado do CDS esteja hoje longe de se limitar à direita, pragmática ou não. Daí conheceres tanta gente (e eu também) que hoje votou CDS pela primeira vez.

Portanto, sendo o CDS um partido de poder e não se antevendo um desastre no PSD que faça do CDS "a" alternativa ao PS, ao CDS interessa que o PSD ganhe eleições. Claro que preferiam ter 15% e ver o PSD com 30%. Mas isso é natural e nada tem a ver com um "síndrome sportinguista".
 
Esta parece-me aliás uma boa expressão. Não por se adequar (a qualquer dos contextos), mas porque o recurso à mesma é sintomático uma outra condição. Tiago, acho que estás a desenvolver uma "benficofilose".

A "benficofilose" aparece com frequência nos seguidores de um grupo maioritário. O primeiro sintoma é uma pulsão hegemónica que se traduz na vontade de secar todo o espaço em redor. Quando esta pulsão encontra uma uma predisposição para acreditar num "direito de nascimento" ao domínio, evolui para uma incapacidade de entender a mera existência de grupos com objectivos concorrentes. A partir daqui, o paciente começa a acusar de sectarismo quem, jogando o mesmo jogo, apenas quer fazer pela vida, em vez de centrar atenções nas ideias e práticas que realmente interessa combater. O resultado típico é conhecido: quando os resultados não correspondem às expectativas, fala-se mal do vizinho que não nos deixou ganhar. Alguns pacientes mais críticos resmungam que o vizinho "se vendeu" e que "fez o jogo dos outros".

Há muita "benficofilose" no PSD. Como acho que dificilmente o PSD poderá sozinho conseguir uma maioria absoluta daqui a 4 anos, gostava que entrassem já em tratamento.     
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De Maria Antónia a 06.06.2011 às 09:39

Acho o seu post de uma tremenda má fé. Acho que a falta de regozijo com que os resultados foram recebidos deve-se mais a um profundo bom senso e noção do que vem aí do que a outra coisa qualquer.
O sucesso foi reconhecido e, embora eu tenha votado PSD, quanto a mim, também merecido.
Nem sequer se esqueceu de lembrar os jovens que pela primeira vez votaram e escolheram como primeiro voto da vida deles o voto CDS. Tenho um lá em casa que fez precisamente isso.
Não percebo onde está a falha.


 
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De J. a 06.06.2011 às 10:24

Excelente análise. Eu fui um desses novos eleitores do CDS. Creio que Portas está consciente desse facto (tanto que o referiu no seu discurso ontem): de que não sendo militantes, dificilmente votaremos no CDS outra vez se o partido se desviar um milímetro no programa que levou a sufrágio.
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De Lourenço Cordeiro a 06.06.2011 às 11:07

O CDS não se dá bem com sondagens, definitivamente. Quanto à substância, acho que Portas perdeu muitos votos quando decidiu canditar-se ao cargo de primeiro-ministro de boné.
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De Maria Antónia a 06.06.2011 às 17:07

Quanto a mim acho que perdeu votos quando, a uma pergunta concreta sobre futuras possíveis coligações com PS não respondeu, claro, preto no branco, em alto e bom som que coligações com o PS nem morto. Aquela marmelada de "sou coerente" "disse-lhe «demita-se»" etc. não produziram bem o mesmo efeito.

 
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De mario marinho a 07.06.2011 às 03:58

Esta análise parece um scanner de aeroporto: eu sou este eleitor de que fala.

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