
Ao apresentar as prioridades da Presidência Portuguesa, José Sócrates deixou hoje claro no Parlamento Europeu que pretende andar depressa na transformação do mandato que recebeu num tratado. Sócrates quer "aproveitar o momentum". E ter um acordo durante o Conselho Europeu informal de 18 e 19 de Outubro, em Lisboa. O mais rapidamente possível.
Alegadamente, "a Europa está à espera" e o mundo também. Com excepção dos políticos europeus ninguém parece acreditar muito nisso. Nem importar-se. Mas pronto.
Sócrates declarou nunca ter defendido "que a democracia participativa possa ser usada contra a democracia representativa". Ninguém insinuou que alguma vez o tenha feito.
A explicação para esta resposta sem pergunta parece ser que o mesmo partido que escreveu isto no seu Programa de Governo:
"No curto prazo, a prioridade do novo Governo será a de assegurar a ratificação do Tratado Constitucional. O PS entende que é necessário reforçar a legitimação democrática do processo de construção europeia, pelo que defende que a aprovação e ratificação do Tratado deva ser precedida de referendo popular, amplamente informado e participado, na sequência de uma revisão constitucional que permita formular aos portugueses uma questão clara, precisa e inequívoca"
se prepara para considerar que, afinal, bem vistas as coisas, tudo somado, já não é bem assim. Não vá uma democracia atentar contra a outra. O que é desagradável.
No mesmo dia, no Público, Teresa de Sousa explica à mole de ignorantes que querem um referendo - entre os quais se contam perigosos eurocépticos como Ernâni Lopes e Medeiros Ferreira - que esta forma de ratificação dos tratados é "um salto irreflectido, facilitista e, sobretudo, politicamente irresponsável".
Curiosamente, a aprovação por via parlamentar do que foi rejeitado por via referendária parece não incutir em Teresa de Sousa igual grau de indignação. É só reflexão, rigor e responsabilidade. Pois.
Sócrates e Teresa de Sousa querem caminhar depressa. Galgar etapas. Dispensam debates nacionais sobre o projecto europeu e as maçadas das opiniões dos povos. Já se viu que os povos se enganam muito. Há que ficar bem na fotografia. E impedir que aborrecimentos como o Não francês e holandês voltem a ocorrer. O que é preciso é dar impulso ao sentido único do monocarril.
Para isso, há que educar-nos. Que guiar-nos. E depressa. Sem mais perguntas. Rumo à sociedade edílica por que o mundo todo anseia. Mesmo que não dê por isso. Uma sociedade assente num único caminho, num único modelo. Que não admite alternativas, nem limites, sob pena de heresia.
Tanta pressa só pode causar novo tropeço.