O André Abrantes Amaral responde ao post do Rui Albuquerque que linkei algures lá em baixo, dizendo que "há conservadores e conservadores" e que "[o] conservadorismo anglo-saxónico, apostou nas pessoas, acreditou que cada ser humano tem algo de muito específico para dar. Que cada um é um mundo a ser descoberto e que a ninguém deve ser imposto um ponto de vista. Estes conservadores não têm saudades do passado, mas também não anseiam pelo futuro. Vivem o presente, porque é esse o único tempo que existe".
Tenho dois comentários:
Primeiro, o post do André é um recorrente "déja-vu" da blogosfera política "de direita" portuguesa, muito por culpa do próprio André mas, essencialmente, do Carlos Abreu Amorim. Basicamente, em Portugal, só existe um liberal, verdadeiramente testado e certificado na sua pureza: o André ou o Carlos - consoante, claro, qual deles esteja a escrever. Fazem lembrar o "Daffyd, The Only Gay in the Village", a brilhante personagem da série "Little Britain". Pode-lhes uma qualquer turba invadir a casa, citando de cor o Hayek e arrastando pelos pés o Ministro das Finanças, que eles ainda assim apregoarão serem o único liberal da aldeia.
Quanto ao resto, é curioso que a tese do André não vingue com o argumento com que a resolveu ilustrar. Há seguramente conservadorismos e conservadorismos. Mas também é verdade que há conservadorismos ingleses e conservadorismos ingleses. O conservadorismo "friedmaniano" e "hayekiano" de Thatcher (com desculpas pelo eventual insulto ao Prof. Friedrich) não é, sequer, de longe, a principal ou maioritária corrente do conservadorismo inglês. Em larga medida, o Thatcherismo foi um parêntesis na tradição conservadora dos Tories. Eu, pelas razões impecavelmente resumidas pelo Rui Albuquerque, acho que não existe grande divergência entre o conservadorismo tradicional que é a chave da minha "disposição" intelectual, cioso do individualismo, da privacidade e da ordem espontânea, e o liberalismo do André. O Enoch Powell explica. Acho até que, em Portugal, com os problemas que hoje o país enfrenta, o conservadorismo só faz sentido com essa inclinação liberal. Mas isso não impede que a tradição conservadora inglesa seja, essencialmente (mesmo agora com Cameron), uma tradição aristocrática - a qual, se é pelas instituições tácitas e pelo indivíduo, é também assistencialista e nostálgica. Scruton e Kekes explicam.