Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




31 à escuta

por Rodrigo Moita de Deus, em 12.09.07

Expliquem-me, vocês aficionados, qual a diferença de levar com um ferro na pata e levar com um ferro no lombo (no blog do granel)

Autoria e outros dados (tags, etc)


comentários

Sem imagem de perfil

De António de Almeida a 12.09.2007 às 23:19

-A lide foi assim tão má? Há umas semanas foi em Alcochete, vi o filho do João Salgueiro levar um cavalo para lá dos limites só para ter direito a um ferro extra, saiu tão assobiado pela praça que nem ficou nas trincheiras.
Sem imagem de perfil

De GRaNel a 13.09.2007 às 16:23

Não há direito Rodrigo. Com este post conseguiu dar cabo da minha média de visitantes... não sei se terei chá e scones para todos... lol
Sem imagem de perfil

De Deus (o outro) a 13.09.2007 às 16:27

Caro Granel,

Não havendo scones e chá distribua minis que também serve. Entretanto...quando lhe explicarem a diferença, diga qualquer coisa.
Imagem de perfil

De João Vacas a 13.09.2007 às 18:48

1.
Caro Granel,
Chá e scones para mim, se faz favor.
A primeira das suas dúvidas é anterior à sua pergunta, apesar de estar contida nela de forma subliminar. O Granel confunde homens e animais e não estabelece diferenças entre eles. Só essa antropomorfização do animal lhe permite perguntar "Expliquem-me, vocês aficionados, qual a diferença de levar com um ferro na pata e levar com um ferro no lombo.". Seria o mesmo que perguntar, com referência à pesca desportiva, "expliquem-me vocês, pescadores, a diferença de levar com um ferro nos pulmões/guelras e levar com um ferro numa barbatana". Nem uma nem outra fazem sentido mas ambas inquinam o raciocínio posterior.
De facto, para um ser humano é pior levar com um ferro igual ou semelhante a uma bandarilha no "lombo" do que numa perna (já para não falar nas "guelras") e, em qualquer dos casos, é sempre relativamente grave. E é precisamente daí que o Granel parte para fazer a pergunta da maneira que a faz.
Só que, nem um toiro tem a morfologia de um homem nem um ferro daquelas dimensões tem num toiro o efeito que o Granel adivinha ter num ser da sua própria espécie e que procura, consciente ou inconscientemente, transpor para o animal.
Do ponto de vista tauromáquico, a diferença é total. Um toiro bandarilhado de acordo com as regras fixa-se no seu oponente, concentra-se em acometer contra ele, mantém-se apto a ser lidado, investe, move-se e reage com a agressividade e a desenvoltura própria dos da sua espécie. Não cai para o chão, não se contorce de dor, nem pára de andar ou correr, nem de procurar rematar contra o seu oponente.
Se o for de forma incorrecta, nomeadamente num dos membros, essa mobilidade e fixação perdem-se, destruindo a ligação pretendida da lide e provocando danos e sofrimento desnecessário no animal.
Sei que lhe dirão o contrário. Que o pobre animal é sempre farpeado apenas para que sangre e perca forças e que chora e que se imobiliza e que já não reage perante o gáudio sádico e alvar dos toureiros e da populaça sedenta de tortura. Sei que lhe dirão que os forcados até fazem uma coisa fácil porque o toiro já está cansado e febril e sem força nenhuma. Só que é mentira.
Sem entrar em autobiografias posso dizer-lhe que convivi de perto com esses animais durante quase dez anos da minha vida, dentro e fora das praças, e o seu comportamento é exactamente o que descrevi.
Partindo da antropomorfização que subjaz à sua própria pergunta, do que pude ver, ouvir e sentir durante todo esse tempo, diria que uma bandarilha bem colocada tem num toiro o efeito semelhante ao que um murro terá num homem. Aumenta-lhe os níveis de adrenalina, convoca-o para a luta, fixa-o no oponente. E é isso que se pretende com a sua cravagem.
Aquilo que começou por ser um mero treino para a guerra a cavalo, necessariamente brutal, ritualizou-se, estilizou-se e codificou-se constituindo hoje, para muitos em todo o mundo, uma forma de arte.
O tipo de toureio equestre à portuguesa procura que o cavaleiro entenda o comportamento do toiro, reconheça as suas querenças naturais e as aproveite manobrando o cavalo de encontro à sua investida de modo a cravar-lhe ferros do modo mais frontal possível, oferecendo-se ao perigo, e rematando a cravagem com uma ligação em movimento entre homem, cavalo e toiro. Por isso, nem o sítio nem o modo como se bandarilha são irrelevantes.
Pode-se gostar ou não. Eu, por exemplo, não gosto de circo com animais selvagens nem de pesca desportiva. Mas já me entusiasmam a alta escola ou outro tipo de espectáculos equestres que envolvem, necessariamente, sofrimento anterior do cavalo durante o seu adestramento.
Dirá que o sofrimento do toiro é desnecessário, mais cruel e, na maior parte das vezes, mais definitivo. Não sei se o é.
Um toiro vive quatro a cinco anos no campo, num cenário e condições edílicas, e é lidado durante 10 a 20 minutos sendo posteriormente abatido. Mesmo numa perspectiva antropomorfizada isso afigura-se-me preferível ao enjaulamento durante anos, à má alimentação e aos espancamentos.
Imagem de perfil

De João Vacas a 13.09.2007 às 18:49

2.
Responderá que o mal está em que tudo isso aconteça mas, aí, terá que levar o seu raciocínio mais além e estabelecer um claro limite filosófico e jurídico. E o problema, caro Granel, é que haverá sempre alguém insatisfeito Ou por excesso ou por defeito.
Isto é, há aqueles para quem o mero acto de comer carne constitui uma barbaridade e um sinal de descriminação em razão da espécie. Dir-lhe-ão tratar-se da última barreira a cair antes do estabelecimento da sociedade ideal. Depois de chagas como o esclavagismo, o racismo e o sexismo faltar-nos-ia abalar as colunas do templo do especismo "...
E há os outros que acham que o homem pode dispor de qualquer animal como se de uma coisa se tratasse e usá-lo sem mais.
Se reparar, ambas as teorias ou práticas nivelam a relação entre ambos. A primeira porque finge que os homens e os restantes animais são a mesma coisa. E a segunda porque desconsidera de tal forma a existência de outro ser que o coloca na esfera do homem e da sua total e absoluta disponibilidade confundindo-o com ele.
Enquanto a primeira animaliza o homem enquanto tenta humanizar artificialmente o animal, a segundo coisifica o animal e apaga-o da equação. De um lado temos os que proclamam os direitos dos animais e do outro os que reconhecem apenas os seus direitos sobre os animais.
Encontrará algures no meio do extremismo quem reconheça que, apesar de os animais não serem dotados de personalidade jurídica, o homem não tem só a possibilidade de tirar partido deles - da sua carne, da sua força, da sua bravura - para seu proveito - seja ele alimentar, cultural, estético ou de outra ordem - mas tem também deveres para com eles de acordo com as características próprias. Por isso, não se exige a um ser humano que haja da mesma forma com um crocodilo, um cão de companhia ou um toiro.
Acabo com uns excertos de Miguel Torga:

"As sociedades protectoras de animais quadrúpedes e bípedes têm-se esforçado por negar à vida a legítima afirmação das suas leis profundas. O instinto, porém, protesta ainda. (...) Ora, é no Ribatejo o sítio do mundo onde esse embate é mais belo e natural. A luta, ali, não é para servir nenhum senhor, ou distrair a atenção inquietante das massas. É um lúdico acto de coragem, alegre e soalheiro. (...) O toureio português, ribatejano, é a prova de que nem tudo no homem é cobardia de açougue, mistificação vegetariana.".

Imagem de perfil

De João Vacas a 13.09.2007 às 19:07

Correcção

Onde se lê "haja" leia-se "aja"
Sem imagem de perfil

De GRaNel a 13.09.2007 às 21:27

Compreendo a sua ligação à tourada e ao touro. Compreendo que ache a tourada uma arte. Compreendo que milhares de aficionados se desloquem às praças de todo o país para ver tal espectáculo. Compreendo até que a Tourada seja em Portugal uma tradição. Bárbara e completamente a despropósito nos dias de hoje como o João referiu. Por compreender todos estes factos é que sou, apenas, moderamente contra. Nunca ninguém me viu ou verá numa manifestação anti-tourada mas sou livre de manifestar a minha opinião. O que fiz, foi pegar num texto do Rodrigo e jogar com as palavras. Julgo que leu as minhas palavras com demasiada seriedade.

Respondendo ao seu segundo comentário, e isto no meu entender pessoal (o pleonasmo é só mesmo para vincar), o limite está na humilhação do animal, coisa que não acontece na caça ou na pesca desportiva (não pratico nem simpatizo com nenhuma delas).

Agradeço sinceramente, os seus dois comentários, que li com atenção, e que sinceramente me esclareceram. Acredite que foi a primeira pessoa que simpatiza com a Tourada que o fez…
Imagem de perfil

De João Vacas a 13.09.2007 às 22:35

Caro Granel,
O comentário era apenas um mas tive que o fatiar " por falta de espaço.
Desculpe se reagi com demasiada seriedade mas não gosto de perder por falta de comparência em temas que me são particularmente queridos.
Acrescento apenas que não considero a tauromaquia bárbara, antes telúrica, e que em poucas actividades/desportos/espectáculos que envolvem animais estes são tratados com igual respeito e lembrados com semelhante admiração.
Mas isso são contas de outro rosário e eu não pretendo arrastar este assunto.
Fico contente por ter podido ajudar. Não pretendia mais do que isso.
Sem imagem de perfil

De quibala@sapo.pt a 18.09.2007 às 01:49

levar com um ferro na pata, pode ser uma ferradura.
levar com um ferro no lombo,pode ser a marca do ganadero.
A diferença pode consistir em ser boi ou cavalo.
não se sabe onde termina a diferenca e começa a igualdade.
luis gomes . santarém.
Sem imagem de perfil

De quibala@sapo.pt a 18.09.2007 às 02:30

Se bem entendi agora porque sou de compeenção lenta, a diferença consiste na lide.Para ser bem conseguida, tem que ser séria e, respeitar não só todos quantos estão a assistir á mesma, mas o toiro em especial. Ora um ferro numa pata, falando a grosso modo, é um ferro fora do seu devido sitio e cravado a qualquer preço para não aficcionado ver.
um bom ferro tem que ser espetado na cruz do morrilho ou lá perto, com o toiro de baixo do braço e de preferência ao estribo, saindo pelo piton da ordem, o que infelizmente já se vê pouco," talvez por culpa de quem comenta". cilhas passadas e ás vezes até garupa, tudo serve para tirar verdade ao toureio e, fazer vir á memória de todos os aficcionados que tivaram o pervilegio de verem toureio de de fino corte e pura arte que os grandes Mestres de então tão bem sabiam excutar,(salvo raras escepções).
luis gomes, santarém.

Comentar post