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“If Putin likes Donald Trump, I consider that an asset, not a liability.”

 

Ter um Presidente a falar dele próprio na terceira pessoa é mais uma novidade. Mas esta frase revela muito do que a presidência Trump pode representar para os Estados Unidos e para o Mundo. Se Trump acredita que Putin gosta mesmo dele e que por isso vai deixar de defender os interesses da Rússia (e tantas vezes antagónicos dos Estados Unidos e dos seus aliados), é um perigoso ingénuo. Se diz estas coisas sem pensar nelas apenas para enganar as pessoas, então é um perigoso pateta alegre. 

Não sou daqueles que considera que Obama teve um mandato excepcional. Bem pelo contrário, penso que na frente externa, e isso é o que mais relevo, Obama fracassou e deixou um mundo é bem mais perigoso daquele que encontrou em 2008. O “Lead from behind” foi um fiasco na Líbia e no Médio Oriente e o “reset button” com a Rússia permitiu a Putin fazer o que bem entendeu na Ucrânia e na Síria. Mas Obama não criou nenhuma disrupção na política externa americana das últimas décadas e desempenhou um papel importante para os seus aliados. Manteve a democracia americana como um exemplo e promoveu os valores da liberdade e da democracia. Mas Trump ameaça este legado. A conferência de imprensa dele de ontem deixou sérios avisos (como em toda a campanha) que a democracia americana vai ter lutar muito para manter a sua vitalidade.

Nesta sua primeira conferência de imprensa depois de ter sido eleito, e após semanas a criticar os serviços de inteligência (não me recordo de ver um presidente criticar e enfraquecer desta forma os serviços de espionagem) sobre os hackers russos, Trump hoje lá admitiu que provavelmente tinham sido os russos. Mas é inacreditável que ele próprio, que já tinha tido acesso às provas que a CIA lhe tinha mostrado, mesmo assim tenha continuado a negar esta evidência. Até hoje. Poderá cumprir eficazmente a sua função de Presidente quando não confia nos serviços de inteligência e que estes próprios desconfiam do Presidente? Será que Trump vai confiar nas informações dos “nazis” da CIA?

Trump continuou nesta conferência de imprensa a alimentar a fábula que o México vai pagar a construção muro da fronteira, mas que não vai esperar que eles o assumam, e que apenas irão reembolsar os Estados Unidos à posterior. Devia ouvir ou ler o que diz o antigo Presidente mexicano Vicent Fox sobre esta matéria. Aprenderia alguma coisa.

Como candidato a déspota, atacou a CNN e ameaçou colocar um jornalista fora da sala. Para perceber esta polémica, a CNN publicou uma noticia sobre relatórios dos serviços de inteligência sobre a sua relação com a Rússia de Putin, mas ao contrário do site Buzzfeed, a CNN não publicou informações não confirmadas. Mas se Trump não responde a meios de comunicação social que publicam noticias desagradáveis, provavelmente acabará o mandato a falar apenas para a Fox News, Drudge e Breitbart. Muito mau sinal para a liberdade de imprensa.

Destaque também para a política económica de Trump, que parece ser uma espécie de mistura entre populismo e socialismo económico e que devia envergonhar o Partido Republicano. A imposição de taxas aduaneiras às empresas que produzem fora dos Estados Unidos, aliada ao proteccionismo económico e oposição aos acordos de comércio livre, como a NAFTA e o TPP (que por acaso hoje teve um defensor em Rex Tillerson), permite-nos esperar uma política económica perigosa para os Estados Unidos, mas também para o Mundo. A frase “vou ser o maior criador de empregos que Deus alguma vez criou” poderia ter sido dito por um qualquer líder soviético, mas não, foi Donald Trump, líder do Partido Republicano de Reagan, que defendia que são “as pessoas e não o governo produz crescimento económico e emprego”.

Trump é algo de novo na política norte-americana. Tem-no sido desde o anúncio da sua candidatura presidencial, que tantos ignoraram e desvalorizaram (eu fui um deles). Tem baixado o nível do debate político e poderá ser um perigo para a democracia americana. Nos próximos quatro anos veremos se surprende pela positiva ou corresponde às baixas expectativas.

 

PS: a nove dias da tomada de posse de Trump, começo uma série de textos sobre a sua presidência.

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