Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Caríssimo José Guedes,

 

Mão pouco piedosa atirou-me a brava missiva. Verdade que, nestas semanas, outras me foram sendo arremessadas. Mas esta é especial. Seja pela hiperbolização vocabular, seja pelo hélas, nota-se que a prosa é esforçada. E como social-marialva e perigoso liberal, que sou, acredito que nenhum esforço deve ficar sem recompensa.

Vai daí impelido à alvura do ecrã. E com outro animo visto que a resposta do meu amigo cuida do tema preferido dos professores quando tratam de ensino: os professores. Os professores, a vida difícil dos professores e, eventualmente, as responsabilidades de D. Maria na degradação da escola pública.

Ah! A D. Maria. Que saudades eu tinha da D. Maria. E da primeira república. E do Estado Novo. Que saudades da pesada herança! D. Maria, mesmo morta, não pode, nem deve passar sem responder pelo estado da educação aos dias de hoje. Como Garcia da Orta tem de responder pela introdução dos genéricos no serviço nacional de saúde. Há nesta coisa da pesada herança uma espécie de justiça póstuma que não pode, nem deve ser descurada sob o risco de passarmos todos por especialistas em generalidades. Para quê exigir respostas aos vivos quando temos sempre os finados para chatear? Verdade.

É defeito meu. Admito. Tenho alguns e este é só mais um. Mesmo crente na comunhão bem-aventurada com Deus e com todos os que estão em Cristo, continuo sem perceber a invocação dos nossos entes queridos em sessões espíritas, debates políticos e interpelações públicas. Não vá o diabo tecê-las e os mortos responderem mesmo.

Acresce que a pesada herança serve perfeitamente para a nossa luso-serenidade. A derrota do Benfica na final com o Chelsea é responsabilidade do Bella Guteman, a falta de industrialização do país é responsabilidade do Marquês de Pombal e a instabilidade social e política do Brasil é culpa da colonização portuguesa. A pesada herança, serve. Mas é péssimo modelo, por exemplo, para as gentes de Singapura. Nascidas e criadas num pântano sem perceber que existem sempre circunstâncias históricas mitigantes que dispensam e subsituem a necessidade de resultados. E não são eles que estão à frente do dito ranking PISA? Não lhes vamos querer estragar isso, pois não? Mas admito que possa estar errado. 

E pronto. Esta foi a primeira e última referência ao dito PISA. Por respeito. Respeito aos professores. E pudor. Só por miserável coincidência a melhoria relativa dos resultados da escola pública portuguesa coincide com o tempo do verdugo estrangeiro (vulgo troika) e do congelamento das carreiras. Caramba, meu amigo! É preciso ter um misto de azar e falta jeito para escolher argumentos. Mas pronto.

Deixemo-nos de verónicas e regressemos. Diretos ao assunto. Como tentei explicar, nem precisamos de especialistas em eduquês para a coisa: algum progenitor deixa os seus filhos na escola pública quando pode pagar uma escola privada? E algum professor escolherá uma carreira na escola pública quando lhe é oferecida a mesma alternativa no privado? E isto é verdade no ensino superior? E isto é verdade no serviço nacional de saúde?

Como diria o outro: Hélas. Não é a sua resposta, mas estas perguntas que encerram o debate. Estas simples perguntas.

Podemos depois partir para as derivadas. E falar sobre responsabilidade dos governos, dos ministros, dos telemóveis nas salas de aula, das salas de aula antigas que agora eram novas, da educação que os pais dão aos filhos e da pobre carreira docente. Leio e oiço as variáveis. Mais de trinta ministros depois de abril. E nenhum deles sabia o que fazia? Milhões e milhões de euros em investimentos. E nenhum deles servia? E centenas de protestos e contestações dos professores. Para falar sobre professores. E discutir os professores. E debater os professores. Pelo meio ficam os alunos reduzidos ao estatuto de figurantes e a escola feita cenografia.

E a vanguarda segue. De feito em feito. Dando o insólito como sólito. Quanto mais o numero de alunos diminui, mais o numero de professores aumenta. Quanto mais o país investe na escola pública, pior ela fica. E ainda assim os professores celebram a dedicação e o serviço à causa pública deixando milhares de alunos à porta das salas de aula. Talvez tenha razão. Não percebo mesmo nada disto. Só um especialista conseguiria explicar estes dados.

Uma última palavra sobre as muitas considerações pessoais que não resistiu deixar-me. Considerações que alguns considerariam exageradas. Eu? Pelo contrário. Lisonjeado. Mas sem querer partir o coração a ninguém informo que já sou comprometido. 

 

Um abraço ao camarada Mário,

RMD

 

PS: da próxima explico a parte dos adjetivos.

Autoria e outros dados (tags, etc)


comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.12.2017 às 16:25

Só umas notículas ao texto de V. Exa.
Em vez de "pesada herança",substancialmente mais leve desde a "redentora madrugada" nos cofres do B. de Portugal,vexa quereria referir-se à "longa noite".
Que Dona Maria deve responder,diante do "tribunal da história",pelas trevas medievais ainda vigentes na educação? A nr. 1,a segunda,a Dona Rodrigues,
todas as marias em trânsito pelo ministério ?
Também vexa alijou as consoantes mudas?
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.12.2017 às 19:37

Como dizia o camponés:
Deus conserve Vossa Majestade
???
O seu avô era mau
O seu pai era pior
Deus conserve Vossa Majestade
...
transferindo

O teodoro era mau
a Noz Podre é pior
O mafarrico o conserve
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 06.12.2017 às 23:20

Evidentemente, caro Rodrigo, vai ser insultado por professores. Eu fui, por causa dum post seu, por alguém que me confundiu consigo na pressa de atacar.
Você tem carradas de razão. Os professores cuidam da sua confraria, e nem por isso muito bem. Os alunos e os pais não interessam, não são parte dessa elite iluminada, e não têm nada que opinar.
Como se os professores se coibissem de opinar do que não sabem - a começar pelo que é a Escola, para que serve, e a quem devia servir.
Os professores querem sempre o apoio dos pais, porque os meninos fazem muito barulho e a Educação começa em casa. E é verdade. Os professores ensinam história e matemática e geografia e muitas coisas que serão úteis aos miúdos - ou não. Os pais só têm que ensinar o que é o respeito e o civismo, a diferença entre o certo e o errado, o inspirado e o demagogo, e toda a zona pantanosa entre o bem e o mal. E mais o resto. Facílimo, não é?
Mas mesmo que consigamos fazer isso, roubando tempo ao nosso tempo, não podemos opinar sobre Educação. Porque Educação são aquelas mochilas de vinte quilos e aqueles livros e mais as lagartas na sopa fria. Educação é o ordenado e a progressão automática na carreira - estendendo-se o conceito aos alunos, que também vão “progredindo” só por passear os livros.
A escola é, dizem, um espaço de integração. Só ainda não vi uma greve de professores por causa dos sacrifícios exigidos aos pais e aos alunos que querem mesmo aprender. Ou por causa das cantinas. Seria um bom começo.
Sem imagem de perfil

De paulo ferreira a 07.12.2017 às 16:22

Nenhum professor troca a escola publica pela privada, ninguém quer trabalhar mais e receber o mesmo ou menos.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 07.12.2017 às 16:36

ó paulo, tu trocarias de trabalho para receberes menos?

Comentar post