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O som da televisão aos domingos

por Alexandre Borges, em 17.04.17

De vez em quando, acontece uma pequena coisa que nos lembra quem somos.

Um tipo nasce um calhau, depois vai sendo esculpido e depois levam-no a passear, põem-no em exposição, tiram-lhe fotografias, penduram-lhe coisas ao pescoço, dão-lhe o suposto mundo, e, às tantas, uma pessoa já não sabe se é a pedra original, a estátua – por mais bruta ou primária – nela esculpida, ou tudo quanto lhe puseram em cima. É a diferença entre o excesso que se tirou e o supérfluo acrescentado.

Às vezes, esquecemo-nos, mas o que somos é o que está ali no meio.

Como tivemos a sorte de viver até ver o dia de hoje – e, tudo correndo bem, também o de amanhã – foi-nos pedido em contrapartida que tivéssemos bastante mais elasticidade do que aqueles que nos precederam. Viajaríamos mais, veríamos mais, leríamos mais, ouviríamos mais, provaríamos mais, conheceríamos mais – também tínhamos de compreender mais.

E assim me tornei um liberal. Acima de tudo, liberdade para todos. Liberdade para se ser quem se é, para se viver com quem se quiser viver, para viver do que se quiser até quando se quiser, e onde se quiser, com os líderes políticos que se escolheu, rezando ao deus que se ouviu ou julgou ouvir, assumindo a responsabilidade, sem outro poder qualquer sempre a intrometer-se no caminho entre um homem ou uma mulher e as suas escolhas.

Até que se me deu uma espécie de epifania.

Ao contrário do que talvez se esperasse, era auditiva, não visual, mas sucedeu num domingo, como convém. Estava este vosso escriba em casa, dividido entre a preguiça dominical, a metafísica dos afazeres da loiça e da roupa e um trabalho intelectual qualquer à espera de conclusão no computador aberto… quando ressoou pela casa, sereno e claro, o som da televisão ao domingo.

O som da televisão ao domingo emitindo para ninguém. Falando para o boneco na sala ou na cozinha. Dando filmes propositadamente escritos, financiados, interpretados e produzidos para serem emitidos ao domingo e, portanto, não serem vistos por ninguém. Ou por ninguém que esteja acordado. Ou ao menos sentado, olhando para eles. Televisão propositadamente feita para o tédio, a inutilidade, o sentimento de absurdo, o nada.

E, de repente, veio aquele conforto das velhas certezas. Do calor do sol do regresso a casa tocando-nos no rosto: sim, o que nós realmente somos é uns conservadorões sem remédio.

Debaixo dos adornos, a estátua, ou calhau polido, revelava-se: sim, ó cafés chiques que saem nas revistas, rooftops trendy no topo das pesquisas. Sim, ó turistas de toda a parte, gente de todas tribos trocando mimos entre todos os sexos, em todas as línguas. Bem-vindas ciclovias e piqueniques electrónicos, brunches para os retardados e delícias em versão fast food gourmet. Vinde, ó entretenimento portátil empacotado no smartphone, manias do running e inaugurações múltiplas. Vinde, que há lugar para todos, ó empreendedores, ó iniciativa privada, ó venture capitalists, ó startups, ó founders – a vida é vossa, mesmo que eu tema pelo dia em que se passe directamente de CEO a sem-abrigo.

Bem-vindos todos, sem amargor nem ironia, mas há mesmo dias em que só apetece fugir de tudo e arrastar-se, no roupão mais coçado, pela casa, ao som da televisão de domingo. Fugir para o café mais banal, uma das 25 pastelarias de fabrico próprio todas iguais acerca das quais a Time Out nunca fará um artigo. Esconder-se no café mais banal do mundo, sem gente nem mundo nem nada particularmente que o recomende, só uma máquina de café e uma daquelas instalações artísticas feitas com garrafas de whisky e Porto e latas de iced tea na montra. Fugir para umas ruelas quaisquer, onde ainda se consiga ouvir o sino de uma igreja badalando ao domingo, não porque sequer se vá entrar na igreja, mas apenas para nos dizer que algumas coisas continuam lá, exactamente iguais ao que sempre foram, indiferentes à febre da estação. Fugir para um livro e um chá banal de infusão, para o que se é, mesmo que se esteja nos subúrbios do assunto, ou da moda, ou do nosso tempo. E não ter vergonha de o dizer segunda-feira. E bater palmas aos outros que não foram à inauguração e não estiveram no evento e não viram e não provaram. A Expo 98 acabou em 98 – já não precisamos todos de andar a recolher carimbos no passaporte para provar que se esteve e se viveu. Mesmo sabendo que o mundo agora já é da gente para quem esta referência não tem absolutamente sentido algum.

Respiro fundo e sorrio, reencontrado. Passam agora os créditos finais do filme que nunca vi e me parece ter salvo a vida. Encerrada a aparição, porém, um instante de sobressalto: como resolver aquela aparente esquizofrenia? Como conciliar o liberalismo adquirido com o conservadorismo inato? Um momento volvido, porém, o suspiro de alívio… Havia uma resposta.

Sou um liberal. Um liberal a toda a prova. Acredito que, no mundo, há lugar para todos os povos, todas as religiões, todas as gerações, todas as opções sexuais, para toda a gente. Até para nós, empedernidos, teimosos, intratáveis, irredutíveis conservadores.

 

Crónica publicada hoje no "Delito de Opinião" (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt), a convite do Pedro Correia

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comentários

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De Alexandre Borges a 18.04.2017 às 17:42

Obrigado, Isa :) Bjs

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