Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Perca algum tempo com isto. Vai achar graça. Ou não.

por Rodrigo Moita de Deus, em 19.08.17

Força Aérea cria plano para rentabilizar aeroporto de Figo Maduro. Após anos sem gastar um tostão na manutenção das suas instalações no aeroporto de Lisboa, a Força Aérea investiu milhares de euros nos últimos dois anos para as recuperar e tornar apresentáveis. Agora aposta em rentabilizar o espaço e, por essa via, obter receitas adicionais.

 

Leia bem. Mesmo. Faça esse esforço. E depois leia outra vez. Parece uma boa ideia, não é? Agora leia outra vez. Vamos começar pelo princí­pio: "após anos sem gastar um tostão na manutenção das suas instalações no aeroporto de Lisboa (...)". Porquê? Cortes orçamentais? Nem por isso. Porque desde 2005 que se fala no encerramento de Figo Maduro. Aliás Figo Maduro não tem qualquer interesse para a defesa estratégica do espaço aéreo nacional. É meramente protocolar. Mas calma. Vamos continuar: "a Força Aérea investiu milhares de euros nos últimos dois anos para as recuperar e tornar apresentáveis". Então? Aquilo não ia fechar? Passou a ter interesse estratégico? Nem por isso. Dois anos. O que aconteceu em dois anos? O que mudou? Mudou a criação de um aeroporto complementar no Montijo. Mudou o acordo do anterior governo para que a força aérea deixasse finalmente Figo Maduro e permitisse a expansão da Portela. Mudou, sobretudo, a ANA que passou do Estado para as mãos de uns privados. Vai daí­ estão a pedir 370 milhões de euros (!) pelo Montijo. E sabe Deus quanto por Figo Maduro. E enquanto ninguém passa o cheque fazemos o que um português sabe fazer melhor: chatear. Vai daí­ temos a força aérea a alugar estacionamentos e a fazer concorrência à ANA. E a renegociar os protocolos operacionais para "rentabilizar o espaço e, por essa via, obter receitas adicionais". Mais ou menos uma proposta siciliana, mas com "senhores" vestidos de uniforme. 

 

Em tese isto não faz mal a ninguém. A "nossa" força aérea quer parasitar uns estrangeiro ricos? Pronto. É todo um género que não abona em dignidade, mas pode pagar as contas. Mas o problema não é só esse. Com a portela no limite das suas capacidades estamos a discutir muitas centenas de milhões de euros para distribuir por muitas centenas de milhares de portugueses que, diretamente ou indiretamente, dependem do turismo. O interesse estratégico do país não passa por manter Figo Maduro ou o Montijo, mas garantir que há mais duas ou três dezenas de aviões cheios a aterrar por dia em Lisboa. Interesse estratégico do país, repito. Infelizmente temos generais feitos mercadores de bazar a negociar o que não lhes pertence. É que a força aérea é que pertence ao paí­s não é certamente o país que pertence à força aérea. Da mesma forma é a força aérea que faz sacrifícios pelo país e nunca o contrário.  Se calhar estou a ver mal a coisa. Provavelmente estou, até porque sou de direita. 

 

Mas esta notícia tem qualquer coisa de muito bom. A força aérea aluga uma base aérea para ganhar uns dinheiros. Portanto a força aérea não tem qualquer necessidade daquela base aérea e alguém devia fazer o sacrifí­cio de assumir tamanho encargo e consumo de recursos. E assim seria não tivessemos um poder político tão sensível às longas palestras com que os militares normalmente nos brindam sobre o "planeamento estratégico". Como se os hackers de Moscovo, das guerras do amanhã, alguma vez tivessem lido Clausewitz.

 

O que me leva ao último ponto desta longa posta. Em redor de lisboa temos a base aérea de figo maduro, a base aérea de Sintra, a base aérea de alverca, a base área da Ota e a base área do montijo. Assim de repente cinco, caso não me falte mais alguma. Tudo com espaço aéreo reservado e a estrangular a aviação civil em Lisboa, não vá ser necessário, assim de repente, defender o território em geral e Lisboa em particular de um bombardeamento. E digo "estrangular" mesmo. Ou acha que o seu avião da TAP vai sempre à Costa da Caparica porque os comandantes gostam de ver se as ondas estão boas para o surf? Ironicamente, mas muito apropriadamente, os aviões que defendem o território em geral e lisboa em particular nem sequer estão numa destas cinco bases aéreas. Estão em Leiria. Ou seja, ter estas bases aéreas em redor de Lisboa é como ter a brigada mecanizada estacionada à saída do túnel do marquês em hora de ponta. É evidente que os senhores de farda já perceberam isso. Pelo menos quero acreditar nisso. Portanto é só uma questão de dinheiro. Os generais também querem ganhar dinheiro com os turistas. Com um esquema um pouco mais sofisiticado que o made in correeiros. Mas o princípio é o mesmo. O que me irrita ainda mais. É que estamos a falar de militares. Generais. De quem se podia esperar assim que um pouco de grandeza. Gente nascida, criada, formada e paga para dar a sua vida pela dita "pátria". Para colocar os interesses da dita "pátria" acima de quaisquer outros. Generais. Uma base área que não serve para nada. Agora imaginem o resto. 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


comentários

Sem imagem de perfil

De José Domingos a 20.08.2017 às 09:15

O hábito não faz o monge, e a farda também não, a grande maioria do pessoal amarelado é estrelado das casernas, não faz grande diferença dos negociantes ali para os lados de São Bento. Saiu a uns tempos um livro de António José Vilela, segredos e corrupção, que dá uma ideia muito pálida de como as coisas funcionam. O livro ainda deve andar por aí, se entretanto não foi censurado, como o de Rui Mateus.

Comentar post