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nacionalizações, já

por Pedro Marques Lopes, em 26.12.07

Que moral terão os accionistas de “referência” do BCP para criticar o Estado daqui para a frente? Que favores o Estado ainda fará a estes senhores? Que compromissos esta gente assumiu perante o salvador Estado? Que moral vai ter o Estado quando os trabalhadores de uma qualquer fábrica de Forno de Algodres vier pedir a intervenção do Estado para evitar o fecho dessa unidade?

O salazarismo económico está de boa saúde e recomenda-se. A maioria dos grupos económicos prospera à sombra do Estado e depende deste. A rapaziada sai destes grupos para fazer a sua comissão de serviço no Estado e regressa às empresas como se fosse a coisa mais normal do mundo: em Janeiro negoceia-se em nome do Estado uma qualquer concessão e em Fevereiro regressa-se à empresa. Existem, com certeza, contratos entre o Estado e empresas privadas que só por vergonha não têm a mesma assinatura nos dois lados do documento. Promiscuidade já não é a palavra indicada: indecência é a palavra certa.

São os líderes destes “grupos” (há um termo mais apropriado mas esse só se aplica ao futebol, principalmente se o campo for a norte do Douro) que fazem lindos discursos sobre a interferência do Estado na Economia, a necessidade da “libertação” da sociedade civil, organizam conferências e escrevem documentos sobre este papão quando, no fundo, não querem deixar de viver à custa e sobre a alçada de quem tão, aparentemente, criticam.  

A semelhança com o Estado Novo é tão óbvia que não carece de explicação. A única diferença é que havia, nesse tempo, menos hipocrisia: os grupos, pelo menos, não fingiam que não gostavam do Estado.

Por incrível que pareça, nesta vergonha que é a novela mexicana do BCP, a única entidade que sai bem é o Estado apesar de não inteiramente.

Claro está que num país onde grassa a irresponsabilidade ninguém ainda se lembrou de pedir contas ao Banco de Portugal e à CMVM. Também não é de admirar. Quase que podia apostar que a maioria dos membros dirigentes do Banco de Portugal e da CMVM já foram consultores ou directores ou outra coisa qualquer do BCP ou da CGD. Se as irregularidades são tantas, como foi possível terem passado despercebidas durante tanto tempo? Aqui, ou existe incompetência ou dolo. Aguarda-se, sem muita esperança, reacção da tutela.

Aos olhos de todos o cenário é transparente: o bom do Estado teve que intervir numa empresa privada para evitar males maiores aos clientes, trabalhadores, pequenos investidores e – suprema ironia – aos accionistas de referência. Querido Estado que salva toda a gente. Fica também demonstrado que essa coisa que meia dúzia de líricos andam para aí a apregoar acerca do Estado não dever interferir na Economia é uma treta. O que é que a besta que assina este texto queria? Que se deixasse o mercado funcionar levando, eventualmente, trabalhadores para o desemprego e accionistas a perder dinheiro? Que gente tão emérita como os administradores do BCP fossem, por hipótese, condenados por crimes económicos? Nem pensar. Assim ficamos todos bem. O Estado põe as coisas na ordem e fica a mandar para que nada de mau aconteça, os trabalhadores mantêm o seu emprego, os pequenos investidores não perdem muito dinheiro, os accionistas de referência ficam contentes, os antigos administradores vão gerir uma empresa pública qualquer recebendo, claro está, uma choruda indemnização e é como se não se tivesse passado nada.

Viva o Vara, viva o Ferreira, viva o Sócrates, viva o Constâncio, viva o Joe, viva o Jardim, vivam todos e, sobretudo, viva Salazar com quem aprenderam tudo.


 

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De Raider a 27.12.2007 às 00:41

Parece-me caro Pedro, que está a confundir Salazar com Putin.
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De Milharinha a 27.12.2007 às 11:43

E ninguém diz nada?
Apenas o Ulrich do BPI?
E os outros?
Terão o "rabo preso"?
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De David Silva a 29.12.2007 às 23:33

Olhe que os seus companheiros de escrita não concordam nada com isso das nacionalizações!! Ainda é proscrito!

Mas é uma triste realidade esta e nem era preciso este show-off todo para que a população soubesse a triste dependência que essas grandes instituições têm do Estado e como o Estado se socorre (pergunto-me para quê) dos génios das instituições.

Mas tudo isto é como a sinistralidade - já ninguém liga, de tão habituado.

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