por Henrique Burnay, em 29.01.08
O País está incómodo, mas não é nada de novo. Portugal nunca foi lugar de grandes liberdades, de gente empreendedora e entregue a si mesma, nem nunca o poder teve o hábito de se manter à distância. Pelo contrário, somos poucos e vivemos apertados porque gostamos de viver assim ou porque não nos importamos, nunca percebi. O certo é que, tirando quando alguma espécie de direita está no poder e se ouve um burburinho a reclamar contra os "tiques autoritários", por norma ninguém se escandaliza mais do que o normal ao saber que um governo escolhe o presidente do conselho de administração de um banco privado, que nos gabinetes do governo se discute a composição da direcção da redacção de um jornal ou alinhamento do telejornal, quando o Dr. Júdice fica à frente dos destinos da "Deus nos livre de haver especulação imobiliária" zona ribeirinha de Lisboa, quando um processo judicial subitamente desaparece da agenda mediática, as vítimas são reavaliadas e a coisa se arrasta até à eternidade, e por aí fora. O normal, entre nós, é reclamar entre dentes. Como quando nos passam à frente na fila, rosnamos "só neste País", "parece impossível", "é incrível", e ficamos quietos, obedientemente quietos. O País está um lugar desconfortável, mas nunca foi muito melhor. Somos um país que parece estar sempre cansado para se modificar. A diferença é que esta rapaziada está mais atrevida e descarada do que nunca. Só isso.