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Uma rapariga de Amesterdão

A 9 de Março de 1941, quando Esther (Etty) Hillesum começou a escrever, no primeiro dos oito cadernos de papel quadriculado, o texto que viria a ser o seu Diário, estava-se longe de pensar que começava aí uma das aventuras literárias e espirituais mais significativas do século. Ela tinha vinte sete anos de idade e morreria sem ter feito trinta.

Era a mais velha dos três filhos de um casal judeu e urbano, sem especial vinculação religiosa. Durante anos ocupou-a uma licenciatura em Direito que, a bem dizer, lhe era indiferente, atraída mais por estudos literários. Frequentou, esporadicamente, os círculos socialistas e libertários de Amesterdão. Projectava, sem grande empenho, um percurso como escritora… Mas a verdade é que os seus interesses demoravam a encontrar fluidez: «é como se lá bem no fundo houvesse…algo a prender-me». A transformação de Etty Hillesum vai desenvolver-se em três encontros decisivos: o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o nome de um lugar; o terceiro não tem nome: é o encontro com o próprio Inominável.

O projecto de um diário é uma sugestão terapêutica que lhe é feita por Julius Spier.  Spier, que chegou a ser director de um banco, foi o inventor da “psicoquirologia”, uma diagnose psicológica que parte da leitura da morfologia da mão (que ele considera «o segundo rosto»). Tudo somado, representou para Etty Hillesum um  iniciador na vida espiritual (o «obstreta da minha alma», para utilizar palavras dela). É ele quem lhe aconselha a leitura do Antigo e do Novo Testamento, ou de autores como Santo Agostinho e Tomás de Kempis. Um dia, ter-lhe-á dito:«Tenho a impressão de ser um “estado preparatório” para um grande amor teu». 

Entretanto, a Holanda surge cada vez mais na mira expansionista do nazismo. Etty tem o que chama a primeira experiência de descida ao «inferno». Aquela hora extrema do seu povo tinha um significado tal, que ela não podia subtrair-se.  Decide acompanhar os primeiros judeus deportados, como voluntária, no Campo de Concentração de Westerbork, trabalhando na improvisada enfermaria. Um das vantagens do seu estatuto era ainda poder voltar a Amesterdão, mas dá-se o inesperado. No seu quarto «belo e tranquilo», ela sente uma saudade irrecusável de Westerbork. «Apaixonei-me tanto por esse Westerbork... Estes meses entre o arame farpado foram os meus meses mais intensos»… E parte definitivamente. A 30 de No­vem­bro de 1943, a Cruz ver­me­lha co­mu­ni­cou a sua morte, em Auschwitz.

A edição portuguesa do seu Diário sai para a semana.

José Tolentino Mendonça