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convidado especial - Ana Cláudia Vicente

por Rui Castro, em 21.04.08

What happened to Sá da Bandeira?

O Rui Castro teve a simpatia de me desafiar a escrever um post, ao que corresponderei sem qualquer trinta e um.

Pois bem, vamos lá: gostava de falar de uma dúvida que transporto e veio novamente à tona a propósito do post de André Abrantes Amaral intitulado “Podem os católicos ser liberais?”. [Pensei que depois de figuras tão heterogéneas quanto Alexandre Herculano, António Alves Martins, José Maria Casal Ribeiro, Francisco Teixeira de Aguilar e tão variados outros que se lhe seguiram no século XX e aqui não cabem, a possibilidade de se ser crente católico e cidadão portador de convicções liberais estava demonstrada, dentro e fora da esfera governativa. Aparentemente, não.] A dúvida é a seguinte: em muitas situações de debate político, como neste momento em que se tenta compreender e projectar as relações entre Estado, Igreja Católica e Sociedade na contemporaneidade portuguesa, continua a ignorar-se quase totalmente o legado liberal português. Porquê, o que têm ou não têm os nossos founding fathers? Será que o século XIX não conta realmente para séc. XXI? Pode não contar, se optarmos por abordar especulativamente factos e conceitos recentes de diferente proveniência, reflectir, e depois defender um caminho. Mas se a ideia é desenvolver propostas aplicáveis à nossa realidade e fazê-las funcionar, importará perceber como se tem pensado e governado efectivamente o país desde que há ordem constitucional. No caso em questão, convém ter em conta que não se fez outra coisa desde a implantação do liberalismo que tentar redefinir espaços entre a religião católica e o Estado, com avanços, recuos e diferentes formas de condicionamento de uma sobre outra instância. Crença religiosa e cidadania têm desde então coexistido, sofrido mutações, com muitos de nós em situação de dupla pertença. Outros não. Não podemos falar disto, qualquer que seja o nosso argumento ideológico, como se a (novamente) tão falada “questão religiosa” tivesse tido início no Estado Novo, ou com o 25 de Abril.

Reformulando a dita dúvida: por que se importam tantos opinadores mais com Abraham Lincoln que com Sá da Bandeira?

Ana Cláudia Vicente