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Cantas bem, mas não me alegras

por Francisco Mendes da Silva, em 30.08.08

O concerto dos Beatles no Shea Stadium, em 1965, foi um ponto de viragem na carreira dos quatro de Liverpool. Dezenas de milhar de pessoas aos gritos, pouquíssimo interessadas em escutar a música, impediram inclusivamente os músicos de se ouvirem uns aos outros. Impressionados com o delírio filistino dos seguidores e frustrados com o atraso da tecnologia - que ainda não permitia o poder sonoro dos grandes concertos de hoje -, Macca, Lennon, Harrison e Ringo decidiram deixar de tocar ao vivo e dedicar-se a aprimorar a escrita de canções e a experimentar as potencialides do estúdio de gravação. Daí em diante, foi o que foi: o Rubber Soul, o Revolver, o Sgt. Pepper's, o Magical Mystery Tour, o álbum branco, o Abbey Road e o Let It Be. Quatro anos maravilhosos.   

 

A rock star Barack Obama teve ontem o seu Shea Stadium. Só que, apesar da gritaria e da choradeira, a técnica sonora lá lhe permitiu continuar a deliciar-se com as "suas" palavras e a ser ouvido. Pelo que não houve uma epifania beatleiana e não parece que, caso seja eleito, venhamos a ter quatro anos mais enxutos de cançonetismo popularucho.

 

Ontem vi o discurso em directo, consciente da importância histórica do momento e, portanto, sinceramente disposto a ser arrebatado. Também eu tenho o meu módico de mitomania. Mas o que vi foi pouco mais que pobrezinho. Para líder inspirador do Mundo Livre, todo aquele populismo rasteiro e piadolas é de uma insuficiência atroz.

 

Bem espremida a prestação, o que é que tivémos?

 

Em primeiro lugar, o argumento familiar de sempre, repetido até à náusea: o homem merece ser Presidente do seu país por causa da maravilha que são a Michelle e as petizes, pelas dificuldades que a mãezinha e o paizinho tiveram de suportar durante a vida, etc, etc. Como se isso (seguramente importante e admirável) desse substracto às ideias e credibilidade à candidatura. Como se tudo isso fosse uma categoria política. (Gostaria que McCain não fosse pelo mesmo caminho, utilizando o seu passado de prisioneiro de guerra, mas não tenho grandes esperanças).

 

Depois, um recrudescer da fulanização cretina contra McCain, com simplismos retóricos que deveriam envergonhar um blogger diletante, quanto mais um candidato a Presidente dos Estados Unidos da América. O melhor exemplo foi aquela insinuação de que McCain não estaria muito empenhado em apanhar Bin Laden.

 

Finalmente, também não faltou a velhinha retórica do populismo económico: roubar aos malvados dos ricos para dar aos pobres, com um elenco de propósitos inexplicáveis. Desde logo, uma "medida" que vou apontar para memória futura: "fechar" paraísos fiscais. Quais? Onde? Fora dos EUA? Como? Invadindo os territórios e depondo os respectivos governos? Ou estava a falar dos regimes favoráveis que existem dentro do território americano? Mas como contornará a soberania dos Estados nessa matéria e, antes de mais, os governos desses Estados? E, já agora, se "fechasse" os "paraísos fiscais" americanos, como impediria que os seus utilizadores passassem a utilizar os dos territórios estrangeiros? E o que diria aos seus grandes financiadores?

 

O resumo ideológico da proposta Obama (pelo menos na sua versão verbalizada que escutámos ontem) é bem claro: desmontar a "ownership society", alegadamente entendida em Washington como a sociedade do "desenrasca-te a ti próprio". O problema é que, segundo o próprio Obama, o objectivo dessa proposta é o de restaurar a força do "sonho americano". O qual - esquece o candidato - foi construído, precisamente, à conta do "desenrasca-te a ti próprio". O Estado paternalista que Obama defende é o oposto acabado do modelo em que assentou a prosperidade da América. Toda a base programática da sua candidatura é, portanto, um grande paradoxo. E, já agora, estranho cada vez mais que pessoas que, para efeitos domésticos, passam a vida a deplorar os lirismos esquerdistas dos Louçãs e dos Jerónimos, dos Alegres e dos Soares, venham agora entusiasmar-se com este discurso, só - aparentemente - por razões de estilo. Será talvez porque, pronto, é moda lá fora. Mas a isso, na minha terra (da província), chama-se provincianismo.  

 

Pois bem: o discurso foi bonito, muito bem estruturado e magnificamente dito - como um concerto de alinhamento perfeito e delivery antológica. Mas Obama deveria procurar lá no disco dos Smiths que o David Cameron lhe deu aquela canção sobre música oca. Because the music that he constantly plays, it says nothing to me about my life.


comentários

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De Dinis a 30.08.2008 às 02:33

ESte post faz-me lembrar a condição de sportinguista. Por isso sou solidário. Não houve derrota nenhuma nestes 25 anos em que eu não tentasse, muitas vezes com sucesso, detectar e verbalizar as misérias dos adversários. Mesmo quando nos davam baile.
se soubesse como compreendo o esforço...mas inglório meu caro. O discurso é NOTÁVEL.
5-0!
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De AA a 30.08.2008 às 04:09

Pouco houve em todo aquele showbiz de verdadeira política. Mas nós somos europeus...e eles é que marcam as tendências, quer queiramos, quer não. Os americanos sobrevalorizam os padrões de conduta dos seus políticos e ainda não foram capazes de perceber que comportamentos do quotidiano privado não devem projectar-se na vida pública por forma a determinar a capacidade para a assunção de responsabilidades políticas. Somos menos hipócritas por cá. Provavelmente porque esperam 10 vezes mais de um político do que um europeu espera, por isso somos menos "exigentes"...Mas, como sabe, essa postura não é exclusiva dos democratas - todos o fazem e é assim que burros e elefantes ganham eleições por lá. Disto decerto não discordará.
Quanto ao resto, àquilo que apelida de "Estado paternalista", isso já tem muito mais a ver com a forma como se encara a política e a extensão que queremos dar aos inevitáveis tentáculos do Estado...
Tudo isto para dizer que se considerou o discurso "familiar", "fulanizador", "populista" e "provinciano" talvez tenha andado afastado das lides políticas norte-americanas nos últimos meses...anos...décadas, digo. Sem distinção entre os "animais".
AA
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De Dinis a 30.08.2008 às 15:53

Chama-se civismo democrático, não é? Bom, isso também já vamos tendo por cá,
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De RA a 30.08.2008 às 17:00

Meu Caro Francisco ,
A convenção democrática foi uma super-produção ; a convenção repúblicana vai ser uma super-produção . Segui uma e vou seguir a outra. A política nos US faz-se de forma quase oposta à política europeia. Não sei avaliar qual a melhor; pessoalmente, prefiro a europeia.
Isto não invalida o que se vai dizendo e o que se adivinha para o futuro. A situação de facto estimula duas formas da América encarar o futuro: McCain insistindo numa visão neo-liberal que empurra a sociedade americana para a ruptura eminente, para um papel detestado e, cada vez mais secundário no mundo; do outro lado, Obama, novidade, futuro e a promessa de um caminho mais justo, mais próximo do modelo social europeu e, no plano externo, a recuperação da credibilidade americana arrasada por JWB.
Só mais uma coisa, a esquerda começa a ganhar com este embuste criado sobre esquerda e direita nestas eleições. Eu, por exemplo, sou inequivocamente de direita, Obama não é, seguramente de esquerda.

Registo que, apesar de McCainiac, fugiu às vulgaridades pequenas do tipo Barack Hussein...
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De Francisco Mendes da Silva a 30.08.2008 às 19:01

Raul,

Eu estou muito longe de ser McCainiac.

Abraço.

F.
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De Nuno Miguel Guedes a 01.09.2008 às 01:56

Também vi o discurso de Obama (e aqui o verbo «ver» é propositado e esclarecedor) e não poderia acrescentar nada ao que escreveste. Well done. Infelizmente, o outro lado, para além de claramente ter um pior speech writer, tem de dar consistência`a alguns vagos truísmos que debita e ter cuidado com as constantes contradições e gaffes em que parece ser useiro e vezeiro (primeiro diz que não percebe de economia, depois diz que percebe etc). A straight talk é uma armadilha perigosa. Por outro lado, gostei da escolha de Palin. Não sou um fanático por McCain mas não quero um Dr. Phil como lider do mundo livre.
Abraço!

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