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REPOST

por Francisco Mendes da Silva, em 06.10.08
Avaliar o quê? (05/03/2008)

A direita do comentário adora esta polémica d' "os professores" (que é como as televisões se referem aos sindicatos), porque lhe permite exercitar as suas três poses (ou simplismos, ou populismos) favoritas: a pose autoritária (vejam como eu apoio "medidas difíceis"), a pose do "vai trabalhar, malandro" (vejam como eu acho que o que estes gajos querem é não fazer nada) e a pose do sentido de estado (vejam como eu sou tão decente a apoiar um governo de esquerda quando concordo com as medidas).

 

O problema é que, se bem virmos o grande esquema das coisas, há muito de perverso na oportunidade e no sentido das "reformas" que se querem introduzir. Conforme referiu Vasco Pulido Valente numa das suas crónicas do último fim-se-semana, a história da escola pública no Portugal das últimas décadas é a da contínua e progressiva deslegitimização dos professores, que se vêm cada vez mais diminuídos na sua dignidade e na sua responsabilidade perante um modelo de escola e de aluno onde grassam o vírus do bom-selvagem, do facilitismo, e uma ideia torpe de democraticidade. Gostaria sinceramente de saber quantos dos que dedicam comentários ao tema passaram pela escola pública portuguesa, vá lá, nos últimos vinte anos.

 

Claro que os sindicatos foram sempre coniventes com este declínio e que, mesmo na comoção actual, se preocupam essencialmente com os mitos da "escola democrática". Mas, num Ministério capturado por gente que acha que os meninos não podem chumbar por faltas e que os exames são uma forma de perpetuar as divisões classistas, é no mínimo trágico que, da primeira vez que em décadas se fala a sério de avaliação, seja sobre a avaliação dos professores. Como se pode avaliar quem não tem controlo sobre a actividade avaliada?

 

You're so vain, you probably think this song is about you (06/03/2008)

Pedro,

 

Não só o meu post não te era dirigido, como não me parece que lhe tenhas rigorosamente percebido o espírito.

 

Eu concordo em absoluto com a ideia de avaliação dos professores (não necessariamente com este modelo específico). Penso, no entanto, que uma pessoa "de direita" que queira comentar o assunto, não pode deixar de avisar que as luminárias do Ministério da Educação que pensaram nessa avaliação são as mesmas que por lá andam há anos a espalhar os mitos progressistas da infantilização dos alunos, retirando aos docentes cada vez mais poderes de controlo sobre a actividade lectiva e, portanto, esvaziando-os daquela responsabilidade essencialmente prévia à sua avaliação.

 

As teorias da democraticidade que eu deploro nada têm a ver com a escola abrangente e aberta do regime democrático - que, obviamente, defendo -, mas com a ideia de que na comunidade escolar os professores, os pais e os alunos devem estar e ser tratados em plano de absoluta igualdade.   

 

Quanto ao resto, concordo que a escola pública foi "o maior fenómeno de coesão social" do Portugal democrático e, se na altura pensar como penso hoje, os meus filhos terão, como os pais tiveram, uma formação escolar toda ela feita em instituições do Estado - onde a vida é mais diversa e o mundo mais pleno.  

 

Ainda sobre os professores (10/03/2008)

1. Depois de cem mil professores na rua, tornou-se impossível ao Governo ou a quem quer que seja continuar com a auto-vitimização às mãos sanguinárias dos sindicatos. Tornou-se impossível, por exemplo, dizer como Emídio Rangel - na sua costumeira ladaínha orgânica de cão de fila sob disfarce - que os professores manipulados pelo PC são uma vergonha.

 

Quando mais de dois terços de todos os docentes do básico e do secundário dispensam um Sábado em família para descerem ao Terreiro do Paço, são evidentes pelo menos três conclusões: a contestação é muito superior à que resulta da mera acção política dos sindicatos, existe efectivamente um sentimento de injustiça e desespero, e o catálogo das razões para esse sentimento são diversas e complexas*.

 

(* O nosso maior profeta da liberdade individual, pelos vistos, só acredita no seu próprio livre-arbítrio. O resto é tudo carneiragem) 

 

2. Compreensivelmente, um dos motivos para o desgaste psicológico é o sistema de avaliação que se prepara. O humor do tempo é o da meritocracia e o da equiparação das condições dos trabalhadores do Estado às dos do sector privado. Em princípio, nada contra.

 

Mas o bom-senso político também nos deveria levar a perceber o seguinte: quando um trabalhador de uma empresa privada se sente injustamente avaliado ou quando, mesmo com avaliação favorável, a estrutura humana em que se insere o impede de progredir na carreira, tem sempre a hipótese de se lançar ao mercado e procurar emprego noutras paragens; pelo contrário, no nosso sistema estatizado e ultra-centralizado, que pode fazer, por exemplo, um bom professor impedido de subir na carreira por causa do numerus clausus das progressões? Nada.

 

Acredito que esta preocupação possa ser a principal de muitos professores que, no início do seu trajecto profissional, não conseguem prever outra coisa que não uma vida de salário miserável - dependente, além do mais, de um sistema centralizado de colocações, pelo qual as pessoas são desumanamente tratadas como peões ao serviço do Estado.              

 

Se o Estado quer avaliar os professores, tem de mudar o paradigma de organização da educação pública. Não pode haver avaliação sem autonomia e liberdade das escolas. 


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De Joaquim a 07.10.2008 às 18:14

Um post excelente... até aos últimos 3 parágrafos.

"no nosso sistema estatizado e ultra-centralizado, que pode fazer, por exemplo, um bom professor impedido de subir na carreira por causa do numerus clausus das progressões? Nada."
Mesmo nada?

"Acredito que esta preocupação possa ser a principal de muitos professores que, no início do seu trajecto profissional, não conseguem prever outra coisa que não uma vida de salário miserável - dependente, além do mais, de um sistema centralizado de colocações, pelo qual as pessoas são desumanamente tratadas como peões ao serviço do Estado."
Se logo no início do seu trajecto profissional, os professores se vêem nessa situação, não devem depois ser responsabilizados pela escolha que fizeram de prosseguirem nessa carreira?

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