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Destino de alívio

por Sofia Bragança Buchholz, em 11.10.08

Valença, _ _ de Agosto de 1976

Estávamos em 1976 e na fronteira obrigaram-na, como mandava a lei, a preencher o formulário alfandegário: um papelinho branco, burocrático, mesquinho, que a identificava a ela, aos filhos, ao marido, ao carro deles, ao seu destino e, se a memória não me falha, ao montante do seu dinheiro. Para trás tinham ficado os poucos quilómetros que separavam os dois países e as loooongas horas em filas de espera, sob o sol abrasador e sufocante de Agosto.
Os miúdos contavam os carros: primeiro os azuis, depois os vermelhos, depois os brancos… em jogos inventados para enganar o cansaço, a falta de espaço e o calor. Eram três, num banco traseiro de um Lancia Fulvia de dois lugares que nunca ouvira falar em cintos de segurança, muito menos em cadeirinhas especiais para crianças. Estóicos, suportavam a vontade de fazer xixi, o barulho do rádio e o - hoje, tão politicamente incorrecto - fumo da cigarrilha do pai. Esperava-os o sabor da recompensa, superior a qualquer esforço, suportável a qualquer sacrifício: o último álbum dos Rolling Stones para o mais velho, o vestidinho de favos ao xadrez para a do meio, e a boneca, invariavelmente, loira e de olhos azuis (como que a contrariar o moreno do made in spain da etiqueta) para a mais nova. Havia também os chocolates, as borrachas, os cadernos, as gambas a la plancha ao jantar a que, naquela altura, eles não davam valor, mas que hoje lhes sabem deliciosamente na memória. E os passeios na calle del Príncipe e na marina de Vigo, os churros com chocolate quente, as fantas e as coca-colas. Ah, as latas de coca-cola que raiva faziam aos amigos, quando regressavam!!!
Ela preencheu o formulário e no espaço reservado à sua data de nascimento hesitou. O polícia inquiriu, mal-encarado, e à falta de resposta pressionou, impaciente, apontando para o carro, numa ameaça tácita de revista. Os dois miúdos, no banco de trás, acenaram infantis no sorriso e na atitude, e a terceira, de pé, ao lado da mãe, respondeu: Vinte e três de Maio de mil novecentos e quarenta e um. O guarda carimbou mecânica e indiferentemente os papéis, e mãe e filha entraram no carro, apressadas.
No meio da ponte que separava os dois países, cantaram, como já era costume fazerem, divertidos, o hino nacional. E já do lado de Espanha, na paragem de alívio − fisiológico sim, e de consumo também − ela pediu à filha aquilo que, no seu receio e nervosismo, a fizera bloquear na resposta. A miúda meteu, desempoeiradamente, a mão entre os dois pares cuecas que trazia vestidos e com um sorriso atrevido entregou à mãe o dinheiro para depositar, a salvo, em Espanha.

© Sofia Bragança Buchholz, 2005.
 
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