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Morreu um príncipe.

 

Eu tinha 13 anos quando o meu avô, por alguma razão, considerou que eu já tinha juizo suficiente para o acompanhar ao primeiro andar da Travessa da Queimada. A Livraria Histórica Ultramarina era diferente de tudo o que eu já vira. Não era uma livraria, era uma casa. Em cada sala, em cada quarto, havia estantes e livros e caixas e livros e máscaras e antiguidades e mapas. E livros. Era uma casa que tinha um poço - devidamente iluminado e registado na CML - , um jardim e uma escada em caracol para o rés-do-chão (na altura em que conheci já a entrada para a rua se fazia pelo primeiro andar). Na primeira salinha depois da entrada, numa secretária ilumidada e atulhada de catálogos, estava um senhor, baixo, impecável no seu casaco e gravata, de cabelos brancos e um bigode pequeno, óculos de aros de ouro e com um ar simpático. O meu avô apresentou-me, disse-lhe que "o rapaz parece que também gosta de livros".

- "Ah sim?" - respondeu aquele senhor - "isso é o que vamos ver daqui a uns anos..." - e já passaram vinte anos desta primeira conversa.

 

Morreu um príncipe.

 

Um livreiro-antiquário que lia os livros que vendia, que encontrava o que nós nem sabíamos que estávamos à procura, que identificava fotografias, estampas e gravuras como se os conhecesse desde sempre: "este? não sabe quem é? então, vê-se logo pela bigodeira!". E conhecia. Quando conhecia melhor os seus clientes, mais habituais, reservava-lhes - em locais específicos da livraria - os livros, folhetos, separatas, fotografias ou incunábulos que lhe parecia que poderiam interessar a determinada pessoa. Quem não sabia, por vezes pegava em coisas que estavam à vista e ele dizia logo - "isso não pode ser, está guardado para X". No dia em que me disse que o canto direito daquela prateleira debaixo da mesa grande estava guardado com separatas e uns livros para mim, fiquei a rebentar de orgulho. O Zé Maria já achava que eu "também gostava de livros".

 

Morreu um príncipe.

 

José Maria da Ponte e Horta Gavazzo do Rego Barreto da Fonseca Magalhães da Costa e Silva (Almarjão). Era conhecido simplesmento pelo Zé Maria Almarjão, o título de família, que uma vez o vi explicar a um cliente - que lhe perguntou o que era aquele nome entre parêntesis - "Ah isso é uma alcunha que me dão desde pequenino, mas é uma longa história". O Zé Maria gostava muito de histórias. Contava-as como quem revela uma inconfidência - "sabe o que disseram uma vez ao Castelo Melhor, quando ele chegou atrasado?" - por vezes trezentos anos depois. Tanto fazia, os personagens da história e dos livros eram amigos dele. Conhecía-los bem, as suas famílias, com quem tinham estudado, lutado ou zangado, não importa o século.

 

Morreu um príncipe.

 

Porque era assim, como um príncipe, que ele tratava e era tratado, o decano dos alfarrabistas portugueses. Mário Soares, cliente habitual, fê-lo Grande Oficial da Ordem do Infante, universidades e governos portugueses e estrangeiros recorriam a ele. "Isto é para Angola" - dizia ele perante a minha pergunta sobre o valor de uma série". 

- "para um angolano ou um português?" -

- "não, para a República Popular" - repondia com um sorriso.

 

Morreu um príncipe.

 

À sua volta reunia-se uma corte. Com o Fritz Berkemeier como suserano do armazém na rua Diário de Notícias - uma torre digna de Borges, numa ala de um antigo palácio, com três (quatro?) andares labiríntico sobrecarregados de estantes e livros, com um sábio alemão nas suas entrenhas - e o Rui, elevado a Chevalier Servant com A Bola debaixo do braço. E depois os seus amigos dedicados. Conta-se que, uma vez, o Ruben A. viu um camião da caixa aberta carregado de livros encadernados e, intrigado, decidiu segui-la até ao meio do Alentejo (seria?). Regressado a Lisboa alertou o Zé Maria da descoberta e indicou-lhe o lugar. Assim se recuperou parte do espólio da Embaixada de Espanha.

 

Morreu um príncipe.

 

Nunca aprendi tanto como nas conversas e discussões que ali tive, aos sábados de manhã, que se estendiam para lá da hora de almoço, para irritação do Zé Maria. Cheguei a sair de Ponte da Barca às seis da manhã para lá chegar a tempo, para lá estar. Eu e muitos outros, reunidos à volta dos livros e do Zé Maria, como tão bem descreve a Maria Filomena Mónica num artigo este Domingo. Por vezes fez-me sofrer (esperei três anos até ele me vender uma edição de 1828 do Spectator), outras vezes a sua generosidade chegava a emocionar (um dia deu-me um texto, escrito por ele com catorze anos, sobre um antepassado meu, delicadamente encadernado numa folha de papel de mármore inglês) e muitas, muitas vezes foi meu credor, de prestações infindáveis, a única forma possível de conseguir comprar alguns livros.

 

Morreu um píncipe.

 

Num livro sobre Vasco da Gama, o seu autor - inglês, creio - descreve como conseguiu encontrar alguns elementos graças a um "principe" livreiro, com os seus óculos de aros em ouro, num improvável Bairro Alto em Lisboa. Hoje em dia, é difícil descrever aquele ambiente sem parecer um conto de ficção, meio Borges, meio Lampedusa. Mas é essa memória, essa amizade e as muitas que fiz graças ao Zé Maria que fica comigo. Isso e os livros, no fundo a razão de tudo isto. Ou, se calhar, é ao contrário.

 

Nota: notícia também aqui, no Almocreve

 


comentários

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De VSC a 11.11.2008 às 00:59

Muito bem, Diogo.
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De Jacinto Bettencourt a 11.11.2008 às 10:21

Tenho muita pena, Diogo. Há muitos anos que não passo pela livraria -- nem a conheci, aliás, nas novas instalações; não se entrava pela Calçada dos Duques? -- mas nem por isso me esqueço daquilo que por lá aprendi. Parece-me absolutamente merecido o título de príncipe dos alfarrabistas. Recebe um abraço.
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De A. Pinheiro Torres a 12.11.2008 às 15:11


Lamento muitíssimo a perda do Senhor Costa e Silva.
Se a alguém foi legitimo chamar "principe" foi indubitavelmente a este aristocrata do livro antigo-
O alfarrabista Almarjão.

R.I.B. (rest in books )

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De albertino a 17.11.2008 às 17:56

lamento. deixa um nome difícil de igualar (se contarmos com as preposições, 18 palavras)

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