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Morreu um Grande Senhor

por DBH, em 10.11.08

"Morreu ontem um dos meus maiores amigos, José Maria da Ponte e Horta Gavazzo do Rego Barreto da Fonseca Magalhães da Costa e Silva (Almarjão). Contava 88 anos, mas a diferença de idade não contava, como o não faziam a trajectória profissional, o sexo ou as ideias políticas. Um homem reservado, inicialmente dele só conhecia o facto de descender do político oitocentista Rodrigo da Fonseca.


Por temer que desaprovasse alguns dos meus comportamentos, a amizade demorou a consolidar-se. Ao fim de algum tempo, confessou-me que fazia anos no mesmo dia do que eu, pelo que decidimos passar a festejar a data num almoço conjunto. A partir daí, ficámos íntimos. Estava eu no estrangeiro, quando soube que tinha sido operado ao coração. Nesse Verão, foram deles as únicas cartas que recebi, uma vez que os meus amigos tinham passado a usar o email. Guarda-as, como testemunho de uma das suas qualidades, o sentido de humor. Quando voltei, achei-o bem, mas, pouco tempo depois, a mulher morreu. Mais velho do que ela, José Maria jamais imaginara poder suceder-lhe tal catástrofe. Nunca recuperou.


No ano passado, ainda festejámos o dia de anos, mas apercebi-me que já lhe custava muito sair de casa. Até que deixou de ir à sua livraria. Para mim, Lisboa ficou mais triste. Era na "Livraria Histórico-Ultramarina" que costumava passar os momentos mais agradáveis do quotidiano lisboeta. Eu, que raramente saio de casa, sentia necessidade de ali me deslocar aos Sábados de manhã. Gostava daquele estabelecimento, dividido em dois espaços, um, o mais chique, na Travessa da Queimada, o outro, o mais boémio, na Rua Diário de Notícias. No primeiro, José Maria recebia-nos como um príncipe, enquanto, no segundo, éramos atendidos pelo Fritz Berkemeier, um alemão que ancorara em Portugal por se ter apaixonado por uma compatriota nossa. Havia ainda o Rui, que ajudava na loja, e, muito tempo antes, o «Lérias», um corcunda que ajudava a transportar os livros pesados, e que, um dia, pura e simplesmente, desapareceu. Assim era formado o "staff" , como ironicamente lhe chamava o Quito Hipólito Raposo, da livraria. Tão diferentes entre si - o patrão um aristocrata, o segundo um estrangeiro erudito, o terceiro um faia do Bairro Alto, o último um velho alcoólico -conjugavam-se às maravilhas.


Nunca pedi ao José Maria uma obra que não conseguisse obter. Foi na sua loja que adquiri a bibliografia para escrever livros tão diversos quanto o Artesãos e Operários, Eça de Queirós e D. Pedro V. Sem os opúsculos, panfletos e imagens que ele desencantou, tudo teria sido mais difícil. Mas o seu papel não se limitava a isso. Nenhum professor da Faculdade de Letras me deu o que, sotto voce, ele me ofereceu. José Maria sabia tudo sobre todos os temas e sobre toda a gente. A ponto de, um dia, alguém, na Biblioteca Nacional, ter dito a um funcionário que o interrogara sobre um assunto um pouco mais extravagante, que o melhor era "comprar o Almarjão", pensando que o nome se referia a uma obra de referência.


À sua volta, fora-se reunindo um grupo. Não gosto de lhe chamar tertúlia, porque o termo remete para uma reunião montada com base em afinidades ideológicas. Ora, nada poderia ser mais díspar do que a gente que, na sua livraria, se encontrava aos Sábados. Que me podia unir ao Martim de Albuquerque, ao Jorge Brito e Abreu, ao António Pedro Vicente, ao Lourenço Correia de Matos, à Leonor Câmara Pina, ao Luís Mesquitela, ao Paulo Marques, ao Luís Bigote Chorão, ao Diogo Afonso Henriques e à Ana Vicente? Foi o José Maria que fez com que nos víssemos como especiais: éramos, afinal, os seus amigos.


Nada - a colecção de livros, o ambiente acolhedor, o caótico armazém - existia sem ele. Discreto, não se gabava dos clientes que tinha, mas fui-me apercebendo que havia gente famosa que a ele recorria e que conhecia muitos dos grandes alfarrabistas europeus. Um dia, foi visitar-me a Oxford, com a mulher, a Margarida. Ao contrário dele, esta era extrovertida, o que facilitou o contacto. Passeámos pelos jardins dos colégios, até que, em Broad Street, me contou histórias dos tempos em que se dera com um dos alfarrabistas que, nessa rua, fundara a loja que fornecia os livros para a colecção do rei D. Manuel II.


Apesar de há muitos meses ter deixado de ir à sua livraria, ainda hoje - um Sábado - me levantei a pensar que me faltava qualquer coisa para preencher o dia. Não sei se José Maria recordou as palavras do seu antepassado no leito de morte - "Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste" - mas fiquei contente ao ter conhecimento de que morrera serenamente. Nunca esquecerei aquelas manhãs, como nunca o esquecerei."

Lisboa, 8 de Novembro de 2008
 

Maria Filomena Mónica

Público

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comentários

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De Carla a 10.11.2008 às 20:57

Dia 11 é que é dia de S. Martinho

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