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O Intocável (era só o que faltava!)

por Sofia Bragança Buchholz, em 22.01.09

Confesso que não leio diariamente o Maradona. Deve ser uma falta grave minha, sendo tal personagem uma personalidade incontornável da blogosfera. Não sei, por isso, se o Maradona ferve frequentemente em muita ou em [tão] pouca água como parece ter sido o que aconteceu com o meu post sobre o Cristiano Ronaldo. Em todo o caso já estava determinada a escrever novamente sobre o assunto. É que muitos de vocês, meu caros leitores (e pelos vistos alguns bloggers também), têm uma tendência para ler coisas que não estão escritas e, pior, para lhes atribuir uma entoação [que não está lá] de ataque, depreciação, humilhação… que vos leva automaticamente à defesa, e, infelizmente, de forma primitiva, com o ataque e o insulto, se os argumentos não estão de acordo com as vossas opiniões.

Vamos lá ver se nos entendemos. Ninguém aqui disse que o Cristiano Ronaldo deve ser um intelectual, saber os Lusíadas de cor, ou recitar Fernando Pessoa na ponta da língua. Muito menos que deve ser “doutorado” no que quer que seja. Também aqui não foi mencionado em lado nenhum que o Cristiano Ronaldo não é um excelente jogador de futebol. Foi apenas aqui manifestado o confrangimento de assistir a uma entrevista com alguém que se exprime tão mal e que, frequentemente, nem percebeu a questão que lhe foi colocada. Ele próprio me pareceu pouco à vontade e pouco feliz nesse papel. E dirão vocês, já todos indignados, a vociferar perdigotos e insultos aqui à Buchholz (como vocês gostam, carinhosamente, de me chamar): mas o gajo é bom jogador, não tem nada que saber falar! Discordo. Então, não aceite entrevistas. Um tipo que se diz tão preocupado com a imagem – e a imagem não é só o cabelinho catita, os abdominais marcados, e as roupinhas da moda – não pode correr esse risco. Ou melhor, poder pode, mas não deveria, porque os telespectadores têm mais do que fazer do que o ouvir. Isto já para não falar na responsabilidade que tem perante tantas crianças e jovens ao funcionar para eles como modelo.
E já estão vocês a gritar que o gajo foi pobrezinho, filho de alcoólico e de cozinheira, que coitadinho não pôde estudar e mais não sei o quê. Pois não, mas agora pode pagar a alguém que o prepare para as entrevistas, como paga a quem lhe decora a casa e lhe trata do visual. Este ponto leva-me também a outra questão: pelo que percebi, desde os 11 anos de idade que o Cristiano Ronaldo está fora da família, a viver em Lisboa. Ou seja, não é com a família humilde e analfabeta (que vocês tanto usam para lhe perdoar as falhas) que ele priva a maior parte do tempo desde essa tenra idade. É com os responsáveis pelos juvenis do Sporting Clube de Portugal, o que me leva a perguntar se também estes têm falhas comunicacionais (e culturais) e se em vez de estabelecerem diálogos correctos com os seus pupilos lhe grunhem tácticas e estratégias. Mais uma vez não é um ataque ao Cristiano Ronaldo, mas uma questão pertinente que deixo para reflectirmos: o que fazem estes senhores com a educação destas crianças?
Quanto a ter pena do rapaz, lamento Maradona, mas aqui os nossos valores divergem completamente: o Cristiano Ronaldo com 17 anos podia ganhar 3 mil contos por mês, com 19, 1 milhão de contos por ano, hoje ser o que é, e ter muitas gajas dispostas ao que quer que seja com ele, mas tudo isso não o impediu de fazer uma figura triste na entrevista que deu à Judite de Sousa, na RTP.
 

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lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De Fernando M. Contumélias a 22.01.2009 às 19:46

Li e comentei o que escreveu a Sofia no post sobre a entrevista do Cristiano Ronaldo à Judite de Sousa, que acabou agora criticado pelo «Maradona». Quanto a mim, não colocava em causa a validade do Cristiano Ronaldo enquanto jogador nem o seu lugar merecido no estrelato mundial, dado o apetite que o futebol continua a suscitar nos meios de massa à conta do interesse do público em geral.
Embora seja fácil, não podemos ceder a aceitar deslocar o centro da questão ao ponto de entrarmos pelo facilitismo exagerado da «guerra entre classes», como faz o «Maradona» e quem o comenta em seguida. No caso da entrevista do Ronaldo à RTP temos só que questionar [como fez a Sofia] um trabalho mal feito pelos assessores de imprensa do jogador, se os teve, que não deviam ter aceite uma entrevista longa, em directo, porque acabaria naquilo que se viu... Mas podemos também questionar o trabalho dos jornalistas e a consciência do papel formador que a imprensa tem em plena globalização. Como antigo homem de jornais, ex assessor de imprensa e publicitario asseguro que comigo não teria havido Ronaldo «frente a frente» sem entrevista gravada, com perguntas feitas antecipadamente para garantir uma entrevista esclarecedora, que foi exactamente o que não aconteceu. O que aconteceu com a Judite de Sousa foi pior do que se acusa a Sofia de ter feito e não fez. Passou a mensagem de que o Ronaldo, por mais milhões que ganhe, pode ser adoptado pelo circo mediático para vender tempo de televisão ou papel de jornais. Mas nunca contará para o campeonato nem vai sentar-se às mesmas mesas das elites. Enquanto não percebermos isto não percebemos nada sobre o país em que vivemos nem sobre as mudanças estruturais urgentes que devíamos saber fazer para melhorar a realidade cultural, mesmo aceitando a diversidade.

Continue Sofia!

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