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Maquiavel na Islândia

por Bernardo Pires de Lima, em 29.01.09

 

Quando em meados de Dezembro centenas de pessoas deram azo à indignação em frente da casa do presidente islandês, o destino do país mais rico do mundo ficou irremediavelmente traçado. Em resposta à raiva e num gesto de profunda bondade, Ólafur Grímsson convidou alguns dos imberbes para entrar e tomar um café, embora muitos não se tenham dignado a tirar o capuz com que cobriam a cara. Como o civismo tem limites que a própria razão desconhece, em menos de um mês o governo da Islândia caía prostrado. Nem o frio travou as constantes manifestações, nem a melancolia da paisagem inibiu os responsáveis políticos de fugir enquanto podiam. O caso, em boa verdade, não estava para menos.
Com causas recorrentes – falhas graves na supervisão financeira, uma dívida da Banca equivalente a cinco vezes o PIB; o aumento do desemprego de meio por cento para sete em menos de um ano; a ausência do grupo europeu da moeda única – e medidas de desespero (como as nacionalizações maciças), a história tinha um epílogo mais ou menos óbvio, provando que as maiorias duradouras não trazem necessariamente estabilidade e o nespresso não restitui por si só confiança no sistema.
O exemplo da Islândia ressuscita Maquiavel, autor que nunca devia ter sido dado como morto, quando defendeu estar a virtude de um bom governante muito mais na sua capacidade em ser temido do que em ser amado. Na Islândia, como em outras paragens, o autismo em política foi o caminho mais rápido para o infortúnio.