Caro Nuno,
Quase que te dou razão. A última coisa que quero é um humorista condicionado, politicamente correcto, uma piadinha à esquerda, outra à direita. Ai ai que isto não se pode dizer.
Pode-se tudo. E as suas consequências. O facto – até ao momento – é que o Gato Fedorento apanhou muito bem o Marcelo. Mas não fez, por exemplo, com o episódio do vídeo do Louçã que, concordarás, tem muito por onde se pegar (quem é que filmou aquilo?). Eu vejo isto e registo. Reparo. E tiro as minhas conclusões. Também tenho essa liberdade. Eu achei que o RAP e cia aproveitaram o espaço que têm para fazer campanha pelo sim, coisa que sou livre de concluir.
Sobram dois detalhes. Primeira, se eu tiver razão, a coisa agrava-se por ser numa televisão pública (a coisa é aproveitar o espaço para fazer campanha, não o facto de se fazer humor com o assunto. A diferença é grande.). Segundo, fico a achar que têm pouca capacidade de fazer humor sobre aquilo em que se envolvem (ou envolve, não desconfio qual seja a posição dos restantes), o que diminui a qualidade do humor.
Portanto, quase que te dou razão, mas não dou. São livres de o fazer. E eu de concluir o que me parecer razoável.
Um bom sinal de maturidade democrática é ver as figuras que dependem da aceitação pública assumirem posições controversas. É prova de que o medo (do insucesso, da reprovação ou simplesmente de lhe serem fechadas portas profissionais) não tolhe a capacidade de intervenção pública. É óptimo quando assim acontece. Mas o aproveitamento de um espaço de humor para fazer, “discretamente” campanha por uma causa é outra coisa.
O humor britânico ou americano, por exemplo, está cheio de ataques cerrados a um lado, e às vezes até aos dois lados. Mas nem sempre. Na América de hoje os ataques ao Bush são constantes, So what? Mas eu posso ver e não gostar. ( E por acaso gosto de alguns.)
Para fechar. Eu acho que aquilo teve graça, mas foi um gesto de intervenção política, (não era só o mimetismo, ou a ironia, havia crítica expressa). E, portanto, não gostei. Aquilo não foi humor, foi intervenção política com graça. Não me passa pela cabeça tirar mais nenhuma conclusão. Mas esta posso tirar.
Última coisa. Veja-se o tal “aborto, quem és tu?”, no Contra-informação. Aquilo não era humor (não tinha mais graça que as letras do Quim Barreiros), mas era intervenção politica. Era só o que faltava eu não poder dizê-lo.
Desculpe-se o comentário longo, mas isto do humor é coisa séria.
Concluo: humor (arte), sobre o que se quiser. Intervenção política, no lugar da intervenção política. A fronteira é tramada, mas existe.