Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




quantos surdos no parlamento?

por Rodrigo Moita de Deus, em 27.04.09

Há muito que se discute o problema das deficiências – agora necessidades especiais – na nossa Assembleia da República. O jornal de notícias fez, há pouco tempo, um artigo mais ou menos sobre o assunto. Mas o 31 da Armada teve acesso aos números completos da X legislatura. Refiro-me à tentativa de banir expressões relativas a deficiências ou limitações físicas do debate parlamentar.

Eu, que normalmente embirro com as tentativas de imposição do politicamente correcto, até fico com a ideia que esta seria uma medida revolucionária.

É difícil imaginar o nosso hemiciclo sem a tradicional “o pior cego é aquele que não quer ver” ou o clássico “é grave o autismo do governo nesta matéria” ou ainda “há uma paralisia do seu ministério”.

Na prática a medida beneficiaria a retórica. De uma assentada eliminavam-se um sem número de lugares comuns que, por força da repetição, lá se foram banalizando. Obrigávamos os deputados a puxarem pela imaginação. O que, em alguns casos, seria um enorme desafio.

O campeão das deficiências parlamentares é “cego”. 105 cegos para ser preciso. E como se não bastasse, fique sabendo que só de “cegueira” são 76.

Deputados “surdos” são 25. Deputados com “surdez” 13. E no caminho para uma assembleia cada vez mais inclusiva, na X Legislatura, houve 91 “autistas”.

Tanto surdo, tanto cego, tanto autista e finalmente percebemos como é que ninguém se entende naquela sala. A coisa não vai lá nem com a menina da linguagem gestual.

E por falar em gestos, digo-vos que há 43 “paralisias”. É muito. É imenso. Especialmente num edifício daquele género cheio de escadarias, degraus e locais de difícil acesso. Ainda no campo da paralisia fica um último registo. “Impotentes” são 28. É possível que, na verdade, sejam bem mais. 28 impotências em 230 membros é um número abaixo da média nacional. Mas todos sabemos que este é um problema complicado de assumir.   

Ao todo, 381 limitações de algum género. O que dá uma simpática média de 1.6 necessidades especiais por deputado. Nada mau. Nada mau mesmo.