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Imaginemos que eu fazia crítica de livros. Imaginemos que tinha para criticar um livro de um autor que eu sempre detestei. Por motivos vários, tenho mesmo de escrever a recensão desse livro. Por acaso, até escrevo que não gosto daquele autor, mas que me surpreendeu, porque o livro até tinha partes boas. Imaginemos tudo isto: perfeitamente normal, certo? É a minha profissão escrever sobre livros, nem sempre vou gostar do que tenho para ler. Aliás, até seria estranho se gostasse de todos os livros que me passam pela mão.
Agora, imaginem que recebo cartas de leitores indignados por eu não gostar daquele autor. E recebo insultos, vários, e disparates diversos. Penso eu: vou encolher os ombros, não podemos contentar sempre todos. Mas não: um dos directores da publicação em que escrevo faz um editorial a pedir desculpa aos fãs do autor por mim, num tom subserviente e que insulta o meu trabalho. Pior: depois vem o provedor da mesma publicação dizer em tom autoritário que, se não gosto daquele autor, nunca deveria ter escrito sobre ele. Diz ele que não é curial. Assim, categoricamente.
Pode isto acontecer em Portugal? Pode. Na verdade, não se trata de livros, mas de uma crítica a um concerto, e tudo isto está a acontecer a um crítico musical, João Bonifácio. O jornal é o Público, e o artigo do provedor pode ser lido aqui. A liberdade de expressão está em sérias dificuldades por estas paragens.