Caríssima, a ignorância nunca é Santa. Desculpe-me a falta de sagacidade em decifrar os seus comentários mas eles são suficientemente dúbios para causarem alguma perplexidade e confusão. Já agora, a republicana e francesa proibição da burka é muito justa como o é a proibição da excisão clitoridiana e de todas as práticas culturais que contrariem e violem os direitos humanos tal como são entendidos no Ocidente.
Quanto à tradição humanista portuguesa de tolerância religiosa, sugiro-lhe que investigue a história de um dramaturgo português chamado António José da Silva que não consta ter morrido de morte natural. E depois há aquela organização fundada por um dominicano que tanto êxito teve em Portugal e que só por injustiça histórica ficou conhecida por Santíssima Inquisição. Quanto ao sermos todos diferentes, tenho para mim que somos todos iguais nessa diferença. Este pensamento que, obviamente, nos diferencia não a torna a si nobre nem a mim plebeu (nem vice-versa). Não a inibe de pensar que é superior por nascimento a qualquer outro cidadão mas impede-a justamente de exercer essa putativa e insuportável superioridade...
De Maria da Fonte a 25.08.2009 às 00:05
AL Kantara!
Caríssimo!
A Ignorância é Santa!
Acabou de o provar!
Os muçulmanos que referi, são pessoas civilizadas. Eu expliquei que não me referia a extremistas.
Quanto à Burca, a mim, ninguém à face da Terra, me a obrigava a usar, mas também ninguém à face da terra me impediria de usar as saias que muito bem quero, calças ou calções.
Pelo que, considerando a Burca, uma violência, penso que cada um usa o que quer e lhe apetece, porque nem eu, nem ninguém tem o direito de impôr aos outros os seus padrões, e os seus conceitos.
Quanto a mandar-me estudar história, e insinuar que eu não sei o que foi a Santa, não é Santíssima, Inquisição, leia de novo o que eu escrevi. Mas leia bem. E veja que eu fui clara, quando referi quase mil e quinhentos anos de história.
Como considero Portugal anterior ao Tratado de Zamora, os cerca de mil e quinhentos anos vão até à morte de Dom João II.
Quanto a sermos todos diferentes. Somos, felizmente! Senão tinhamos todos o mesmo rosto a mesma altura e a mesma cõr de olhos e de cabelo etc.
Eu disse-lhe que estava a referir-me ao DNA.
Mas o caríssimo, resolveu ter um acesso de superioridade pequeno-burguesa, disfarçada de proletária, e meteu os pés pelas mãos.
E nem fez a única pergunta, que seria legítimo fazer.
Porque são os Portugueses genéticamente mais antigos?
Maria da Fonte
Caríssima Maria da Fonte, que num acesso de nacionalismo folclórico ache que 1500 anos é a idade de Portugal (confessando eu desde já a minha dificuldade em perceber essas contas que terminam em D. João II...) não me parece mal como começo de conversa. Que se esteja a referir à dificuldade da comunidade islâmica em praticar o seu culto religioso, confesso que desconheço tal perseguição em terras europeias e republicanas. Quanto às diferenças que apontou como puramente genéticas e atribuíveis ao DNA, duvido que tenham desencadeado em mim alguma reacção de superioridade pequeno-burguesa disfarçada de proletária. Quanto à pergunta que alega que é a única que interessa "Porque são os portugueses geneticamente os mais antigos?", devo fazer-lhe notar que não a fiz simplesmente porque a resposta não me interessa para nada. Tão simples quanto isto...
De Maria da Fonte a 25.08.2009 às 01:28
Caro Al Kantara
Cheguei a pensar que tinha o Espírito Científico, dos que procuram através do estudo e do conhecimento, aprofundar e debater todas as questões.
Sem Tabus. Sem preconceitos.
E foi só por isso que me dirigi a si.
Afinal, não tem.
Sendo assim, peço-lhe que me desculpe por o ter incomodado com as minhas reflecções.
Maria da Fonte
Maria da Fonte, por quem é. Não incomoda nada...
"Sobre a Divinização da Dúvida"
A dicotomia Fé (certeza) – Razão (dúvida), é uma caricatura moderna da compreensão do Homem no Mundo. A Fé dá mais dúvidas do que certezas. Da mesma forma que a aprendizagem do alfabeto, embora arbitrária, nos permite compreender e aproximar mais ou menos da verdade, a Fé opera no homem a mesma funcionalidade de gramática do Bem, que pode estar mais ou menos aproximado da Fonte da Realidade.
Daqui emergem duas consequências.
A Fé não emerge como conjunto de certezas sobre o mundo (o que a ideologia dá), mas como um método de compreensão. Só há dúvida onde existe fé, da mesma forma que só há física porque existe fé que a matéria existe no nosso mundo, apesar de ninguém ter visto um átomo. Só a partir daí se pode partir para a compreensão das relações do elemento para com a restante realidade.
Não aceitar a existência da realidade é, contudo uma alternativa bem pior do que aceitar as arbitrariedades do alfabeto ou da gramática do Bem. Sem uma gramática nenhuma questão é lícita ou ilícita, sem ela não se pode questionar a proximidade ou adequação da linguagem à verdade. Desta forma a legitimação do grotesco, a defesa do mal pode ser feita sem qualquer problema, escondida sob a perspectiva diferente. A defesa da radical inexistência do “outro” torna-se, não apenas possível, como uma consequência lógica. Temos nós a possibilidade de escolher quem tem o direito a ter direitos? Sem aceitar a existência de uma Humanidade que provém da autoridade do Cristianismo, podemos escolher quem é humano e quem não o é. Não é esse o fundamento essencial do pensamento do Justo (a capacidade de aceitar que a Norma não provém da minha vontade)? Se a nossa razão ditar a infrahumanidade de judeus, crianças, ou mesmo de toda a restante humanidade, porque é que não pode ficar esta agrilhoada às ordens do tirano?
A Fé é o início de todas as dúvidas, mas nem todas as dúvidas são lícitas. A própria filosofia e método socrático-platónico precisam tanto da fé como da dúvida, compreendendo que ambas fazem parte do mesmo processo. Como se poderia aprofundar qualquer forma de conhecimento se todos os interlocutores negassem a existência de uma verdade externa ao Homem? Quando questionados os interlocutores de Sócrates aceitam sempre o paradigma de que o bom é melhor que o mau, que o elevado tem precedência sobre o inferior. Só a partir daí pode Sócrates emergir triunfante (sendo por isso que até os sofistas aceitem que a Verdade é que não há Verdade) e só assim pode chegar-se a um grau de aproximação da realidade.
Este elemento é fundamental na diferença entre o “conservadorismo” dos dogmas humanos e a tradição filosófica cristã. O dos dogmas humanos quer estabilidade e para isso funda-se nas convenções tornadas inquestionáveis pelo seu carácter humano. A tradição filosófica cristã funda-se no concreto para poder aplicar princípios de justiça que são sempre questionáveis. Não é à toa que o jusnaturalismo é uma tradição filosófica condensada na reflexão platónica e, no entanto, comporta um conjunto de “elementos de fé” dos quais qualquer compreensão da realidade não pode prescindir.
Como dizia o Rafael Castela Santos (http://casadesarto.blogspot.com/)há dias, a fé não se sente, ou se tem ou não se tem.
A alternativa é bem pior.