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Sócrates foi inteligente. Louçã, habituado a discutir o programa dos outros, não estava preparado para discutir o seu próprio programa. Sócrates, durante meia hora, fez de Louçã candidato a primeiro-ministro.Pior. Louçã imaginou-se no lugar. Com medo do que os outros possam pensar.
Nos jogos equilibrados, os pormenores podem fazer a diferença. José Sócrates preparou-se melhor e, no debate em que precisava de não perder, ganhou claramente ao desviar a atenção da realidade concreta do País no final dos seus quatro anos de mandato para um aspecto do programa do Bloco que embaraçou e surpreendeu Francisco Louçã, conseguindo o objectivo de o classificar como um porta-voz de ideias radicais que ajudariam a destruir (ainda mais) a classe média.
Esse foi o objectivo conseguido.Louçã, como qualquer jogador sobredotado, confiou na sua qualidade e boa estrela. Mais que desleixar a preparação, pela primeira vez perdeu o discernimento em directo. Investiu tempo de mais a tentar explicar a dificuldade daquelas linhas em que advoga o fim dos benefícios fiscais para as despesas na saúde e no ensino. Podia ter passado à frente (como Sócrates na questão delicada dos contentores e na auto-estrada Oliveira de Azeméis-Coimbra) mas ficou a debater-se, perdendo a iniciativa. Ou seja, nestas coisas da televisão é errado contar com um Sócrates abatido e facilmente derrotável.
O secretário-geral do PS foi ontem um predador político: agarrou na presa e não mais a largou. Ganhou o debate do ponto de vista mediático, o que não quer dizer que isso venha a ter algum significado em termos de voto.
Quanto ao resto, e porque se discutiu um futuro que não vai haver para já, pouco se falou do estado do País. Esse foi o inexplicável falhanço de Louçã. Quis atacar em casos concretos, diabolizar a maioria absoluta, mas acabou por deixar que lhe colassem a imagem de um radical que advoga ataques às famílias e quer fazer nacionalizações em prejuízo do País nesta Europa em que se insere. Dia 27 perceber-se-á se estes programas de televisão têm alguma influência no voto. Se tivessem, talvez Louçã devesse ter saído ontem preocupado do frente-a-frente com Sócrates.