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Se o país não endoideceu, anda lá perto...

por Francisco Proença de Carvalho, em 04.02.10

Não sei se muitos já se aperceberam disso, mas estamos a criar um país perigoso.
É perigoso:
- Um país em que se banalizam as escutas telefónicas como meio de prova e, pior, mesmo que inválidas, publicam-nas impunemente na internet e meios de comunicação social;
- Um país em que qualquer pessoa já pensa duas vezes antes de falar ao telefone;
- Um país em que se faz política com base em escutas telefónicas judiciais declaradas nulas;
- Um país em que um Juiz de um Tribunal de 1.ª Instância, impunemente, não cumpre despachos do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça;
- Um país em que a maior parte dos casos mediáticos e importantes vão parar às mãos de um único Juiz de Instrução (como acontece no DCIAP);
- Um país em que um jornalista (à noite) e opinion maker (de manhã) pretende noticiar e opinar com base em alegadas escutas de um amigo de supostas conversas de café de terceiros;
- Um país em que um grupo de deputados do partido do governo propõe a publicação na internet dos rendimentos dos cidadãos como forma de combate à fraude e corrupção.
Isto não é o país das maravilhas… Temos muitos problemas. Mas talvez seja melhor ter alguns corruptos, do que viver num país de bufos, invejosos e vouyeurs. Espanta-me ver tanta gente a apoiar determinadas causas e a achar que os fins justificam todos e quaisquer meios. Repito: isso é perigoso, muito mesmo…


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De Gonçalo a 04.02.2010 às 16:30

O problema, medroso, não é a circunstância. É a instância. É muito giro saber isto tudo e vasculhar na vida "destes" personagens que, para si, são quase abstractos. O problema é quando o método chegar a si. Ou aos seus e àqueles que ama. Ou a um qualquer desgraçado totalmente inocente. Quando alguém pegar numa sua conversa - por mais cândida que seja - e a deturpar com fins de o prejudicar. Aí, caríssimo, quando tiver se ser você próprio a provar que é inocente (contra a omnipresença dos media e a velocidade de disseminação quase viral do youtube) é que vai ser o bom e o bonito. Portanto - e como este é um dos pilares do Estado de Direito - qualquer violação a esta norma é-me perfeitamente repugnante. Porque daqui até à justiça popular (e a total cobardia que as suas palavras encerram, voluntaria ou involuntariamente) é um saltinho.

Dou-lhe dois exemplos: apanho-o a falar ao telefone com um vizinho a dizer que vai "durante o fim de semana vai degolar aquela porca". Como tudo isto é basicamente incontrolável, alego que o medroso confessou, não que tinha ido à terra tratar dos fumeiros para o ano, mas sim que era responsável pela premeditação de um qualquer homicidio horrendo.

Punha as escutas no youtube, punha lá umas fotos de uma desgraçada qualquer assassinada num pinhal junto a EN1 - para criar ambiance - e pronto. 'Tavas entalado. A bem da nação. Bem podia o tribunal dá-lo como totalmente inocente, considerar (e bem) a acusação totalmente infundada, dar-lhe uma medalha e queixar-se dos tipos que constroem estes casos... a sua reputação estava arruinada. Um futuro patrão ia pensar duas vezes antes de lhe dar trabalho. Os pais dos amigos dos seus filhos iam começar a olha-lo de lado... entc e tal e coiso. A bem da nação, porque nunca fiando e isto é tudo uma cambada e hoje em dia não se pode confiar em ninguém.

Melhor ainda... por ser ainda mais credível. Imagine que, por desgraça, um seu amigo se enrolava aí nuns negócios escuros no tráfico de caramelos El Caserio. Por acaso, num telefonema, até falam de doces, que as peta zetas eram boas, mas o que gostava era de caramelos. Risota, o desta é que o benfica lá chega, e mais o caraças e ficavam por aí. Um ano depois o seu amigo é filado pela polícia. As escutas vêm à baila e, por mais que uma unica conversa seja inconclusiva - exactamente porque pode ser descontextualizada - as escutas vêm parar ao jornal. Tudo redigido, o medroso a dizer que "gosta é de caramelos" (já reparou que basta umas aspas?

Olhe, outra ainda mais gira, o Correio da Manhã apresenta um headline segundo o qual o medroso diz: "Eu gosto é de "carninha fresca". Tinha sido eu a dar a dica ao jornalista, depois de o ouvir aí dizer isso no tasco. Bonito, não é? Ia ser um sucesso lá na escola dos seus putos. Na mercearia aí do bairro. E bem podia desfazer-se em explicações... porque o o bichinho ia lá sempre ficar. Há sempre alguem que QUER acreditar. Que GOSTA de acreditar que, lá está, ainda bem que aquelas "provas" o confirmam, apesar dos sacanas dos tribunais o terem mandado embora.

Depois de tudo isto, por mais que tente defender o bom nome, era apenas uma questão de tempo até que meia duzia ai de vigilantes / cidadãos preocupados, depois de mamadas umas quantas minis e médias, o encontrassem na rua. E fizessem, pelas proprias mãos, aquilo que os tribunais não tinham feito: isto é, acusar o porco que tinha admitido que gostava era de "carninha fresca".

Mas enfim. Tinha sido a bem da nação.

Percebe agora o que quer tudo isto dizer? Ou vai deixar o "medo"  (ou raiva ou lá o caraças que for) que tem do socrates toldar-lhe a razão?
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De polaco a 07.02.2010 às 12:13

Ó Gonçalo você está um pouquito atrasado para a vassalagem. Vá começando a pensar no próximo chefe ...
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De Gonçalo a 08.02.2010 às 10:58

Quando não se tem mais nada a dizer, arrota-se a alarvidade do costume. Pobre coitado.
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De Nuno a 10.02.2010 às 10:09

Assertivo, imaginativo e perigosamente perto. Subscrevo na integra. Sou totalmente contra estes métodos pidescos! Um dia muda o detentor do poder e a lei de Talião será uma inevitabilidade!

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