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Sem mundo e sem os outros o futebol é uma abstracção. Pensemos, então, o futebol caseiro através da fenomenologia do espírito de Hegel.
Se o espírito subjectivo, enquanto mera consciência ou individualidade, não é capaz de realizar os fins do espírito, entramos na dimensão em que o espírito deve ser considerado objectivamente, isto é, enquanto objectivização da consciência e liberdade. Todos aqueles que percorrem a blogosfera sabem que o espírito objectivo coincide em Hegel com a dimensão onde consciência e mundo se diferenciam, por ser esta a dimensão supra-individual das relações entre homens ou, por outras palavras, a dimensão ética. E como o leitor atento há muito compreendeu, a impossibilidade de analogia possível entre futebol e as ciências que estudam o espírito subjectivo remete aquele desporto para o reino das objectivizações do espírito, impondo-se, assim, analisar o direito, moral e eticidade como os três momentos dialéticos em que o futebol se exterioriza.
O direito, que regula a conduta externa e nasce de uma concepção de liberdade percebida como o direito de cada ser humano actuar autonomamente e no seu próprio interesse, corresponde ao momento do querer feito acto, da apropriação e da propriedade privada. É a dimensão do FC Porto, portanto; dos clubes que se afirmam querendo e tendo, que não olham para além dos seus interesses e da acomodação dos mesmos a alguns limites formais que regem a exteriorização da vontade – aos quais e dos quais recorrem amiúde, aliás (invocando ora a inconstitucionalidade de normas legais, ora a nulidade de escutas, etc.). Aqui encontramos, frequentemente, um adepto que pensa apenas o futebol como uma expressão da vitória e da eficácia concretizadora da vontade de apropriação (de títulos, e não só), não cedendo (veja-se, por exemplo, Paulinho Santos, Bruno Alves) na subordinação da vontade a quaisquer outros princípios reguladores.
A moral, momento antitético do direito, estabelece depois as regras que subordinam a liberdade espontânea ao dever. O futebol dá aqui um passo em frente, deixando de ser mera expressão de vitória e obtenção de títulos, para acolher o dever moral. E quem aqui chega é, evidentemente, adepto do Sporting. E infeliz. É que nesta antítese, o futebol não admite vitórias, glória ou títulos, antes se converte num super-ego incapacitante, numa expressão pouco masculina de limitação e denúncia (ou mesmo de catering, segundo um amigo sportinguista). De facto, o sportinguista não vence no futebol nem deseja vencer pelo futebol, antes pretende vencer o futebol. Neste percurso, está moralmente vinculado à derrota de todos os dias (Dias da Cunha, Dias Ferreira), situando, fatalmente, a sua única vitória no conforto que ainda encontra no (não despiciendo) facto de os seus adversários (Naval, Guimarães, Setúbal) não acatarem as regras morais que o mesmo (e Costinha) entende aplicáveis (algo que no infantil vernáculo verde o adepto traduz por roubo, e que, nas suas variantes, admite como imoral um jogo em que os adversários possuem idêntico número de jogadores em campo). Nesta dimensão identificamos duas diferenças: a diferença que o sportinguista pensa estabelecer a partir daqui face aos adeptos dos restantes clubes (que origina o mito da supremacia civilizacional do sportinguista) e a diferença (que Heidegger certamente definiria como ontológica) no número de títulos conquistados (afinal, não tens, logo não existes).
Chegamos, então, à eticidade (que o mais vulgar blogger, nas conversas do dia a dia, designa de Sittlichkeit), a dimensão onde se atribui finalidade concreta à acção moral mediante o reconhecimento do significado colectivo da mesma. Ignoremos, por hoje, os momentos em que a eticidade se descobra (mas não esqueçamos o sentido que para o benfiquista fazem os apelos dirigidos ao bom pai de família, ao cidadão aplicado – como o é o barbas – e à divindade do clube), para recordar que, no seu mais elevado estádio, a eticidade corresponde a uma forma de unidade superior, simultaneamente formal e emocional de indivíduos, que Hegel, não por acaso, predicou de razão encarnada. Refiro-me, pois claro, à dimensão do Benfica, o glorioso, o maior clube do mundo, por ser este o clube que vence, vence muito e venceu mais do que os outros e, em especial, o FC Porto, sem ter por timbre o refúgio nas regras meramente formais do direito, e que, como o Sporting, soube regular a sua conduta externa por regras não meramente jurídicas e, apesar disso, vencer e jogar futebol (algo que, convenhamos, tem a sua importância). O clube que, embora associado frequentemente ao antigo regime, foi, nesse período, presidido por um comunista; o clube que, das suas raízes populares, ofereceu a presidência a um marquês (e não a um visconde); o clube a quem o poder favoreceu onerando-o com o dever de não contratar estrangeiros; o clube, enfim, que vence as dicotomias, que sintetiza e ultrapassa os dois momentos imberbes do adepto nacional, permanecendo maior e mais vitorioso nos piores momentos, e honrado e firme nos melhores. O Benfica que, através de mim pensado, não se resume ao clube detentor de uma equipa de futebol e uma massa de adeptos ímpares, antes se define com a superior objectivização do espírito no futebol português.
A questão, está fácil de ver, é metafísica. Não a discute qualquer um pois nem todos percorreram a tríade dialética do futebol caseiro (de tal foram apenas dignos seis milhões em território nacional), e até eu me vejo na necessidade de recorrer ao mestre oculto de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Miguel Esteves Cardoso, que tão bem ensinava: afinal, «o Benfica pode jogar mal sem que daí lhe advenha algum mal», sendo suficiente «olhar para os jogadores para ver que sabem que são os maiores, que não precisam de esforçar-se muito, porque são intrínseca e moralmente a maior equipa do mundo inteiro». É certo que o conforto da inevitabilidade da História aplaca a ansiedade do benfiquista que assim evita ceder ao irrascível instinto tripeiro, sem nunca se acomodar no ressabiamento infantil do sportinguista -- pois, como intuía o filósofo que antecedeu o berlinense, «o Benfica, é o Benfica. E o que tem de ser - e é - tem muita força»; mas é também visível que, «quando perdem, [os adeptos do Benfica] não se indignam, não desesperam», como sucede, respectivamente, com os adeptos do Sporting e do FC Porto.
No final, para compreendermos porque o benfiquismo traduz a mais elevada expressão objectiva do espírito no mundo do futebol caseiro, resta-nos reproduzir aquela que constitui, porventura, a mais célebre intuição ontológica de Meister Esteves Cardoso: «o Benfica não joga – digna-se jogar. Não joga para vencer – vence por jogar».
Faltou ontem um golo para a tríade mas no que toca à identidade lógica do real, o Benfica goleia. Gesagt.