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Diário de campanha (26.04.2010)

por Francisco Mendes da Silva, em 27.04.10

1.

Aparentemente, a súbita popularidade de Nick Clegg não irá esmorecer tão cedo, pelo menos à velocidade com que o Lib Dem, do dia para a noite (literalmente), escalou as sondagens.

 

2.

É a surge mais impressionante desde a que o General Petraeus implementou no Iraque em 2007. E é um fenómeno que deveria ser devidamente estudado, para percebermos o que ele nos diz sobre a democracia e a política nos tempos modernos.

 

Numa análise sumária e impressionista, há desde logo um aspecto pelo qual o povo do Reino Unido me parece digno de admiração: escutou com atenção um tipo ao qual foi pela primeira vez dado o mesmo espaço mediático que aos adversários e, tendo apreciado a sua prestação, não tem os mínimos pruridos em declarar que é esse tipo novo que merece o seu voto - mesmo que não represente um dos dois partidos habitualmente vencedores. Esta libertação da norma rotativista pode não passar de uma reacção de protesto, vazia de sentido - de uma deriva anti-política. Seja como for, contrasta com a mediania conformada e preconceituosa com que as "escolhas" eleitorais se fazem em Portugal. O que mais se vê por cá são pessoas que se afirmam desiludidas com os partidos da "alternância", que mostram concordar com os programas dos restantes, mas que depois, em nome a uma certa ideia de respeitabilidade social, por relutância em ultrapassar o perímetro da normalidade, não cumprem o que a própria cabeça dita.

 

Por outro lado, o fenómeno Clegg significa algo de preocupante. A recente adesão ao líder Lib Dem resulta apenas de dois debates televisivos, em que se trocaram uns quantos malabarismos retóricos, e de nada mais. Não resulta, de todo (nem sequer numa parte minimamente substancial), do escrutínio e de uma qualquer identificação com o seu programa - que, aliás, só muito ao de leve se pôde intuir dos dois combates verbais. A "vitória" de Clegg é, pois - ainda que não necessariamente por culpa do próprio -, uma vitória da política televisiva, imediatista e simplista. Isto é particularmente relevante no Reino Unido, onde os manifestos eleitorais são tendencialmente tratados como documentos em que se assumem obrigações e que, como tal, têm um certa validade quase-jurídica. Basta lembrar que, recentemente, os Royal Courts of Justice apreciaram a legalidade da decisão do Governo de ratificar o Tratado de Lisboa sem o referendo que no manifesto do Labour de 2005 vinha prometido (e que Blair&Brown continuaram a prometer até 2008). A ilegalidade da quebra da promessa não foi reconhecida (previsivelmente - apesar de tudo, estamos a falar do Reino Unido -, a defesa do primado do Parlamento prevaleceu sobre a tutela das expectativas contratuais). Mas a verdade é que a apreciação da questão foi liminarmente admitida pelo Tribunal.

 

Uma discussão como esta só tem sentido numa cultura jurídica contratualista, como a britânica. No hemisfério intelectual legalista, o jus imperium vive alegremente sem controlo e a má-fé política é um facto da vida.

 

3.

De resto, é por causa dessa predisposição contratualista - atomista, individualista - que o espírito inglês é tão avesso à União Europeia. Na sequência do último debate, David Cameron foi por cá referido com algum desprimor, por causa da sua posição em relação à dita (o Bernardo; Nuno Rogeiro na Sic-Notícias). Em Portugal, temos o hábito de olhar para os "eurocépticos" britânicos como meras relíquias museológicas, mentes insulares fechadas ao mundo. Mas com essa caricatura somos nós que cedemos ao facilitismo, porque não queremos perceber a história intelectual das Ilhas - e que, perante ela, a "construção europeia" não pode deixar de ser vista como uma elucubração utópica, destinada a ser um monstro legalista, burocrático e desumano.

 

Como diz Cioran num dos seus "Silogismos da Amargura",

 

Rousseau foi um flagelo para a França, tal como Hegel para a Alemanha. Tão indiferente à histeria como aos sistemas, a Inglaterra transigiu com a mediocridade; a sua "filosofia" estabeleceu o valor da sensação; a sua política, o do caso. O empirismo foi a sua resposta às elucubrações do Continente; o Parlamento, o seu desafio à utopia, à patologia heróica.

 

A defesa da soberania é a defesa da democracia, do poder limitado pelo povo.

 

 

4.

Nick Clegg tem sido discutido um pouco por todo o mundo. E, de vez em quando, até se fala de um Obama britânico. No outro dia, quando vi o título "Ten reasons why Nick Clegg is Britain's Barack Obama", pensei que o Guardian tinha perdido definitivamente a compostura e o que lhe resta de bom-senso. Mas afinal era só galhofa (e da boa).

 

5.

Os cenários pós-eleições estão de tal maneira voláteis que os candidatos nem sabem bem o que dizer. Na dúvida, vão dizendo tudo e o seu contrário, com poucas horas de intervalo. Os Tories já afirmaram que uma coligação com os Lib Dems nem pensar, que talvez tenha de ser, e que, se tiver de ser, nunca o acordo há-de englobar a reforma do sistema eleitoral (a única medida que importa a Clegg). O Labour idem idem, aspas aspas (com a nuance de que há abertura para a introdução da proporcionalidade na eleição dos deputados). E o Lib Dem anda, basicamente, a vender-se caro. Primeiro, Clegg disse que "it is just preposterous the idea that if a party comes third in the number of votes, it still has somehow the right to carry on squatting in No 10. A party which has come third - and so millions of people have decided to abandon them - has lost the election spectacularly (and) cannot then lay claim to providing the prime minister of this country". Mas agora vem afirmar que talvez se possa aliar ao Labour, se este enxotar Brown (como se um outro líder eventual do Labour não fizesse parte do partido que "so many people have decided to abandon").

 

6.

Uma coisa é, para já, certa: na discussão entre os méritos dos sistemas eleitorais, o método uninominal tem uma característica que o coloca numa situação decisiva de vantagem perante o método proporcional: é muito mais divertido.

 

7.

Na frente programática, os Tories deram finalmente algum protagonismo à medida-símbolo da Big Society: a criação de um sistema público de escolas independentes (seguindo de perto o modelo sueco), financiadas pelo Estado mas geridas com grande liberdade por associações de pais, empresas e outras instituições privadas e do sector voluntário. O Economist - que esta semana anunciará o seu apoio oficial - diz que é a medida mais interessante de toda a campanha eleitoral.

 

8.

A minha adesão intelectual vai, obviamente, para David Cameron. Mas a minha fidelidade emocional vai para outro David, candidato do Labour pelo círculo (Tory-íssimo) de The Cities of London and Westminster. Chega-me a primeira frase do panfleto:

 

"My name is David Rowntree, and as well as being the drummer in the band Blur, I am your local Labour candidate."

 

Já comprei a t-shirt no Verão passado (where else?)

 


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De K2ou3 a 27.04.2010 às 05:25


Esta fraze, merece!.

"A defesa da soberania é a defesa da democracia, do poder limitado pelo povo."


 

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De GP a 27.04.2010 às 09:13

"Quem tem os ideais progressistas inscritos no seu ADN e desespera por uma mudança real [...] só tem uma escolha: votar nos conservadores." Cameron, citado pelo Público -- would you care to comment, Francisco? (Ou: tem os ideiais progressistas inscritos no ADN? A sério?)
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De lucklucky a 27.04.2010 às 15:00

A Democracia é um poder limitado pelo povo mas se for só Democracia sem Republica não é um poder limitado.


Quanto ao Nick Clegg o mecanismo é muito parecido com Obama. Fogachos de desespero. Nenhum deles está preparado para o que aí vem.
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De Francisco Castelo Branco a 27.04.2010 às 22:26

Excelente analise.

 "Os Tories já afirmaram que uma coligação com os Lib Dems nem pensar, que talvez tenha de ser, e que, se tiver de ser, nunca o acordo há-de englobar a reforma do sistema eleitoral"
Há medida que o tempo passa ganha cada vez mais força uma coligação Tories- Nick Clegg.
é de todo previsivel.
E o lider dos LIb-Dem terá que rever a sua posição em relação ao sistema eleitoral.

Até porque , nas próximas eleições o partido de Clegg poderá deixar de existir.

Estas foram umas eleições disputadas em ambiente especial.

1- A crise internacional que teve em Brown o seu grande responsavel.
2- A crise das despesas dos deputados que envolveu membros dos dois partidos.

E os ingleses, mais que os portugueses; castigam quem andou a brincar com o dinheiro deles.
Revoltaram.se em grande. E preparam-se para castigar os dois partidos com maior expressão parlamentar.
Nos por cá elegemos PM´s que nomeiam os seus amigos para cargos publicos.

"método uninominal tem uma característica que o coloca numa situação decisiva de vantagem perante o método proporcional: é muito mais divertido"

Nem tem comparação.
Só o facto dos lideres partidários andarem na rua e nas escolas a discutirem politica com os seus constituintes faz das eleições britanicas um acontecimento impar.

Em Portugal era dificil, pois era bem possivel acabar tudo à pancada.

Parece-me que os conservadores vao ganhar. Sem ou com maioria absoluta é a questão. Mas a mudança está em marcha em Inglaterra.

PS - Nick Clegg parece um cantor de Rock n´Roll que decdiu candidatar-se para angariar fans para a sua banda de rock

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