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Quando Brown sucedeu "dinasticamente" a Blair, em 2007, escrevi este texto para a Atlântico. Republico-o aqui porque vale a pena perceber, primeiro, que o New Labour só foi possível como (mais uma) concretização do espírito do seu tempo e, depois, que também pôde ser o que foi por causa do que veio antes. O Thatcherismo não foi só um ponto de comparação, o pretexto para a gravitas de mudança e modernidade com que Blair se apresentou. Foi também o potenciador económico do seu projecto de prodigalidade e festança.
Pop Blair
A política é demasiado importante e complexa para ser deixada exclusivamente nas mãos dos politólogos. Por muito treinada que seja a atenção, enciclopédica a sabedoria e talentoso o verbo, a realidade está sempre para além dos conceitos estabelecidos. A recente sucessão de Tony Blair, por exemplo, mereceu uma torrente noticiosa e opinativa de que poucos eventos se poderão orgulhar. Fez-se historiografia vária, com elegias glorificadoras e epitáfios rancorosos, e também alguma cartomancia, repleta de prognósticos para todos os gostos. Disseram-se coisas estapafúrdias e surpreendentes, mas também outras certas e interessantes. E o óbvio, com regularidade previsível, foi ocupando o seu lugar cativo: Blair e a fundação da Terceira Via, Blair e a refundação do Labour, Blair e a “esquerda moderna”, Blair e a sobrevivência da Monarquia, Blair e a subjugação dos sindicatos, Blair e a “relação especial” com a América. No que a generalidade das análises falha, mais deste do que do outro lado do Canal, é na compreensão de Tony Blair enquanto produto da Grã-Bretanha do seu tempo, enquanto aspirante que se fez líder por confusão do seu discurso, não com as preocupações, mas com o léxico, hábitos e referências culturais do povo governado. No fundo, desapaixonando-nos da carga pejorativa do adjectivo, o tema que falta é o de Blair enquanto líder populista. Porque esse é um paradigma da modernidade. E porque o próprio Blair é o grande exemplo – europeu, democrático, não exótico – desse mesmo paradigma.
O tema e as fontes não farão maravilhas pela reputação do erudito nem, porventura, pela exigência da sua curiosidade sofisticada. Dificilmente a coisa apelará à sociologia de ponta ou resultará em tratados seminais. Mais sorte e utilidade terá o reles fã da cultura popular.
“Algo mudou, sente-se um novo sentimento nas ruas. Sente-se um desejo de mudança. A Grã-Bretanha voltou a exportar música pop. Agora só precisamos de um novo governo”. A declaração é de Alastair Campbell, o célebre e – até determinado momento – omnipresente assessor de imprensa, chefe de gabinete, escritor de discursos, spin doctor e homem para todas as estações de Tony Blair. Foi proferida no Outono de 1996 (alguns meses antes da eleição) e serve de epígrafe a “Live Forever: The Rise and Fall of Britpop” – documentário de 2005 que é mais uma celebração da queda do domínio conservador que a história de um movimento musical. Aliás, dita quando e por quem foi, a frase é mesmo a melhor epígrafe da caminhada do New Labour para o poder.
Para os mais desatentos a estas realidades mundanas, a Britpop foi a etiqueta jornalística ao abrigo da qual a imprensa e a indústria musical colocaram uma série de artistas (os Blur, os Oasis, os Pulp ou os Suede) que, durante a década de 1990, de uma ou de outra forma, recuperaram a tradição britânica da canção pop de recorte clássico, fiel às fórmulas anglófilas da observação quotidiana e do realismo social, da pequena narrativa, do sarcasmo ou da crónica fleumática da dor de corno. Em grande medida, como tinha acontecido nos swinging sixties que lhe serviram de modelo, o anglocentismo do fenómeno foi uma reacção à influência esmagadora da cultura americana e por aí acabou também por se transformar num estado de espírito generalizado. Se no início as odes se limitavam aos media especializados, na segunda metade da década a euforia instalou-se por todo o mainstream mediático. O Observer declarava a música pop como a sucessora da indústria do aço na liderança da economia britânica e o Independent suspirava por uma “sociedade pós-capitalista” em que o lucro estaria dependente do “completo reconhecimento da criatividade humana”. Desconsiderando o lirismo, a verdade é que o sucesso comercial e o reconhecimento internacional da Britpop tinham, por essa altura, alastrado às artes plásticas (a BritArt de Damien Hirst e dos irmãos Chapman), à literatura e ao cinema (foi com Trainspotting, uma glorificação narcótica de um certo hedonismo hooligan, que Irvine Welsh, escritor, e Danny Boyle, realizador, se fizeram ao mundo).
Estava viva a Cool Britannia (corruptela do anacrónico Rule Britannia), consagrada no campeonato da europa de futebol que a Inglaterra organizou como uma manifestação patriótica do tipo das que há muito tinha vergonha de tentar. Nas bancadas, nas pistas de dança e nas ruas, cantava-se o hino da selecção inglesa escrito pelos Lightning Seeds. “Football’s coming home” era o refrão. Na última conferência do partido antes das eleições gerais de 1997, Blair encerra com a oportunidade de sempre: “Labour’s coming home”.
O discurso trabalhista na oposição foi constante e demagogicamente decalcado da cultura popular vigente. Mais do que ideias políticas, tratou-se de alardear a “nova Grã-Bretanha”, já não o país deprimido das décadas passadas mas a nação renascida e confiante, a quem só faltava um líder verdadeiramente “moderno”. O que lança toda uma nova luz sobre a tese de que não haveria (este) Tony Blair sem Thatcher. Aquela “nova Grã-Bretanha” florescente foi o resultado do esforço dos anos 80. A criatividade petulante foi a continuação do individualismo “yuppie” de má fama e a indústria que a pagou o fruto do capitalismo furioso que enriqueceu a Velha Albion.
Todos os bons governos, mais até do que os maus, têm em si próprios a semente da sua superação.