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Cortar ou não cortar na despesa?

por Moedas, em 14.06.10

Até ao inicio da crise na Grécia a maioria dos governos na Europa assumiu, de forma tácita, que valia a pena continuar a gastar através de um aumento dos défices públicos (estimulo keynesiano) para assim relançar as economias europeias. Todos os economistas e comentadores internacionais opinavam que os governos deviam gastar e que esse era o caminho a seguir. Com a crise na Grécia e de uma forma súbita os mesmos economistas e comentadores decretaram que o contrário deveria ser feito (austeridade fiscal) e assim começaram os cortes na despesa pública na Europa de forma imediata e cega. A Alemanha anunciou na semana passada mais de €80B de cortes até 2014, Itália €24B nos próximos três anos, Espanha €15B este ano, Reino Unido €6.2B, Portugal €1B ao qual se juntam os cortes da despesa anunciados pela Grécia e pela Hungria, totalizando mais de €200B em cortes da despesa pública em toda a Europa. Será que todos os países devem cortar na despesa pública ao mesmo tempo? Será que os cortes fazem sentido nesta altura? Será que alguém se digna a explicar ao povo este tipo de decisões? E Portugal? A questão é que temos duas “Europas”, uma dos pequenos e uma dos grandes, uma do norte e uma do sul, uma rica e outra pobre. Hoje no Financial Times, Wolfgang Munchau analisa a questão dos cortes na despesa pública e num artigo em que, para além do seu extremismo anti-europa do sul que me desagrada, demonstra bem que os cortes são necessário em todas as economias mas em timings diferentes. Numa economia pequena e aberta, como a portuguesa, a chave do sucesso é sem dúvida a competitividade e nesse sentido os cortes na despesa pública são necessários e devem ser imediatos para melhorar a pobre relação que temos entre os custos do trabalho e a produtividade para assim podermos diminuir a nossa dependência em relação ao estrangeiro. No caso das grandes economias, com uma balança de conta corrente equilibrada, a focalização dos governantes deveria ser no crescimento e não na competitividade, uma vez que estes países já são competitivos e pouco dependentes do exterior. Os cortes repentinos e antes do tempo na despesa pública destas grandes economias poderão levar a Europa à estagnação através de uma redução da procura interna. Para que fique claro, a questão europeia não é cortar ou não cortar, mas sim quando cortar. Infelizmente, a questão portuguesa continua  ser quanto cortar ...

 

Nota: Valores numéricos em "Billion" anglo-saxónico (i.e. 10^9)

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comentários

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De zé a 14.06.2010 às 21:37

Caro Moedas, não precisa de publicar este comentário, é só para fazer uma correcção. Calculo que esses "B´s" se referem a biliões. Não são biliões, na Europa são mil milhões. Não é a mesma coisa. O bilião europeu tem 11 zeros, nos USA tem 9. 
Cumprimentos
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De Talvez... a 14.06.2010 às 21:41

Foi justamente nisso que pensei quando li o post.
É bom saber que ainda há quem saiba a diferença.
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De Moedas a 14.06.2010 às 21:49

Caros Amigos - Obrigado pelo reparo e asseguro-vos que conheço a diferença pois a minha primeira formação é de engenharia. Mas como sou um estrangeirado optei pela estrangeirismo anglo-saxónica Billion " para 10^9. Um abraço e obrigado pela leitura.  
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De lucklucky a 16.06.2010 às 07:05

"No caso das grandes economias, com uma balança de conta corrente equilibrada"


Que misteriosos países são esses que não encontro?
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De Moedas a 16.06.2010 às 08:09

Não há mistério nenhum. Estou a falar sobretudo da Alemanha que a seguir à China é o país com maior excedente da balança de conta corrente no mundo. Mais do equilibrada tem uma balança com excedente!! É este excedente que ainda mantém a Europa de pé!! 


ver: 
http://rspruk.blogspot.com/2010/02/current-account-balance-in-eurozone.html


http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_countries_by_current_account_balance
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De lucklucky a 16.06.2010 às 07:13

Vai ser dificil aos Europeus e não só perceberem que os países sustentáveis são aqueles que podem ter crescimento zero ou negativo sem problemas devido á produtividade, demografia.
Se eu vou a França por 50 Euros em vez de 250 Euros quer dizer que a economia contraiu e que também preciso de trabalhar menos para manter o meu nível de vida.


Na verdade ficámos mais ricos, mas é riqueza que não é passível de ser taxada a não ser que haja campos de trabalho forçado nos tempos livres.
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De VCM a 17.06.2010 às 01:06


Caro lucklucky,


O facto de o preço de bens e serviços baixar por efeito da produtividade é positivo para o crescimento económico. Liberta recursos e capital para a produção de outros bens e serviços. Para além de aumentar o poder de compra e consequentemente o nível de vida.

Aliás o aumento da produtividade foi a causa que permitiu a todos nós chegar ao nível de vida que temos hoje.


Em 1916 um trabalhador americano tinha de trabalhar 3162 horas para conseguir rendimento suficiente para comprar um frigorifico. Em 1997 tinha apenas de trabalhar 68 horas (ver http://www.dallasfed.org/fed/annual/1999p/ar97.pdf (http://www.dallasfed.org/fed/annual/1999p/ar97.pdf))


Se o problema é a taxação da riqueza - cuja utilidade é duvidosa - o aumento acontece através do aumento da base de tributação. Mais bens e serviços a serem transacionados geram mais receitas fiscais.


PS: Um abraço Carlos. Vou-te enviando mais uns links para o facebook.
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De Moedas a 17.06.2010 às 09:39

Obrigado VCM. Abraço.

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