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Os gauleses serão mesmo loucos?

por Francisco Proença de Carvalho, em 24.09.10

O modelo francês sempre foi visto por aqui como um exemplo do estado social quase perfeito (quase, só porque a perfeição não existe). Os dinossauros do sindicalismo sempre ambicionaram um Portugal mais francês do ponto de vista dos direitos sociais. Na França, riqueza e qualidade de vida seriam possíveis com 35 horas de trabalho semanais, 30 dias de férias (mais 11 feriados), reformas aos 60 anos e despedimentos quase impossíveis. Num mundo fechado, com concorrência limitada e assente em políticas proteccionistas, este era um modelo simpático. Claro está que a este deleite sempre se juntou uma das mais elevadas cargas fiscais da Europa, mas isso, na opinião dos iluminados, faz parte da Justiça Social. No entanto, a globalização e o dinamismo do mundo actual, alteraram as coisas. O problema evidente é: como pagar este modelo único? E a verdade é que já nem os socialistas mais socialistas sabem como. Isto porque se quisermos continuar a sustentar o modelo social à custa do aumento de impostos, ou seja, continuando a sacrificar o crescimento económico, teremos, seguramente, muito brevemente, mais pessoas a necessitar do Estado Social e a consequência é abismal. O orgulho francês insiste em resistir à realidade, mas ela parece ser mais forte do que qualquer estado de alma. Ver milhões de pessoas em greve no dia 23 de Setembro de 2010, porque existe a possibilidade de a idade mínima de reforma  aumentar dois anos, dos 60 para os 62, recorda-me os livros do Asterix em que os Romanos clamavam: “Estes gauleses são loucos!”. Mas a diferença é que os gauleses de Goscinny e Uderzo eram loucos porque tinham uma poção mágica que os permitia ser excêntricos. Infelizmente, não consta que o Sr. José Bové seja o Panoramix.

França é um grande país, com o potencial próprio de um grande país. Mas acomodou-se ao seu modelo social. As melhores cabeças já lá não estão, o seu idioma está em desuso, a sua cultura estagnou e até os portugueses já não vêem grandes razões para emigrar para Paris.

O modelo social tal como o conhecemos está em vias de acabar. E só acaba porque não há dinheiro para o sustentar. Mas, independentemente disso, haveria muitas razões para o reformular aprofundadamente. Pena é que só estejamos a acordar para a realidade no momento da iminente falência do modelo… E, mesmo assim, por aqui, há quem esteja à espera de o ver morto e enterrado para reconhecer a realidade.


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De PALAVROSSAVRVS REX a 24.09.2010 às 02:38

Ó Francisco, tudo bem. Mas por que não um postezito mais sucinto?! 
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De anonimo a 24.09.2010 às 10:35

É curioso como passámos da falência do capitalismo desregulado, que precisou de massivas injecções de capital público para se safar,  para a falência da social democracia, porque já não há dinheiro público para a suportar.
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De Essa pormenor eles relevam... a 24.09.2010 às 12:05

Pois aí é que está!


A quase-falência do sistema neo-liberal e capitalista depauperou as contas dos estados, ao verem-se obrigados a salvar a banca.
Mas disso já estes senhores não se lembram...


E o facto de escrever que já nem os portugueses emigram para Paris, mostra a sua ignorância sobre o país real. A maioria dos emigrantes portugueses em França não estão, nem nunca estiveram, em Paris. Alguns estão lá há décadas e nunca foram sequer de visita a Paris.


O país não é o seu condomínio fechado nem o seu círculo de amigos...
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De Octávio dos Santos a 24.09.2010 às 13:08

Deve escrever-se aqui IMINENTE («falência do modelo...») e não «eminente».
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De Francisco Proença de Carvalho a 24.09.2010 às 16:12

Tem toda a razão. Obrigado
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De lucklucky a 24.09.2010 às 16:56

"É curioso como passámos da falência do capitalismo desregulado"



Hahah! Foi a "desregulação" que fez os Bancos Centrais Políticos colocar os juros baixos que  criaram uma bolha no crédito de modo ao Estado Social ter a economia bem quentinha para cobrar impostos e mesmo assim nem sequer conseguiram sustentar o crescimento imparável. 
Sem o dinheiro a girar cada vez mais rápido não há Estado Social...
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De anonimo a 24.09.2010 às 17:52

Em boa verdade o mercado financeiro tem vindo a ser desregulado há uns bons anos. Foi isso que permitiu o aparecimento de activos tóxicos mascarados como bons investimentos, e instituições financeiras com peso suficientemente grande na economia para não poderem falhar (daí a necessidade de serem salvas pelo erário público).

Seguramente que as politicas de crédito dos bancos centrais não ajudaram, mas a desregulação do sector financeiro é que permitiu o nascimento destes "monstros", salvos pelo dinheiro dos contribuintes.
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De Francisco Castelo Branco a 24.09.2010 às 17:26


muito bom texto.

cá os nossos politicos só se preocupam aumentar impostos.
não fazem nada para evitar esse desiderato
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De Fernando Soares a 25.09.2010 às 13:01

Caro Francisco,

Bom tema!
Esta vai ser a preocupação das novas gerações. São os que agora entram na vida activa, séria e responsável que vão ter de pagar a factura de um estado que prometeu socialmente o que não poderá oferecer financeiramente

A nova Europa vai ter de discutir este tema bem a sério. É preciso encontrar soluções. Neste tema devem ter a palavra os mais novos, pois os dinossaurios já não estarão cá para ver o estragos do seu pontapé nas gerações futuras. Daqui a 20 anos restarão as suas pegadas políticas e umas monstruosas contas por pagar.

Fernando
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De Dorean Paxorales a 26.09.2010 às 11:28

ora bolas, ninguém fala dos dinamarqueses, na miséria, com carga fiscal a 70%? e os desgraçados dos austríacos, quase na falência por anunciarem 150.000 novas vagas na função pública no fim de 2009? para não falar na alemanha, não fora a garantia de subsídio de desemprego, rendimento mínimo e 40 horas de trabalho *mesmo* e já tinha recuperado da recessão com certeza absoluta.

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