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Orgulho e preconceito

por Francisco Mendes da Silva, em 19.06.11

Se quisermos perceber bem a dimensão do salto geracional que o novo governo representa, há um ângulo a partir do qual o devemos apreciar: este é o primeiro governo de sempre com ministros nascidos depois do 25 de Abril (a Assunção Cristas e o Luis Pedro Mota Soares). É claro que uma nova geração não significa necessariamente uma nova mentalidade, e que para esse efeito é relativamente indiferente que um ministro tenha nascido em 1975, 1974 ou em 1973 (ou em 1970 ou em 1968). Mas é um facto impressivo que, 37 anos depois do 25 de Abril, haja um governo com uma média de idades de 47 anos. Significa isso que, com grande probabilidade, muitos dos seus membros não cresceram politicamente com os preconceitos das guerras ideológicas que fundaram o regime e possuem grelhas de interpretação do mundo completamente distintas das que têm vigorado. Em princípio, é uma boa notícia. Quando se diz que quem nos trouxe à crise não há-de tirar-nos dela, não podemos falar só dos últimos seis anos: por muito trágicos que tenham sido, a verdade é que os anos Sócrates mais não foram, em bom rigor, do que uma insistência irresponsável nas políticas do costume.

 

Só daqui a algum tempo compreenderemos se o impulso geracional do governo foi apenas um epifenómeno etário ou algo mais do que isso. Para já, manifestam-se os preconceitos sociológicos. Portugal, como país tipicamente patriarcal, suspeita da juventude e da política democrática - prefere o governo dos velhos à liderança reformista dos jovens, e os "independentes" (os senhores doutores) aos que têm afiliação a essa actividade suja e indigna que é a política. E era isso que toda a gente esperava: um governo de sábios anciãos, de sobas, de druidas, de estrelas livres do vírus da politiquice - uma selecção nacional dos bons e famosos, que por serem bons e famosos seguramente iriam mostrar à Nação um caminho de felicidade nunca antes sondado.

 

Não venceu esse canto de sereia (porventura, é certo, por causa de algumas recusas) - e ainda bem. Sim, alguns dos nomes de que se falaram nos últimos dias teriam a minha adesão entusiástica e orgulhosa. Mas não um governo feito de uma manta de retalhos galáctica. Este vai necessariamente ser um governo de combate: de trabalho incessante e copioso, de ruptura com o status quo ideológico, de confronto com os interesses fácticos, de um desgaste inaudito. Vai ser um governo para gente nova, com disponibilidade física e psicológica para trabalhar noite e dia, e com mais a ganhar do que a perder por fazer parte do executivo. Será demasiado importante para ser constituído por pessoas que achem uma despromoção o exercício de funções governativas, porque essas, normalmente, desistem à primeira contrariedade.

 

Com a pressão social e mediática que vai existir - e com uma oposição com tudo para ser absolutamente irresponsável -, terá também de ser um governo com uma coesão à prova de bala e com uma habilidade política experimentada. Em Portugal, suspeita-se muito dos políticos no governo (um paradoxo que é umas das mais admiráveis especificidades da portugalidade - onde é que já se viu um político a fazer política?). Aceita-se com um módico de boa-vontade a existência de um Parlamento, de partidos e de alguns debatezinhos para manter a gente que a eles se dedica entretida com um expediente quotidiano. No entanto, quando é para governar, a coisa pia mais fino: é preciso que os cristos desçam à Terra. Pois eu cá penso exactamente o contrário. Para mim - e sem prejuízo de poder gostar mais de uns do que outros -, o mais natural é que os ministros saiam do Parlamento - se calhar por ter o meu modelo na Grã-Bretanha (onde os membros do executivo são todos obrigatoriamente membros do Parlamento, no qual passam anos a estudar, a discutir e a propor as medidas que depois levarão para o governo, e a especializarem-se na actividade de persuasão e de gestão de consensos que é o núcleo da actividade política).     

 

Este governo tem tudo para ser olhado com desdém - como um conjunto de miúdos inexperientes e de aparelhistas implacáveis. Mas este é o tempo de sermos preconceituosos com os nossos preconceitos.


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De LB a 20.06.2011 às 00:04

Queria dizer "é um facto impressivo", ou "é um facto impressionante"?!? Cuidado com as "más influências" das línguas estrangeiras...!!!!
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De Francisco Mendes da Silva a 20.06.2011 às 00:05

Queria dizer "impressivo" - que causa uma impressão (e não que causa impressão).
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De Casimiro Duarte a 20.06.2011 às 01:23

Já que estamos numa de correcções, no seu texto não faria mais sentido "fia mais fino" em vez de "pia mais fino"?
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De Javali a 20.06.2011 às 17:04

Impressivo não existe. "que causa uma impressão (e não que causa impressão)". Isto não quer dizer nada, porque causar impressão é causar uma impressão.
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De Anónimo a 20.06.2011 às 01:33

"Portugal, como país tipicamente patriarcal, suspeita da juventude e da política democrática - prefere o governo dos velhos à liderança reformista dos jovens"


Historicamente isto é falso. Vejo as idade sdos líderes políticos  aquando das revoluções liberais, da implementação da Republica, dos fazedores do 28 de Maio, do Salazar ou da classe politica abrileira.
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De Anónimo a 20.06.2011 às 03:03

É pá! oh porreiro (pá, risos até partir)! não me venhas com essa lenga-lenga que até dá vómitos do, "Mas este é o tempo" de má memória como todos sabem, aliás tenho vindo a reparar que essa "FILOSOFIA MANHOSA" esse tipo de TIQUES MANHOSOS  tem vindo a contaminar muita boa gente da classe política que ascendeu, espero bem que saibam conter-se a todo o custo no seu uso, para seu bem e para bem de todos. Uma Limpeza cerebral dessa "FILOSOFIA" é urgente.
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De Anónimo a 20.06.2011 às 03:07

Orgulho e preconceito (http://31daarmada.blogs.sapo.pt/5159763.html), pois ok, mas agora toca a trabalhar (com ou sem Nobre ou salpicão) que há muito português que vai morrer de tudo (não só de fome e de sede) nos próximos 3 anos.
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De João Villalobos a 20.06.2011 às 09:15


Excelente post.
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De ANL a 20.06.2011 às 11:29

Muito bem, caro vizinho!
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De Blague de Esquerda a 20.06.2011 às 14:08


Não se alcançam alguns dos objectivos da Troika apenas com membros do governo, por muito jovens e pouco preconceituosos que sejam. Sem mudanças na Constituição parece que nada feito...

http://blaguedeesquerda.blogspot.com/2011/06/este-nao-e-o-sonho-de-sa-carneiro.html (http://blaguedeesquerda.blogspot.com/2011/06/este-nao-e-o-sonho-de-sa-carneiro.html)

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