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Os azares de Johm Galliano

por Rodrigo Moita de Deus, em 05.01.12

 

Um dos casos judiciais mais marcantes de 2011 foi a condenação, a uma multa de seis mil euros, por um tribunal de Paris, do estilista John Galliano. Este criador de moda da casa Dior, aparentemente ébrio, declarara o seu monstruoso amor a Hitler, desejando a morte do casal de judeus que estava a seu lado, num bar da antiga judiaria parisiense.

 

O primeiro azar de John Galliano foi o vinho. Não fosse o néctar dos deuses e o sujeito não teria experimentado o banco dos réus. Para maior infelicidade do etilizado estilista que, à conta disto, poderá ficar ainda mais anti-semita, a Bíblia atribui a Noé, o mesmo da prodigiosa arca, a invenção do vinho. Ainda assim, o balancear de Noé pelo convés seria mesmo coisa da maré, não do vinho … Porém, é verdade que a Sagrada Escritura conta que Noé se embriagou alguma vez, tendo também ele protagonizado tristes figuras.

Os antigos diziam: «in vino veritas», ou seja, o vinho predispõe à verdade. Pois é, mas isso é só quando é bebido com conta, peso e medida. Quando se está grosso, geralmente é grossa a asneira que sai. Foi o caso de Monsieur Galliano que, de facto, não poderia ter sido mais desastrado.

 

O segundo azar de John Galliano foi Adolf Hitler. Imagine-se que o agora condenado se tinha apresentado no bar envergando uma camisola com a efígie de Estaline, um boné à Mao, ou até que fazia um brinde à saúde, por sinal bastante debilitada, do camarada Lenine. É certo e sabido que ninguém se teria sentido incomodado com tais alusões, muito embora esta troika tristemente famosa tenha sido, até passando por alto a mórbida e mesquinha comparação contabilística das respectivas vítimas, tão prejudicial à humanidade quanto o diabólico líder nazi.

 

É razoável que se condene, sem hesitações, a tirania nazi, mas não parece justa a relativa complacência, ou cumplicidade, em relação às outras ditaduras. É de facto estranho que, na mentalidade dominante, haja, ao que parece, tiranos bons e tiranos maus: os primeiros podem desfilar em peças de roupa, ser elogiados e festejados em canções; mas, dos segundos, nem os nomes malditos podem ser tolerados. A foice e o martelo são adereços inócuos, mas a cruz suástica é uma provocação inadmissível. Amar Lenine, Estaline, Mao ou Che Guevara é politicamente aceitável, mas gostar de Hitler não.

 

O terceiro azar de John Galliano foi o facto de ter insultado um casal de judeus. Tivesse tido a sorte de ofender um par saloio cá da terra e, na pior das hipóteses, levava apenas um sopapo, à antiga portuguesa, e não se falava mais do caso. Mas tocar num casal judeu, o que é obviamente inadmissível, em especial quando a raça é o motivo, é muito mais grave do que incomodar um par de qualquer outra etnia ou religião. É óptimo que o sofrido povo hebraico goze dessa merecida protecção, mas seria desejável que, na comunidade internacional, não houvesse nacionalidades, ou credos, de primeira e de segunda classe.

 

O quarto azar de John Galliano foi a sua falta de pontaria quanto às vítimas da sua ofensa verbal. Teve azar, como já se disse, pelo facto de serem judeus ou, mais concretamente, por serem aqueles judeus. Com efeito, há judeus que podem ser ofendidos impunemente e, por isso, é fundamental a pontaria.

 

Se o estilista tivesse tido a sorte de, por hipótese, injuriar os judeus Jesus e Maria de Nazaré, o seu gesto não só não seria susceptível de procedimento criminal, como até seria previsivelmente louvado. Não faltaria quem defendesse a genialidade criativa do provocador e os eventuais protestos seriam silenciados, por contrários à laicidade das instituições e às sacrossantas liberdades artísticas. Cristo e sua Mãe são, com efeito, os dois únicos judeus que se podem insultar, à vontade, no mundo inteiro e, principalmente, no ocidente.

 

Quatro azares são demais para um homem só. Não parece fácil que o etilizado John Galliano se consiga reabilitar depois de tão monumental sarilho. Para que não seja em vão o azar do infeliz estilista, aprenda-se pois a lição.

Primeiro: não se embebede, se quiser insultar ou, pelo menos, não insulte, se estiver embriagado, ou ainda, em termos de prevenção rodoviária: se bebeu, não ofenda! Mas o melhor mesmo é que não insulte nunca ninguém. Segundo: declare o seu amor eterno a um tirano politicamente correcto, ou seja, qualquer um que não seja o execrável Hitler.

 

Terceiro: ofenda um par, de preferência casado em regime de comunhão de agravos, de qualquer religião ou nacionalidade que não a judaica. E, quarto: se, apesar de tudo, optar por judeus, não se esqueça que só há duas pessoas dessa nacionalidade que podem ser impunemente ultrajadas em público.

E, já agora, tenha também o que faltou ao desgraçado John Galliano: sorte!

 

Gonçalo Portocarrero de Almada

 

P.S. Aviso à navegação: este artigo não é contra Noé, nem as arcas, nem o vinho, nem as camisolas, nem os estilistas, nem os comunistas, nem os judeus, nem os saloios, nem a prevenção rodoviária. Também não é a favor de Galliano, nem de Hitler, nem dos grupos nazis, nem do anti-semitismo, nem do comunismo, nem do fundamentalismo islâmico ou outro. Mas é, seguramente, contra a hipocrisia e a favor da verdade na caridade e da igualdade e liberdade de todos os homens, povos e religiões.


lavagem de mãos e outras medidas profiláticas

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De Maria a 06.01.2012 às 16:41

Gostei do post. E também gostava - muito - do que o Jonh Galliano fazia na Casa Dior. Não lhe poupa a asneira. Mas tem um talento, tão grande, que é maior do que ele.
Maria
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De Beirão a 06.01.2012 às 18:58

Tiro-lhe o chapéu , Gonçalo. Lúcida observação da  miserável hipocrisia que grassa nos media do Ocidente, em geral, e nos do nosso "piquenino" país, em especial.
Os terroristas, torcionários, genocidas, assassinos em massa de esquerda são, para a canalha esquerdoide que se alapou nos mediia, 'tudo boa gente', enquanto os terroristas, etc. de direita são criaturas tão horrorosas e execráveis que, só de pronunciar-lhes o nome, dá cadeia.
Três mulhões de ucranianos chacinados pela  URSS. 1.7  milhões de de cambojanos assassinandos pelos kamaradas Khmers Vermelhos. Etc. Mais  de 100 mil milhões de pessoas inocentes mortas às mãos co Comunismo (Livro Negro do Comunismo).
Estes gajos e gajas do maldito 'politicamente correcto' que enxameiam as televisões, os jornais e as rádios metem-me nojo. Muito nojo! 
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De Beirão a 06.01.2012 às 19:16

 Estive a passar à pressa a vista pelos comentárrios e repoqarei que neles se destaca uma pobre criatura que assina 'João' que, pelo chorrilho de disparates, mentiras e insanidades, é digno de pena e compaixão. Estes pobres comunas nunca vão querer enxergar a realidade da História. A 'coisa' que este Jõao defende aguerridamente implodiu, arrebentou, foi pr'o galheiro! Mas o gajo continua crente de que o comunismo/marxista continua a ser o Luzeiro, a Aurora da Humanidade, o Grande Farol, os Amanhãs que Cantam!
Por que porra reste gajo não se pira para a querida Coreia do Norte, em  que até as  andorinhas, em peso, vieram chorar a morte do Grande Líder (como diziam nas nossas televisões os mentecaptos dos nossos locutores/as. O Pinochet, por ser de direita, é que, para essses mentecaptos, é um exrável ditador...
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De João. a 06.01.2012 às 23:42

Você é muito apressado. Fala como se eu defendesse purgas, terrorismo, tortura, etc. Não defendo nada disso. Reconheço que a história do comunismo tem um rol de crueldades muito pesado mas a questão é que não rendo simplesmente ao capitalismo o domínio do meu pensamento e das minhas opções políticas.

Para vocês o PCP é culpado de tudo o que na história do comunismo foram políticas desumanas, esta é a vossa lógica. Não importa o que o PCP de facto fez, já que o que fizeram e fazem os outros Partidos Comunistas recai também sobre o PCP. Esta é a lógica que eu recuso.

Talvez isto seja subtil demais para você, mas aí já não posso fazer nada.
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De Francisco Colaço a 06.01.2012 às 22:19

Imagino, Caro João, que estou enganado quanto à morte de Estaline. Disse que ele apenas foi um ídolo para o comunismo mais vermilhóide (grafia intencional) durante a sua vida. Pois juro ter ouvido a Odete ″Beata Rossa„ Santos afirmar e asserverar textualmente \"O Estaline era um santo!\"
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Pode ser que ela estivesse a dizer que afinal o homem não era georgiano coisa nenhuma, e que afinal se chamava José Santos e que tinha nascido na Santa Porra de Lugar de Nenhures, em Portugal. E por isso seria um Santo. Mas ou o Estaline morreu muito tarde ou então esse irmão gémeo do Hitler é afinal um ídolo dos vermes (e não me refiro àqueles que o andaram a comer).
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De João. a 06.01.2012 às 22:56

Ok. Todos os comunistas são herdeiros de Stalin e culpados das purgas. É o tal princípio bíblico da culpa que atravessa várias gerações.
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De Francisco Colaço a 06.01.2012 às 22:45

Pergunta o João quantos mortos são aceitáveis.  Respondo-lhe que no relativismo dialético da esquerda, essa fasquia é ignorada, conquanto os mortos sejam ordenados a essa condição pelos facínoras do partido.
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E já que quer um exemplo recente de execráveis práticas do contumismo (grafia intencional) internacional, dou-lhe três:
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1) Jornalistas presos para a vida em Cuba, em condições de tal forma deploráveis que irão mesmo morrer.  Um jornalista de 50 anos preso por 25 está preso para a vida;
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2) Rapto e extermínio de civis pelas FARC (Fuerzas Armadas Revolucionárias de Colómbia ou, cá para o burgo, Produtores de Droga Unidos);
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3) Coreia do Norte.  Um grupo de turistas franceses foi de visita ao país.  Havendo duvidado da versão da história que a guia contava no museu nacional, vociferou essas perguntas, o que deixou a pobre da guia perplexa.  Chegou o supervisor e o grupo foi instruído a não fazer perguntas ou «a sua visita teria de se prolongar por muitos meses».  É preciso palavras?
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E até lhe dou mais uma, pior que essas todas: ter de vez em quando de olhar na televisão para a fronha da Odete Santos e ouvir a sua voz arrastada, lenta e monocórdica, espelho perfeito do pensamento da Manada Vermelha.
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Pense na sua cassete.  Agora calo-me pois, Caro João, disse o que tinha a dizer.  E, já agora, 20000 são menos que 1.150.000 mais trocos mal contados e números que falta contar.
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De João. a 06.01.2012 às 23:12

Tirando possíveis lendas urbanas como essa dos franceses na Coreia e a má digestão de enchidos que se mostra na sua apreciação de Odete Santos, não nego o dados que você apresenta, mas ao mesmo tempo os Partidos Comunistas eurpeus, nomeadamente o português, têm a sua história e a sua proposta política autónoma - se vir o programa do PCP/CDU vê que não tem nada a ver com os casos que você apresenta.

Você quer simplesmente sugerir que tudo evolui menos o PCP.

Já que fala de número mortos, falemos de Portugal e de quanto mortos e torturados o foram pelo PCP e quantos o foram pela Igreja Católica... 
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De João. a 06.01.2012 às 23:20

E há ainda uma diferença importante entre eu e você.
Eu assumo abertamente que na história global do comunismo foram (e são ainda) cometidas atrocidades, já você não admite para o capitalismo senão maravilhas. É por isso que você começa por ser um hipócrita querendo passar por moralizador.
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De Francisco Colaço a 08.01.2012 às 02:13

Se o caro João me disser onde usei eu a palavra «capitalismo» ou mesmo «economia de mercado», então aquiescerei ao seu viturpério.
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Digo apenas que o comunismo é, de longe, a mais mortífera das ideologias jamais divisadas pelo homem, que viver num país comunista ou socialista é o que mais se aproxima do inferno, e que se já não foi lá, terá de acreditar em mim.
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Acrescento que o PCP nunca se retratou explicitamente das atrocidades cometidas, louvando-as às Segundas, Quartas e Sextas, criticando-as tibiamente às Terças Quintas e Sábados e afirmando que a Coreia do Norte é uma democracia exemplar junto com Cuba aos Domingos.  Pode por isso perceber que o que está escrito no programa eleitoral do PCP é tão de acreditar como uma promessa do José Sócrates.  Por mais que me fale nesse programa, eu chamo-lhe um panfleto, provindo da boca de excrecências e flibusteiros, mentirosos empedernidos, vermelhos do sangue de milhares de milhões.
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Agora, se encontrar no que escrevi algum louvor ao capitalismo, seja o que isso for, recebe o prémio de consolação, umas férias nas casas de repouso da Главное управление исправительно-трудовых лагерей и колоний.  (desculpe lá, o meu teclado cirílico não está configurado e o nome da organização até tirei dum sítio russo.  Já lhe referi, caro amigo, que falo a língua russa e a chinesa?)
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De DIABO COXO a 07.01.2012 às 10:37

Concordo com o meu primo, padre.
Aliás, batizou o meu filho.
É um grande homem!

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